Territórios Compartilhados e duas de suas autoras somam seis indicações ao HQMIX

Antologia indígena concorre em quatro categorias; Marcela Poenna e Merremi Karão Jaguaribaras disputam o prêmio de Novo Talento Roteirista na 38ª edição

A antologia Territórios Compartilhados — Antologia Indígena em Quadrinhos e duas de suas autoras somam seis indicações ao 38º Troféu HQMIX. A lista foi divulgada em 27 de outubro de 2026, no perfil oficial da premiação, em publicação conjunta com o AfroNerd.

O livro concorre em quatro categorias: Publicação Independente — Edição Única, Publicação Independente de Grupo, Publicação Mix e Edição Especial Nacional.

As outras duas indicações são individuais, na categoria Novo Talento Roteirista: Marcela Poenna, pelo roteiro de “Entre a Terra e o Espírito”, e Merremi Karão Jaguaribaras, por “Os Sons da Mata”.

São, portanto, quatro indicações para a publicação e duas para autoras que participam da obra.

Histórias indígenas contadas por seus próprios autores

Organizada por Eá Borum Krenak, a publicação reúne sete histórias, com diferentes linguagens e perspectivas indígenas. O projeto foi realizado com apoio do Rumos Itaú Cultural 2023–2024.

Concebida como uma obra coletiva e contemporânea, a antologia propõe enfrentar o silenciamento histórico e os olhares que reduzem os povos indígenas a personagens de narrativas externas. Suas histórias transitam entre ancestralidade, experiências urbanas, espiritualidade, acessibilidade e indigenafuturismo.

O álbum conta com prefácio de Daniel Munduruku, edição e design de Elza Keiko e revisão ortográfica de Fátima Gomes. Radicado em Imperatriz, no Maranhão, Eá reúne artistas de diferentes povos e regiões em uma proposta de criação e circulação de narrativas próprias.

Entre as histórias está “Tecnoanhang”, com roteiro de Anápuàka Tupinambá Hãhãhãe e arte de Alexandra Tupinambá Krenak. A narrativa aproxima ancestralidade, tecnologia e imaginação de futuros indígenas.

A diversidade de temas e formas de expressão da antologia amplia a presença de autores indígenas nos quadrinhos brasileiros. Seus participantes criam personagens, constroem narrativas e decidem como compartilhar suas experiências e visões de mundo.

Sete histórias, diferentes territórios de criação

Os Sons da Mata — Merremi Karão Jaguaribaras

Com roteiro e arte de Merremi Karão Jaguaribaras, a história explora uma linguagem abstrata construída a partir das taowás, expressões visuais ancestrais de seu povo. Cores, pontos, curvas e grafismos conduzem uma narrativa ligada à cosmologia Karão Jaguaribaras.

Residente na Aldeia Kalembre Feijão, em Aratuba, no Ceará, Merremi é artista visual, curadora, ambientalista, agricultora, artesã, escritora e pesquisadora indígena. Sua criação aproxima experimentação artística, memória e linguagens ancestrais.

Djepotá — Genilson Silva M’byá e Moara Tupinambá

Com roteiro de Genilson Silva M’byá e arte de Moara Tupinambá, “Djepotá” apresenta uma narrativa vinculada aos conhecimentos ancestrais M’byá Guarani sobre a caça e o respeito aos ciclos da natureza.

Escrita originalmente em guarani, com tradução para o português, a história preserva a presença da língua originária nos quadrinhos. A arte de Moara aproxima a narrativa tradicional de uma linguagem visual expressiva, atravessada pela espiritualidade.

Entre a Terra e o Espírito — Marcela Poenna e Tai

Com roteiro de Marcela Poenna, do povo Arapiun, e arte de Tai, a história acompanha quatro jovens em uma praia afastada no Pará. O questionamento sobre a identidade indígena em retomada de uma das personagens desencadeia conflitos que atravessam o pertencimento, a ancestralidade e o respeito ao sagrado.

Marcela é pesquisadora e cofundadora do Coletivo Makira, dedicado à criação de quadrinhos por artistas indígenas do Baixo Tapajós. A narrativa integra sua atuação na valorização das culturas e dos saberes ancestrais.

Acessibilindígena — Coletivo Acessibilindígena

O Coletivo Acessibilindígena apresenta tirinhas sobre a invisibilidade e as barreiras enfrentadas por pessoas indígenas com deficiência. As histórias articulam denúncia, experiências cotidianas e reivindicação de direitos.

Criado em 2022 por indígenas com deficiência de diferentes povos, o coletivo tem como lema “Minha deficiência não me faz menos indígena”. A apresentação do projeto identifica Siana Tentehar Guajajara como idealizadora do coletivo e Milene Correia como colaboradora artística.

Bady — Nathalia Kariri e Caio Ananias

Com roteiro de Nathalia Kariri e arte de Caio Ananias, “Bady” transforma poesia autobiográfica em quadrinhos para abordar a migração indígena nordestina para São Paulo, a memória familiar e a retomada da identidade Kariri.

A experiência urbana aparece como parte da vida indígena contemporânea. A narrativa acompanha deslocamentos e vínculos ancestrais que permanecem vivos em meio ao concreto.

Pö Pothick Jukanam — Eá Borum Krenak

Com roteiro e arte de Eá Borum Krenak, “Pö Pothick Jukanam”, apresentada também como “As Seis Almas”, aproxima uma narrativa tradicional Borum de questões contemporâneas sobre identidade e território.

A história acompanha um jovem em Belo Horizonte que precisa comprovar sua ancestralidade para ocupar uma vaga de trabalho. Ao mesmo tempo, mobiliza o plano espiritual e estabelece relações com as marcas da mineração e da expulsão de indígenas de seus territórios.

Tecnoanhang — Anápuàka Tupinambá Hãhãhãe e Alexandra Tupinambá Krenak

Em “Tecnoanhang”, uma comunidade indígena no entorno urbano cria uma inteligência artificial alimentada por conhecimentos ancestrais para proteger e fortalecer sua cultura.

Com roteiro de Anápuàka Tupinambá Hãhãhãe e arte de Alexandra Tupinambá Krenak, a trama ganha novos conflitos quando a comunidade se torna alvo dos interesses comerciais de um canal de televisão. Ética, resistência e os limites entre compartilhamento e exploração atravessam a história.

A pintura de Alexandra dá forma a esse universo, articulando conhecimentos ancestrais e imaginação tecnológica.

Na 38ª edição, autoria indígena amplia sua presença no HQMIX

Criado em 1989, o Troféu HQMIX chega à 38ª edição em 2026. Neste ano, as indicações de Territórios Compartilhados, Marcela Poenna e Merremi Karão Jaguaribaras colocam em evidência tanto a criação coletiva quanto os trabalhos individuais de autoras indígenas.

Esse reconhecimento integra uma trajetória que já registra participação indígena na premiação. Na 37ª edição, realizada em 2025, Tai venceu Novo Talento Roteirista por “Onde Habita o Medo”. A artista também participa de Territórios Compartilhados, assinando a arte de “Entre a Terra e o Espírito”.

As seis indicações relacionadas à antologia ampliam essa presença. A conquista também provoca uma reflexão: quais caminhos ainda precisam ser abertos para que a diversidade dos povos indígenas tenha participação contínua entre as obras publicadas, distribuídas, lidas e reconhecidas no país?

Autoria também é território

Pela perspectiva da Etnomídia Indígena, essa presença envolve o direito de produzir e fazer circular narrativas próprias. A autoria indígena permite que memórias, línguas, experiências contemporâneas e projetos de futuro sejam apresentados a partir das perspectivas de seus criadores.

As indicações dão visibilidade ao trabalho coletivo da antologia e aos percursos individuais das duas autoras indicadas. Também abrem espaço para que novos leitores conheçam uma produção que atravessa ancestralidade, espiritualidade, acessibilidade, território e tecnologia.

A pluralidade estética do álbum, do quadrinho abstrato às tirinhas e à pintura figurativa, evidencia a diversidade das criações indígenas. Cada história apresenta escolhas próprias de linguagem, ritmo e relação com a memória.

Circulação, acessibilidade e fortalecimento dos artistas

Segundo as informações de divulgação do projeto, a comercialização da antologia também busca fortalecer sua rede de participantes. A proposta prevê comissão para o artista indicado no momento da compra e destinação prioritária do lucro à produção da audiodescrição do livro.

Após essa etapa, a previsão apresentada pelo projeto é apoiar a participação de seus artistas em eventos. A circulação da obra está, assim, associada à ampliação do acesso e à criação de condições para que seus participantes encontrem novos públicos.

Informações sobre aquisição estão disponíveis na página de Territórios Compartilhados e no perfil @territorioscompartilhados.

Vencedores serão anunciados até o fim de novembro

Segundo o anúncio da organização, o júri especial trabalhou por mais de quatro meses na seleção dos indicados. A próxima etapa será conduzida pelo júri nacional, composto por mais de 2.200 autores, editores, produtores e pesquisadores da área de quadrinhos.

Os vencedores serão divulgados até o fim de novembro de 2026, e a entrega dos troféus está prevista para 5 de dezembro de 2026.

Confira as seis indicações relacionadas à antologia:

  • Publicação Independente — Edição Única: Territórios Compartilhados.
  • Publicação Independente de Grupo: Territórios Compartilhados.
  • Publicação Mix: Territórios Compartilhados.
  • Edição Especial Nacional: Territórios Compartilhados.
  • Novo Talento Roteirista: Marcela Poenna, pelo roteiro de “Entre a Terra e o Espírito”.
  • Novo Talento Roteirista: Merremi Karão Jaguaribaras, por “Os Sons da Mata”.

Conheça a antologia, acompanhe seus artistas e fortaleça a circulação dos quadrinhos indígenas.

Fontes: anúncio oficial do 38º Troféu HQMIX, página do projeto Territórios Compartilhados, material de divulgação da antologia, história oficial do HQMIX e vencedores da 37ª edição.

Transparência editorial: Anápuàka Tupinambá Hãhãhãe, fundador da Rádio Yandê, participa da antologia como roteirista de “Tecnoanhang”.

Redação Rádio Yandê

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