Quando o Brasil fala em gastronomia, fala em mercado. Mas iniciativas como a Cozinha das Tradições revelam algo maior: uma verdadeira tecnologia indígena em funcionamento.

Fonte: Instagram Cozinha das Tradições
A cozinha como expressão de tecnologia indígena
O que é tecnologia indígena?
Tecnologia indígena é um sistema de conhecimento baseado na relação individual somando entre território, prática, memória e coletividade, transmitido entre gerações.
A “Cozinha das Tradições” destaca-se como um espaço essencial para a preservação e celebração das memórias culinárias dos povos tradicionais do Rio de Janeiro. Integrada ao 12º Congresso Brasileiro de Agroecologia (CBA), realizado entre 20 e 23 de novembro de 2023, essa iniciativa reuniu indígenas, quilombolas, caiçaras e outros grupos, promovendo uma rica troca de saberes e práticas ancestrais. Durante o evento, receitas com mais de 200 anos de história foram preparadas em estruturas construídas coletivamente, como casas de pau a pique e fornos de argila, simbolizando a união entre passado e presente na culinária brasileira.
Mas queremos saber mais sobre isso, e iremos conversar em uma entrevista exclusiva com Elvira Alves Sateré Mawé.
Elvira Alves Sateré Mawé, ex-coordenadora da Feira UrussuMirim Karioka, palestrante e empreendedora indígena à frente da Pirakuy Artes, compartilhou conosco suas realizações e os desafios enfrentados à frente dessas importantes iniciativas culturais. Durante a conversa, exploramos como a feira tem se destacado na valorização da cultura indígena em um ambiente urbano e o impacto positivo que ela tem gerado tanto em comunidades indígenas quanto em não indígenas no Rio de Janeiro.
Além disso, Elvira nos ofereceu uma visão mais ampla sobre a “Cozinha das Tradições”, abordando sua relevância na preservação das culturas indígenas e destacando o papel essencial que projetos como esse desempenham na promoção e transmissão de saberes ancestrais. Uma figura proeminente no fortalecimento das tradições indígenas no Brasil, Elvira é exemplo de dedicação, resistência cultural e empreendedorismo comprometido com a valorização de sua ancestralidade.
Na entrevista, falaremos sobre:
- O que motivou a criação da Feira UrussuMirim Karioka e como foi o processo de sua organização inicial.
- Quais são os principais objetivos e conquistas da feira até o momento.
- Os desafios enfrentados para manter viva a cultura indígena em espaços urbanos e como a feira atua para superar esses obstáculos.
- A relevância do artesanato indígena e de iniciativas como a Pirakuy Artes para a preservação das tradições culturais.
- Os planos futuros para a feira e como ela pode expandir seu impacto na valorização da cultura Sateré Mawé e de outros povos indígenas.
O que está em jogo não é apenas cultura, mas o reconhecimento da tecnologia indígena como sistema legítimo de produção de conhecimento.
Elvira Alves Sateré Mawé tem muito a compartilhar, e estamos ansiosos para mergulhar em sua trajetória inspiradora. Fique atento para a entrevista completa!

Rádio Yandê: Qual é o primeiro passo no processo da Cozinha das Tradições e como os participantes são envolvidos?
Elvira Alves Sateré Mawé: O primeiro passo na Cozinha das Tradições é ouvir como cada indivíduo entende o que ela representa e como se vê dentro dela. Através de reuniões gerais ou individuais, buscamos despertar a compreensão de que esses participantes não são apenas fazedores de comida, mas sim mestres e mestras detentores de saberes culturais ancestrais.
Rádio Yandê: Como foi construída a base da Cozinha das Tradições, e como é preservada a individualidade dos participantes?
Elvira Alves Sateré Mawé: A base da Cozinha das Tradições foi construída nos territórios, em busca de indivíduos que carregam consigo saberes únicos. Sempre preservamos a individualidade de cada pessoa, pois entendemos que cada um possui memórias pessoais e afetivas vividas com pais, mães, avós e outros familiares.
Rádio Yandê: Quais métodos são utilizados nos encontros para acessar os saberes individuais?
Elvira Alves Sateré Mawé: Em nossos encontros, realizados por meio da Casa da Fala e da Casa da Escuta, procuramos acessar esses saberes sem interferências externas ou imposições hierárquicas. Cada indivíduo é valorizado por suas próprias memórias e saberes, sendo responsável por eles.
Rádio Yandê: Qual é o maior desafio enfrentado pelo projeto na construção desse espaço coletivo?
Elvira Alves Sateré Mawé: O maior desafio é fazer as pessoas entenderem que a Cozinha das Tradições é um espaço de construção permanente, tanto física quanto de conhecimento. Cada membro é como um tijolo nessa edificação coletiva, com seu valor único, sem ser maior ou menor que os outros.
Rádio Yandê: Como são realizados os registros das memórias culinárias durante as visitas aos territórios?
Elvira Alves Sateré Mawé: Durante as visitas aos territórios, que antecederam o CBA (Cozinha das Tradições), foram realizados registros em áudio das memórias. Durante e após o evento, esses registros continuam sendo feitos, agora também em fotos e vídeos. As receitas, no entanto, não são divulgadas publicamente; o foco está na história e no que cada prato representa para o indivíduo que o apresenta, dentro de sua etnicidade.
Rádio Yandê: Quais são os impactos ambientais e urbanos nas práticas alimentares tradicionais, e como a Cozinha das Tradições enfrenta essas questões?
Elvira Alves Sateré Mawé: Com a destruição das matas, a contaminação do solo e da água, os frutos e animais tornam-se mais escassos, dificultando práticas tradicionais como caça e pesca. Nas áreas urbanas, a situação é ainda mais crítica, pois ingredientes tradicionais são difíceis de encontrar, forçando muitos a consumir alimentos industrializados. Na Cozinha das Tradições, mestres e mestras buscam alimentos vindos de seus territórios ou de pequenos produtores, fortalecendo a economia local e, quando necessário, adaptam-se com o que encontram.
Rádio Yandê: Por que a Cozinha das Tradições não possui uma sede física fixa?

Fonte: Instagram Cozinha das Tradições
Elvira Alves Sateré Mawé: A Cozinha das Tradições não possui uma sede física fixa. Consideramos que os territórios são o “corpo” do projeto, pois é lá que encontramos os detentores dos saberes e memórias. Nós somos seus “braços”, conectando esses indivíduos e histórias.
Rádio Yandê: Como a Cozinha das Tradições valoriza os saberes simples e tradicionais?
Elvira Alves Sateré Mawé: Em primeiro lugar, é preciso reconhecer e valorizar os territórios, os indivíduos e suas práticas. Para muitos na sociedade, o valor é medido por diplomas ou certificados, mas a Cozinha das Tradições mostra que o verdadeiro saber está nas práticas simples: no prato de barro, nas folhas, na fumaça, na comida quase sem tempero, mas que revela o sabor autêntico do alimento. Esses saberes são transmitidos no encontro das pessoas, enquanto cozinham juntas, de forma natural e prática.
Rádio Yandê: Quais são os desafios estruturais enfrentados pelo projeto, e quais são as principais necessidades?
Elvira Alves Sateré Mawé: Contudo, enfrentamos muitos desafios estruturais. Nosso projeto não dispõe de recursos financeiros para viabilizar viagens aos territórios ou trazer os mestres até nós. Precisamos de suporte para transporte, estadia e alimentação, além de infraestrutura básica, como uma cobertura que proteja os fogões já construídos e as pessoas nos encontros realizados na ESDI (Escola Superior de Design Industrial).
Rádio Yandê: Qual é a visão da Cozinha das Tradições em termos de legado cultural?
Elvira Alves Sateré Mawé: A Cozinha das Tradições é um espaço de memórias, saberes e resistência, onde cada encontro é uma oportunidade de valorizar histórias, fortalecer identidades e construir um legado coletivo para as futuras gerações.
Contribuições Adicionais e Reconhecimento
Além de suas iniciativas mencionadas, Elvira tem participado de projetos colaborativos, como a série “Registros e Memórias”, produzida em parceria com a Rádio Mixtura. Nessa série, ela conduziu conversas esclarecedoras com outros líderes indígenas, destacando a importância da etnomídia na promoção de diálogos culturais.
Sobre Elvira Sateré Mawé
Elvira Alves Sateré Mawé, nascida no estado do Amazonas e atualmente residente no Rio de Janeiro, é uma destacada liderança indígena que atua como coordenadora da Feira UrussuMirim Karioka. Essa feira é uma iniciativa que visa promover e valorizar a cultura indígena na região urbana, criando espaços para a divulgação de saberes tradicionais e artesanato indígena. Além disso, Elvira é empreendedora da Pirakuy Artes, onde confecciona e comercializa artesanatos feitos de sementes e penas, contribuindo para a preservação e disseminação da cultura Sateré Mawé.
Participação na Rádio Mixtura
Em sua trajetória, Elvira tem participado de diversas iniciativas culturais e educativas. Por exemplo, ela conduziu conversas esclarecedoras com outros líderes indígenas, como Wiryçá Kariri-Xocó, destacando a importância da etnomídia na promoção de diálogos culturais.
Sua dedicação e trabalho têm sido reconhecidos em diversas plataformas, e ela continua a ser uma voz ativa na luta pela preservação e valorização da cultura indígena no Brasil.
Através de suas múltiplas iniciativas, Elvira demonstra que a cultura indígena é viva, dinâmica e essencial para a compreensão da identidade brasileira.
Para aprofundar ainda mais sobre o trabalho de Elvira Alves Sateré Mawé, confira esta entrevista em vídeo:
Ignorar essa tecnologia é ignorar a própria continuidade de sistemas indígenas de vida, sistemas baseados em tecnologia indígena, memória e território.
Não é sobre cozinhar. É sobre manter o mundo funcionando.
Redação Radio Yandê







