A Cadeira Indígena na Academia Brasileira de Letras: Um Marco de Reconhecimento e Resistência

Domínio público / Acervo do Instituto Moreira Salles

Em meio ao streaming da Rádio Yandê e aos acordes musicais indígenas misturados com conteúdos atemporais, me pego pensando sobre espaços ainda não ocupados por nós, indígenas. Um desses espaços é a Academia Brasileira de Letras (ABL), um reduto tradicionalmente reservado para a elite intelectual do país. Mas, por que não uma ou mais cadeiras indígenas na ABL? O que isso significaria para nós indígenas e para o Brasil?

Visibilidade e Reconhecimento

Primeiramente, é preciso entender que a ABL não é apenas uma instituição; é um símbolo. Um símbolo da sociedade, da literatura, da cultura, da história e, infelizmente, ainda de exclusão. Ter um ou mais indígenas ocupando uma de suas cadeiras seria um ato revolucionário e de reparação histórica. Não apenas colocaria nossas histórias e línguas sob os holofotes, mas também desafiaria a narrativa dominante que muitas vezes nos relega ao passado, como se não fôssemos parte ativa e vital do presente e do futuro deste país em diversos segmentos sociais que já ocupamos.

CC BY-SA 3.0 | Sede da Academia Brasileira de Letras

A Verdadeira Pluralidade Cultural Literária

O Brasil se orgulha de sua diversidade, mas essa diversidade está adequadamente refletida em suas instituições sociais? A resposta é um sonoro “não”. A inclusão de um indígena na ABL seria um passo em direção a uma representação mais fiel da pluralidade cultural brasileira. Seria uma forma de dizer: “Estamos aqui, e nossa literatura também merece ser celebrada e estudada”.

Empoderamento e Legado

Como comunicador indígena, empreendedor e às vezes pensador, sei o poder transformador da representatividade. Um indígena na ABL não seria apenas um acadêmico, um ego, ou um imortal literário. Não seria apenas representação de mercados editoriais, selos e chancelas, ou seu grandioso fardão feito pelo lendário alfaiate Diógenes Cardoso. Seria um símbolo de resistência, empoderamento, e uma forma de reparar historicamente o genocídio dos povos originários. Quem milita pela literatura indígena sabe o caminho dessa futura “imortalidade da literatura dos Povos Originários”. Seria uma mensagem para nossas crianças indígenas (Kurumins) de que elas podem aspirar a qualquer posição, por mais elevada que seja. Seria um legado, uma história para ser contada em nossas rodas de conversa, em nossas celebrações e em nossas lutas.

Educação e Conscientização

Através da Etnomídia Indígena, já estamos redefinindo o modo como nossas culturas são retratadas e compreendidas. Imaginem o impacto de ter uma voz indígena amplificada e dedicada a esta literatura originária na ABL, contribuindo para uma educação mais inclusiva e para a conscientização sobre questões indígenas em um nível nacional e internacional.

Política, Literatura e Advocacia

Não podemos esquecer que a literatura, a cultura e a política estão intrinsecamente ligadas. A presença indígena na ABL também seria uma plataforma para a defesa de nossos direitos, uma voz em uma instituição que, querendo ou não, tem peso político e social.

Conclusão em Reflexão Circular

Ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras não é apenas uma questão de reconhecimento literário; é uma questão de justiça social, de representatividade e de reparação histórica. É uma forma de tecer a verdadeira tapeçaria étnica indígena e sua diversidade cultural do Brasil, que inclui cada um de nós, bisnetos e bisnetas, netos e netas, filhos e filhas de Pindorama, da Nação Tupinambá do norte ao sudeste, e de todas as nações indígenas que compõem este país, ocupemos a Academia Brasileira de Letras.

Portanto, a pergunta não é se um indígena deve ocupar uma cadeira na ABL. A pergunta é: quando isso vai acontecer? E que não seja por um mero capricho, destaque à cena e ao mercado de livros, e sim por competência a somar com a ABL! E eu digo: que seja em breve. O tempo de espera já foi longo demais.

Um pouco de divulgação do Empreendedorismo Indígena, e deixo como dica: a Livraria Maracá para aquisição de títulos literários indígenas.

A Livraria Maracá é uma livraria on-line especializada em literatura indígena produzida no Brasil. O catálogo conta com obras de escritores de diferentes povos e regiões do país, que compartilham seus conhecimentos, tradições e histórias através da escrita. Desse modo, o desejo é de que os povos indígenas sejam respeitados e tenham suas culturas reconhecidas pelo grande valor que possuem.

“Seja um bom ancestral hoje!”

Anápuáka Muniz Tupinambá Hãhãhãe
@anapuakatupinamba

3 respostas

  1. Considero essa reflexão imprescindível. Tem vários nomes da cultura indígena que acrescentariam prestígio à Academia Brasileira de Letras!

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