
Projeto une encadernaria artesanal, letramento étnico-racial, arte indígena e circulação pelas periferias para enfrentar o apagamento histórico dos povos originários no sul do Brasil
Realizado em Pelotas, no Rio Grande do Sul, o Kasãto articulou oficinas gratuitas de encadernaria artesanal, grafismo indígena e letramento étnico-racial em cinco regiões da cidade, culminando na exposição Caminhos de Kasãto, realizada entre 22 e 24 de abril de 2026, na Secretaria Municipal de Cultura de Pelotas. Idealizado por Kowawa Kapukaja Apurinã, o projeto reuniu 85 cadernos produzidos nas oficinas e mais de 60 artefatos, totalizando 68 objetos de 28 povos indígenas, segundo a idealizadora.
Em Pelotas, no sul do Rio Grande do Sul, um projeto cultural fez da encadernaria artesanal uma ferramenta de memória e do grafismo indígena uma linguagem de reparação histórica. O Kasãto: Letramento Étnico-Racial e Encadernaria através do Grafismo Indígena não se limitou a promover oficinas ou organizar uma exposição. Ele abriu um caminho para que a cidade fosse convocada a rever sua própria história a partir de uma pergunta urgente: quantas presenças indígenas ainda seguem apagadas das narrativas oficiais, das escolas, dos espaços culturais e da memória urbana?
A força do Kasãto está justamente nesse deslocamento. O projeto não tratou o grafismo indígena como ornamento, nem a encadernaria como simples técnica manual. Transformou ambos em instrumentos de leitura do mundo, de formação crítica e de produção de memória. Em suas publicações, o próprio projeto afirma nascer da urgência de enfrentar o apagamento histórico da presença indígena em Pelotas e no sul do Rio Grande do Sul, reconhecendo que o território é atravessado por memórias, grafismos, rotas e modos de vida indígenas que seguem ausentes dos materiais educativos, dos espaços institucionais e da narrativa oficial da cidade.
Essa é a potência maior do Kasãto: fazer a cidade olhar para aquilo que sempre esteve presente, mas foi sistematicamente invisibilizado.
Grafismo indígena como linguagem, memória e política
O grafismo indígena, no Kasãto, aparece como linguagem viva. Não é desenho decorativo, não é estampa deslocada de sentido, não é recurso visual esvaziado para consumo cultural. É memória, pertencimento, conhecimento e presença.
Ao aproximar grafismos indígenas da produção de cadernos artesanais, o projeto criou uma experiência pedagógica em que cada participante pôde entrar em contato com outra forma de registrar o mundo. Encadernar, nesse contexto, deixou de ser apenas juntar páginas. Tornou-se gesto simbólico: costurar histórias, reunir memórias, criar suporte para narrativas que a história oficial muitas vezes tentou interromper.
O projeto se apresenta publicamente como uma iniciativa de grafismo, encadernaria e letramento étnico-racial, vinculada à PNAB Pelotas/RS 2025, em parceria com o Artivismo Indígena e a produtora cultural Ruidosa Alma. O perfil analisado registra 57 publicações, 809 seguidores, 174 seguindo, perfil profissional ativo, link de inscrição para oficinas online e sete destaques temáticos, o que demonstra uma estratégia de comunicação digital organizada em torno da memória do projeto.
Essa presença digital não funcionou apenas como divulgação. Funcionou como arquivo. Cada post, cada chamada, cada depoimento e cada registro da exposição passou a compor uma memória pública do processo.
Cinco regiões, dez encontros e uma pedagogia territorial
O Kasãto circulou por diferentes regiões de Pelotas com oficinas gratuitas e itinerantes. As postagens indicam um percurso por cinco regiões da cidade, com encontros em espaços como Instituto Hélio d’Angola, CRAS São Gonçalo, CRAS Colônia Z3, APADPEL e CDD Dunas. O próprio projeto agradece a essas instituições por somarem forças no compromisso de levar arte e educação para as periferias da cidade.
Esse ponto é decisivo. O Kasãto não levou cultura para a periferia como se a periferia fosse ausência. Ele reconheceu esses territórios como lugares de produção de conhecimento, circulação de afetos, redes de cuidado e construção coletiva.
A descentralização do projeto transforma sua relevância. Ao sair dos circuitos culturais tradicionais e percorrer bairros, CRAS, associações e espaços comunitários, o Kasãto afirmou que o letramento étnico-racial não deve ficar restrito a salas acadêmicas ou instituições centrais. Ele precisa acontecer onde a vida acontece: nos bairros, nos encontros, nas mãos que produzem, nas conversas que atravessam gerações, nos cadernos que guardam memória.
Em uma das publicações de maior circulação, o projeto é apresentado como uma iniciativa que une arte, educação e ancestralidade, oferece oficinas gratuitas e itinerantes, percorre Centro, Fragata, Areal, São Gonçalo e Colônia Z3, e propõe enfrentar o racismo estrutural valorizando saberes originários. A postagem registra 359 curtidas e 37 comentários, indicando forte mobilização pública em torno da proposta.
Letramento étnico-racial além do discurso
Há projetos que falam sobre diversidade. O Kasãto fez algo mais profundo: construiu uma prática de letramento étnico-racial a partir da arte indígena, da memória territorial e da experiência manual.
O letramento étnico-racial, nesse caso, não aparece apenas como conceito. Ele ganha corpo no gesto de produzir um caderno, no contato com os grafismos, na escuta sobre povos originários, na circulação por territórios periféricos e na exposição final. A educação antirracista deixa de ser uma abstração e passa a ser vivida como processo coletivo.
O projeto também reconhece que a ausência de materiais produzidos por indígenas impacta diretamente a forma como crianças, jovens e comunidades compreendem a história local, reforçando estigmas, invisibilizações e violências simbólicas. A resposta do Kasãto é restituir memória, visibilidade e dignidade às histórias indígenas, conectando passado, presente e futuro.
Essa formulação coloca o projeto em um lugar de grande relevância pública. O Kasãto não é apenas uma atividade cultural. É uma ação de reparação simbólica.

A exposição como devolução pública à cidade
A exposição Caminhos de Kasãto foi o ponto de culminância do processo. Mas ela não deve ser entendida como encerramento burocrático ou vitrine de resultados. A exposição funcionou como devolução pública de uma jornada formativa.
O relatório de mídias registra que o projeto articulou grafismo indígena, encadernaria artesanal, letramento étnico-racial, arte contemporânea e memória dos povos originários, com oficinas em cinco bairros periféricos de Pelotas, dez oficinas de formação, exposição final na Secretaria Municipal de Cultura de Pelotas entre 22 e 24 de abril de 2026 e acervo com mais de 60 artefatos indígenas de diferentes povos. Na entrevista concedida à Rádio Yandê, Kowawa Kapukaja Apurinã detalha que a exposição reuniu 85 cadernos produzidos nas oficinas e 68 objetos de 28 povos indígenas, entre cestarias, cerâmicas, plumagens e obras autorais.
Em uma publicação de encerramento, o projeto informa que passou por cinco bairros de Pelotas com oficinas de encadernaria artesanal e letramento étnico-racial indígena. Em abril, expôs os cadernos produzidos pelas pessoas participantes na sala Ináh D’Ávila Costa, da Secretaria de Cultura de Pelotas, e apresentou mais de 60 artefatos indígenas, totalizando 68 objetos de 28 povos, segundo Kowawa Kapukaja Apurinã, na sala Antônio Caringi. Para a idealizadora, o momento marcou a primeira vez que a cidade de Pelotas recebeu uma exposição de autoria indígena, deslocando a presença originária para o centro simbólico de uma cidade marcada pela arquitetura colonial e pela memória do ciclo do charque.
Esse dado muda a escala da leitura. O que começou como oficina se transformou em exposição, acervo, memória pública e registro histórico. O que começou como encontro se tornou uma afirmação: Pelotas também é território atravessado por presença indígena.
Pelotas também é território indígena
Uma das frases mais importantes que emerge da comunicação do projeto é direta e profunda: “Pelotas também é território indígena.”
A afirmação aparece em publicação sobre a visita da vereadora Fernanda Miranda à exposição, em um contexto de fortalecimento das redes de mulheres que movimentam lutas e saberes originários pelas periferias da cidade. A postagem reconhece a importância da presença institucional, mas vai além: coloca a cidade diante de uma verdade histórica e política que precisa ser encarada.
Dizer que Pelotas também é território indígena é romper com uma narrativa que insiste em localizar os povos originários apenas no passado, na floresta distante ou na imagem congelada do imaginário colonial. É afirmar que a presença indígena também está no urbano, no sul, nas periferias, nas políticas culturais, nas salas de exposição, nos cadernos, nos grafismos, nas redes digitais e nas disputas contemporâneas por memória.
Essa frase deve permanecer como uma das chaves interpretativas do projeto.
Mulheres, redes de cuidado e presença institucional
Outro elemento importante do Kasãto é a presença de mulheres, educadoras, agentes culturais, participantes, lideranças e representantes institucionais na construção da rede do projeto.
As publicações registram a presença de profissionais da Secretaria de Cultura de Pelotas, de professora da rede municipal ligada à coordenadoria de relações étnico-raciais, de participante das oficinas, de vereadora e de outras pessoas que prestigiaram a exposição. Esses registros mostram que o projeto conseguiu atravessar diferentes campos: educação, cultura, política institucional, redes comunitárias e participação social.
Isso é essencial para entender seu impacto. O Kasãto não ficou isolado em si mesmo. Ele gerou circulação, encontro e reconhecimento. Produziu rede.
E projetos que produzem rede deixam marcas para além da execução formal. Eles criam continuidade.
A comunicação como parte da obra
O perfil @caminhosdekasato não foi apenas uma vitrine do projeto. Foi um território digital de memória. A organização dos destaques reforça essa leitura: Conexões Kasãto, Exposição, CDD Dunas, CRAS Colônia Z3, APADPEL, CRAS São Gonçalo e Centro aparecem como capítulos de uma cartografia do percurso.
Essa organização mostra que o projeto compreendeu a comunicação como parte da execução cultural. Não bastava realizar. Era preciso registrar, narrar, compartilhar e preservar.
Em tempos de apagamento, comunicar também é proteger a memória.
A comunicação do Kasãto construiu uma narrativa com começo, meio, culminância e continuidade. Primeiro, apresentou a urgência do projeto. Depois, convocou os participantes. Em seguida, registrou oficinas, agradeceu instituições, anunciou a exposição, publicou depoimentos, marcou visitas, documentou o encerramento e abriu novas atividades online sobre empreendedorismo cultural e arte como resistência. Essa trajetória digital demonstra maturidade narrativa e valor documental.
Política pública como instrumento de reparação
O Kasãto foi aprovado no Edital de Chamamento Público nº 001/2025 – Fomento a Projetos Culturais e Áreas Periféricas, no âmbito da Política Nacional Aldir Blanc – PNAB, Lei nº 14.399/2022. Essa informação aparece de forma recorrente nas postagens, reforçando a vinculação do projeto ao fomento público cultural.
Esse ponto precisa ser destacado porque o projeto demonstra, na prática, o que uma política cultural pode gerar quando alcança territórios periféricos e iniciativas com protagonismo indígena. A PNAB, nesse caso, não aparece apenas como fonte de financiamento. Ela se torna instrumento de circulação, formação, acesso, memória e reparação histórica.
Quando uma política pública permite que grafismos indígenas, encadernação artesanal e letramento étnico-racial cheguem a diferentes regiões de uma cidade, ela deixa de ser apenas uma rubrica administrativa. Torna-se presença concreta na vida das pessoas.
O que o Kasãto ensina ao Brasil
O Kasãto ensina que cultura indígena não é passado. É método, presença e futuro.
Ensina que grafismo indígena não é ornamento. É escrita visual, memória coletiva, linguagem de território e forma de conhecimento.
Ensina que encadernar pode ser muito mais do que costurar folhas. Pode ser costurar histórias interrompidas.
Ensina que periferia não é ausência de cultura. É território de criação, encontro, disputa de narrativa e produção de saber.
Ensina que letramento étnico-racial não se faz apenas com explicação. Faz-se com experiência, corpo, escuta, prática, objeto, território e memória.
Ensina que uma exposição não precisa ser apenas resultado final. Pode ser uma devolução pública. Pode ser um ato de presença. Pode ser um modo de dizer à cidade: nós sempre estivemos aqui.
Uma metodologia possível para outras cidades
A potência do Kasãto é tão grande que ele pode ser lido como uma metodologia replicável.
Primeiro, identifica-se o apagamento indígena local. Depois, constrói-se uma experiência formativa em territórios periféricos. Em seguida, articula-se uma prática manual com saberes indígenas. Depois, realiza-se uma exposição/devolutiva pública. Por fim, registra-se tudo em uma memória digital capaz de permanecer como arquivo, prova e inspiração.
Essa metodologia poderia ser chamada de Pedagogia Kasãto de Memória Territorial Indígena.
O Brasil precisa de mais experiências assim: projetos que não apenas falem sobre povos indígenas, mas que criem condições para que povos indígenas produzam conhecimento, conduzam processos, ocupem espaços e disputem a memória pública.
Kasãto como gesto de futuro
Ao final de seu primeiro ciclo, o Kasãto não termina. Ele se multiplica.
Uma publicação posterior ao encerramento afirma que a resistência iniciada pelo projeto continua se multiplicando nos territórios culturais, anunciando oficinas online sobre empreendedorismo cultural e arte como resistência.
Essa continuidade é importante porque mostra que o projeto não se encerra na exposição. Ele se desdobra em formação, articulação, pensamento e permanência simbólica.
O Kasãto deixa cadernos. Deixa grafismos. Deixa registros. Deixa acervo. Deixa encontros. Deixa uma pergunta para Pelotas. E deixa um caminho para outras cidades brasileiras.
A pergunta é: quem tem o direito de contar a história de um território?
O Kasãto responde com ação: quem carrega a memória, quem vive a presença, quem resiste ao apagamento e quem transforma arte em educação pública. Em Pelotas, o grafismo indígena virou caderno, o caderno virou exposição, a exposição virou memória pública e a memória pública virou disputa de futuro. Essa é a grandeza do Kasãto.
A voz de Kowawa: nome, memória e propriedade intelectual indígena
Antropóloga, artista, educadora e idealizadora do Kasãto, Kowawa Kapukaja Apurinã constrói sua atuação a partir da memória de sua avó Kasãto, da cosmologia Apurinã, da arte-educação e da defesa da propriedade intelectual indígena. Na entrevista a seguir, ela fala sobre nome, pertencimento, grafismo, apagamento, encadernaria, políticas públicas, autoria e os próximos caminhos do projeto.

Entrevista com Kowawa Kapukaja Apurinã
Quem é Kowawa Kapukaja Apurinã
Quem nasce indígena neste país, tem de aprender muitas coisas, entre elas sobreviver.
Não, quero falar de dores, mas o que fiz com elas e ressignifiquei com a arte e educação e antropologia indígena. Mas, para falar sobre si, é algo externamente difícil, pois é como você se percebe, de algum modo, é um pouco narcísico ocidentalmente analisando. Irei colocar algumas coisas, que escrevi na tese :O canto da terra e as palavras ancestrais: O Porancy e os Tupinambá no sul da Bahia-Brasil.
“A velha Kasatõ andava doente, acometida por uma rara enfermidade no pulmão. O papai estava preocupado, mas sentia que, enquanto sonhasse, sabia que ela permaneceria pelas terras do meio, a terra dos vivos. Sentia-me feliz em comer peixe moqueado, farinha e açaí, ao seu lado compartilhando a refeição com as mãos. Depois, deitávamos na rede e ficávamos conversando por horas. Vivíamos das nossas memórias, sempre retornando para Kaykuro (casa de pedra) e as nascentes do rio Purus em nossos pensamentos. Nos sentíamos honradas de nascermos, nunca nos escondendo atrás dos nomes dos brancos.”
Quando lidamos com o mundo ocidental, vamos aos poucos, criando camadas de proteção, igual a uma samaúma, que dança com os ventos fortes, para não perecer. Que sonha e transformar as dores em potência e sonhos realizáveis e irrealizáveis, as utopias da vida. A vida, a trajetória, não cabe no Lattes, isso é uma forma que usamos para tentar garantir o mínimo de dignidade, fora do território que se é oriunda. E, não é fácil, pois, o ocidente apenas nos enxerga com o exotismo dos perspectivistas e uma performance. Neste sentido, falar sobre trajetória e mergulhar nas dificuldades e perceber as vitórias, que se consolidaram a partir de dois pilares: dignidade e honra, isso além das palavras e discursos, mas com práticas. É entender, que o que você defende não tem preço, cargos ou glamour. Isso é integridade.
Parte de mim é gente, a outra parte é outra coisa que não é algo visível, mas advém das encantarias, da escuridão, das profundezas dos rios amazônicos, da essência do meu sangue que é terra.
“Nasci a pedra dura , jurubeba braba , onça pintada das profundezas das matas, jiboia que sonha. Indígena velha da maloca que amaldiçoa e abençoa.
Hábito nos mundos entre a escuridão da terra invadida e floresta densa.
No eterno luto da luta , de ver , sentir e a indignação das violências coloniais, aprendi a lutar com argumentos, conhecimento e espiritualidade.
Habita em mim a Esperança e a Fé inexorável de não desistir!
Hoje desejo a paz e concretização dos sonhos bons e que as pessoas tenham dignidade e honre a sua palavra e missão nesta vida.
“ Eu sou os sonhos dos meus ancestrais,” e vivo cada dia para honra e ser digna.
O que dirá Kowawa Apurinã para Tsura (Deus Apurinã) quando chegar às margens do Rio Purus sobre o que eu fiz nesta vida ?
_ Falarei que tentei honrar os meus ancestrais todos os dias.
Eu sou Kowawa Kapokaja Apurinã, a neta de Kasãto.
O que o nome Kowawa carrega que o nome civil e os documentos não conseguem expressar?
Penso que os leitores terão de ler a minha tese. No entanto, estamos falando de nome civil e indígena. O rezo mais forte é o nome. Não uso o meu nome civil, apenas para poder viajar e não ser localizada, e não pretendo mudá-lo, pois é a marca das violências cartoriais do estado brasileiro. Não é um papel, que irá me definir, mas uma conduta da caminhada, de uma família, de clã e de pertencimento. Isto é, sobre pertencimento e identidade, não virei indígena, nasci, é um pouco contraditório, está afirmação, pois temos direitos conquistados, mas a implementação destes é sempre uma outra luta. Exerço meus direitos de cidadania. E é preciso entender a pluralidade e a etnicidade que nos cerca e vivemos, e sair deste papo de curumim, e falar papo de Pajé ou Majé. Entender, que uma identidade não é individual, como muitos pensam, mas advém de uma coletividade permanente. Os documentos são apenas papéis, advindos de árvores estéreis e terra seca. Expressam sua função, mas não podemos nos limitar a isso, é apenas uma referência. Kowawa Kapokaja é o sentido da minha matéria terrena, o corpo que habito, águas calmas e turbulências disfarçadas de sorriso.
Kowawa é esperança de um mundo melhor, “a artista é a ave que voa e fala com Tsurá”.
Em que momento você percebeu que o Kasãto precisava existir?
Kasãto não precisa existir, ela existe. É o nome de minha avó, uma das mulheres ancestrais, oriunda das três irmãs, no qual na linhagem de meu pai Sakema, nasceu : Kamara Kimyo, Kowawa e Kamero, outras três irmãs.
O nome dela é força, pois honro sua existência profunda, embora não esteja entre os humanos vivos, ela habita no Rio Purus, ao lado da Samaúma, cuidado das plantas que a cercam. Ela habita nos meus pensamentos e sonhos, e converso com ela vez ou outra, a escolha do nome do projeto não é algo aleatório, mas anos de ideias para implementar no projeto: Kasãto: Letramento étnico racial e encadernaria através do grafismo indígena.
As árvores nascem de sementes, galhos pequenos… tudo é pequeno quando se sonha a primeira vez, mas com o tempo, o sonho aumenta e cresce, e um dia ele germina nos campos das ideias, e depois, na prática, percebemos a sua dimensão, altura e proporção que nos leva a ver a planta que virou árvores.
Que apagamento indígena o Kasãto enfrentou em Pelotas e no sul do Rio Grande do Sul?
No Rio Grande do Sul, quatro etnias sobreviveram ao massacre colonial: os Kaingang, os Xokleng, os Guarani Mbyá e os Charrua, estes últimos em processo de ressurgência. Contudo, não pretendo me aprofundar no relato sobre esses povos; entendo que esta narrativa não me cabe. Afinal, mesmo sendo antropóloga, busco não interferir em suas dinâmicas sociais. Tenho muito respeito, e não deixei de ser Apurinã morando no Rio Grande do Sul.
Uma pessoa indígena, qualquer lugar que se pisa é Terra indígena. A xenofobia, o racismo e a exotização alimentada por décadas no imaginário dos não indígenas é uma realidade que enfrento, no entanto, entendi que não posso mudar, mas posso educar, civilizar os brancos com humanidade, e, pois, tais razões, que o Projeto Kasãto foi pensado com a afetividade possível, e que o caminho pode ser a educação e a arte.
Apagamento sempre foi a narrativa dos vencedores, vamos apagar, educar sob a égide da nossa cultura eurocêntrica. As palavras, como costumo falar, tem origem, e quem estuda no ocidente, tem a obrigação de contrapor as narrativas, produzindo as nossas versões, sendo nós contadores das nossas realidades e vida. Quem apaga, não consegue apagar uma floresta, um rio a história não linear. Isso é impossível, sempre criamos estratégias para educar e civilizar, e acredito, que a Arte é um dos caminhos possíveis.
O que é grafismo indígena para além da ideia de desenho ou decoração?
Preliminarmente, a ideia de desenho e decoração não é oriunda do pensamento dos povos indígenas, e se algum indígena produz esta narrativa, tem de voltar para o seu povo a aprender com os mais velhos (troncos) sobre isso, e parar de ser papagaio de branco.
Os grafismos indígenas constituem legítimos sistemas de registro e comunicação, centrais para o pertencimento cultural das sociedades, e, neste sentido, é pertença nossa. Tratar desse assunto de maneira geral pressupõe descentralizar o conceito de escrita, reconhecendo que tais linguagens visuais são milenares.
Refuto veementemente a leitura ou olhar eurocêntrico que categoriza nossos grafismos sob o rótulo limitante de” desenhos decorativos”. Existe uma demanda artística/pedagógica de desconstruir/destruir/apagar esta percepção junto aos não indígenas, demonstrando que não existimos, organizamos e vivemos por meio do dualismo cristão. O grafismo é uma manifestação ontológica, parte indissociável da estrutura e da própria existência das nossas sociedades.
Por que unir grafismo indígena, encadernaria artesanal e letramento étnico-racial?
A arte ocidental, para nós, é uma linguagem de vida e autonomia. Quando pensei no Projeto Kasãto, vi na arte-educação o coração/sentido de todo o processo. Sei que muita gente usa palavras que machucam por pura ignorância escolar, repetindo a cartilha que o colonizador ensinou. É por tais motivos, que os batimentos do projeto, foi um espaço de trocas a partir do letramento étnico-racial. Tenho a legitimidade Apurinã para educar, sem precisar de intermediários ou de quem se apropria das nossas dores de modo desrespeitoso e mesquinho (lucrativo). Sentir o racismo não é só uma questão de cor de pele; é sentir o peso de existir/viver nas terras invadidas (cidades) que tentaram e ainda tentam nos matar. Mas nós sobrevivemos. Somos a lembrança nítida e a prova viva de que o projeto de nos extinguir faliu. Então sobrevivam, eduque-se, se civilizem, pois a ideia de civilização que temos é outra. E como, poderia expressar-me onde estou longe das florestas amazônicas, usei as técnicas da encadernaria, não é diferente de tecer um cesto de cipó, apenas com materiais diferentes, e assim, que nasceu com o Artivismo Indígena (Covid 19) ferramenta de sobrevivência, pois, foi a partir da crise humanitária, que sobrevivi, vendendo cadernos com grafismos e realizei sonhos antigos, pois a arte é a primeira ação da minha escrita. Ao idealizar o projeto Kasãto relacionei todas as afetividades e técnicas, arte-educação.
O que você viu acontecer com as pessoas durante as oficinas nos bairros da cidade de Pelotas, Rio Grande do Sul?
Os 10 (dez) encontros/oficinas realizados entre o meio urbano e rural de Pelotas (Fragata, Dunas, Centro, São Gonçalo e Colônia Z3), as oficinas promoveram a autonomia criativa através da arte e educação. O deslocamento pelo território foi essencial para alcançar pessoas interessadas, incentivar a criatividade espontânea e estabelecer diálogos através da encadernaria e letramento étnico-racial. A dimensão sensível da arte no Projeto Kasãto possibilitou o acolhimento e a construção de vínculos afetivos. O processo de confecção de cadernos artesanais aconteceu como uma pulsação de memórias, onde histórias de ascendência foram contadas e transpostas para o papel. Através da pintura e da aplicação de grafismos, os participantes materializam suas subjetividades e produzem narrativas visuais autênticas, relacionando com os grafismos indígenas e o letramento.
Foram produzidos 85 (oitenta e cinco) cadernos, costurados, pintados, que fizeram parte da Exposição Caminhos de Kasãto no Casarão 2,- Secult- Sala Inah D’Ávila Costa entre os dias 22 e 24 de abril, com a curadoria de Rogger Bandeira e Sá Bia. O evento contou com a presença de autoridades locais, entre elas a secretária das Mulheres, Marielda Barcellos, e o secretário da Igualdade Racial, Júlio Domingues. Também participaram integrantes das oficinas, professores, estudantes e a comunidade em geral. O momento marcou a primeira vez que a cidade de Pelotas recebeu uma exposição de autoria indígena. Os arranjos de grafismos e cores como borboletas voando, possibilitou outras vidas e destoou diretamente a sobriedade colonial da arquitetura luso-brasileira. No espaço que outrora pertenceu aos barões do charque e ao sistema escravocrata, a ocupação indígena se manifestou como uma quebra necessária. A arte não apenas decora, mas atua como uma ruptura social que tensiona o passado e o presente, e isso aconteceu com a exposição Kasãto. Na segunda sala Frederico Thebbi , com 68 ( sessenta e oito) objetos de 28 povos indígenas: cestarias, cerâmicas, plumagens e obras autorais e de dois artistas: Baltazar e Alessandra Simões Lopes que retratam a neta de Kasãto. Todos os objetos, é acervo pessoal que adquiri ao longo das pesquisas e trabalhos como antropóloga e educadora.
“Entre mbarakás, cocares, cachimbos, plumagens e cestarias, coexistem o corpo e a espiritualidade de 28 etnias de diferentes regiões deste Brasil continental e multicultural. A dinâmica aqui exposta revela que nada se constrói em isolamento. Para quem habita o espaço urbano, há um aprendizado imperativo sobre a integração entre natureza e cultura. São instrumentos rituais onde o que provém da terra é incorporado, rezado e sentido, transitando entre o visível e o invisível.Somos matéria perene e etérea, estrelas vivenciando contextos distintos, mas resta o questionamento: estamos preparados para ser além do que nos foi imposto como conhecimento? Quais histórias estamos contando e sob qual perspectiva?” fragmento do texto curatorial.
O que muda quando uma mulher indígena conduz um projeto de memória, arte e educação?
É é preciso entender sobre a ideia de sermos especiais, quando docilizados, e aqueles(as) indígenas têm a coragem de nos posicionar, a branquitude nos coloca em um lugar de selvagem, que é uma nova forma exótica nos discursos atuais. Não preciso da branquitude para dizer quem sou, não preciso destes adornos para saber a minha pertença. Dito isto, podemos compreender que o que muda é o lugar. Desacostumar a visão sobre os nossos fazeres. Que embora, sejamos de outras sociedades, e porque não dizer, outras cosmogonias, uma vez, que estamos vivendo na sociedade ocidental, é possível construir, dirigir e fazer projetos culturais para a expansão e a contra colonização. Acredito que as políticas públicas são o motor de avanço da nossa cultura. Por meio de expertises compartilhadas, realizamos o Projeto Kasãto, levando atividades gratuitas à comunidade e às instituições que nos acolheram. Como nada se faz sozinha, sigo caminhando com quem reconhece e fortalece um legado de décadas. O projeto é uma realização do Artivismo Indígena em parceria com a Ruidosa Alma (produtora do FIRQ+ e integrante do MICBR 2025), viabilizado pela Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) através da gestão municipal e com o apoio fundamental da Rádio Yandê (a primeira rádio indígena).
O que continua depois que o projeto termina? Qual é o futuro do Kasãto?
O projeto Kasãto segue em expansão, trazendo novas abordagens aos grafismos. É fundamental ressaltar que esses grafismos são autorais, desenvolvidos a partir da tradição e da cosmologia do meu povo, os Apurinã. Todas as narrativas pertencem ao meu povo; rechaço qualquer forma de plágio ou apropriação cultural que tente justificar uma “pseudocriatividade”. Faço essa demarcação para combater a generalização das narrativas indígenas: cada povo é único e, ainda que existam diálogos, a devida autoria deve ser sempre preservada. Defendo rigorosamente a propriedade intelectual indígena. Os caminhos de Kasãto seguem seu fluxo natural, mantendo as atividades artísticas que sempre produzi e pensei desde 1996, mas agora com a visibilidade necessária para sua expansão e valorização perante a sociedade ocidental.
Somos os sonhos dos nossos ancestrais, e honrar isso é o que nos torna humanos, senão, somos forças malignas que habitam um corpo vazio.
Convido a todas as pessoas conhecerem as nossas páginas. E compreender outras percepções de vida, através da arte e educação.
Por que o Kasãto é relevante

O que não foi dito, mas atravessa o Kasãto
Escrevo este encerramento não apenas como jornalista, mas como Anápuàka Tupinambá, comunicador indígena, alguém que sabe que toda matéria sobre presença indígena carrega também aquilo que muitas vezes não cabe no texto jornalístico tradicional.
Há uma camada do Kasãto que não está somente nos dados, nos números, nas oficinas, nos cadernos ou na exposição. Ela está no que permanece entre as palavras: a solidão de uma mulher indígena criando longe de seu território de origem, carregando no corpo uma memória que o Estado não sabe ler, que a academia tenta enquadrar e que a cidade muitas vezes só reconhece quando vira projeto, edital, exposição ou objeto cultural.
O que não foi dito é que todo projeto indígena realizado em espaço urbano carrega uma tensão silenciosa. De um lado, existe a necessidade de traduzir a própria existência para instituições, formulários, relatórios, editais, públicos e olhares acostumados a medir valor por critérios ocidentais. Do outro, existe aquilo que não se traduz: o nome, o sonho, o vínculo com os mais velhos, a presença dos rios, das árvores, das encantarias, das memórias familiares e das responsabilidades que não cabem em uma prestação de contas.
Como indígena, eu sei que grafismo não entra em um espaço cultural apenas como decoração. Quando conduzido por uma pessoa indígena, ele entra como confronto. Confronta a parede branca da galeria, a arquitetura colonial, a memória escravocrata, a escola eurocentrada, o olhar exotizante e o hábito de tratar povos indígenas como tema, e não como autores. Cada caderno produzido no Kasãto não foi apenas um objeto bonito. Foi uma pequena desobediência contra a lógica que separa arte de vida, memória de território, educação de espiritualidade e cultura política.
Há ainda algo mais profundo: o Kasãto fala de autoria. E falar de autoria indígena, no Brasil, é mexer em uma ferida aberta. Durante séculos, nossos cantos, grafismos, histórias, nomes, imagens, corpos e conhecimentos foram coletados, estudados, copiados, vendidos, expostos e reinterpretados por outras pessoas. Muitas vezes, a sociedade só chama de conhecimento quando passa pela mão de alguém não indígena. O Kasãto inverteu esse caminho. Ele diz, mesmo quando não diz diretamente: nós não somos matéria-prima para a criatividade dos outros. Nós somos pensamento, método, autoria e direção.
O que também não foi dito é que Pelotas não recebeu apenas uma exposição. Pelotas foi atravessada por uma presença que desorganiza sua própria narrativa oficial. Em uma cidade marcada por memórias coloniais, pelo ciclo do charque, por hierarquias raciais e por uma história urbana construída sobre ausências forçadas, uma exposição indígena não é apenas programação cultural. É uma interrupção. É uma pergunta colocada no meio da sala. É como se o Kasãto dissesse: que cidade é essa que aprendeu a lembrar de algumas histórias e esquecer de outras?
Talvez o mais importante que não foi dito seja isso: projetos como o Kasãto não acontecem somente porque há técnica, planejamento e política pública. Eles acontecem porque alguém insiste. Porque alguém transforma luto em linguagem, deslocamento em criação, memória familiar em metodologia, dor em pedagogia e sobrevivência em gesto público. Há uma dimensão íntima nesse tipo de trabalho que nenhuma matéria consegue alcançar completamente. Antes de ser projeto, o Kasãto é continuidade de uma vida, de uma avó, de um povo, de uma caminhada.
E talvez por isso ele seja tão forte. Porque não nasce apenas para cumprir uma agenda cultural. Nasce para lembrar que, onde tentaram produzir apagamento, ainda existe nome. Onde tentaram impor silêncio, ainda existe grafismo. Onde tentaram reduzir povos indígenas ao passado, ainda existe uma mulher indígena criando futuro com as próprias mãos.
Eu olho para o Kasãto e vejo mais do que um projeto. Vejo uma resposta. Vejo uma mulher indígena dizendo à cidade que a memória não se pede emprestado, não se autoriza por edital e não depende da validação colonial para existir. A memória indígena caminha, costura, pinta, ensina, ocupa, incomoda e permanece.
O que não foi dito, no fundo, é que o Kasãto não pediu para Pelotas reconhecer a presença indígena. Ele colocou essa presença diante da cidade e obrigou a cidade a olhar.
Redação Rádio Yandê | Anápuàka Tupinambá Hãhãhãe
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