
Dia da Memória e da Cultura Tupinambá reconhece oficialmente a presença indígena na formação da identidade carioca
E TODA MEMÓRIA COLONIAL PRECISA SER QUESTIONADA
Antes de ser cidade, o Rio de Janeiro era território. Antes de ser território nomeado em português, era terra vivida, cantada, atravessada por rios, aldeias e caminhos indígenas. Antes de ser “Rio”, era Tupinambá.
Quando hoje se fala em identidade carioca, quase sempre se parte de versões históricas registradas por cronistas, religiosos, administradores e intelectuais não indígenas, todos atravessados pelo projeto colonial. Por isso, do ponto de vista indígena, nenhuma dessas versões pode ser aceita como definitiva. Toda etimologia colonial precisa ser lida com cautela, dúvida e espírito crítico.
A palavra “carioca” vem do tupi antigo, mas não existe consenso sobre seu significado. O que existe são interpretações fragmentadas, traduzidas e reorganizadas por quem não falava a língua como território vivo, mas como objeto de estudo ou dominação.
A versão mais difundida afirma que kari’oka significa “casa do homem branco”, a partir da junção de karaí (homem branco, estrangeiro) com oka (casa). Segundo essa leitura, povos indígenas teriam usado o termo para nomear as primeiras casas de pedra construídas pelos portugueses próximas ao Morro do Castelo, às margens do rio que mais tarde passou a ser chamado de Rio Carioca. O nome teria se expandido do lugar para o rio, depois para a cidade e, por fim, para seus habitantes.
Do ponto de vista indígena, essa versão levanta mais perguntas do que respostas.
Em primeiro lugar, karaí não significa apenas “branco”. No universo tupi, o termo também se relaciona com autoridade, poder, liderança espiritual ou política, alguém investido de uma força que não pertence originalmente ao território. Assim, uma leitura possível de karai oca é “casa do senhor” ou “casa do poder”. Não apenas uma construção física, mas a marca da instalação de uma nova ordem sobre a terra.
Essa leitura não é neutra. Ela carrega uma crítica indígena à colonização: a percepção de que aquelas casas representavam mais do que abrigo, representavam a chegada de uma autoridade estrangeira, imposta, sustentada pela violência e pela ocupação.
Há ainda registros históricos indicando que “Carioca” nomeava primeiro o rio, e não as casas. O rio era caminho, fonte de vida, orientação territorial. A partir dele, o nome teria sido associado à aldeia, depois ao assentamento colonial, depois à cidade e, por fim, às pessoas. Se essa leitura for considerada, o gentílico “carioca” nasce da hidrografia indígena, da relação com a água e com o território, e não do projeto urbano europeu.
Existem também teorias menos difundidas, mas reveladoras, que associam o nome akari, um peixe cascudo comum nos rios da região, à palavra oka. Algumas tradições indicam que indígenas teriam comparado os portugueses aos akaris, por causa das armaduras metálicas que lembravam a couraça dura e brilhante do peixe. Essa leitura, ainda que menos consensual, revela algo fundamental: o olhar indígena observa, compara, ironiza e traduz o invasor a partir de sua própria cosmologia e de seus próprios referenciais naturais.
Em contraposição a essas leituras críticas e territoriais, surgiram ao longo do tempo versões romantizadas do nome “carioca”: “morada feliz”, “casa do homem branco amigo”, “terra abençoada”. Essas interpretações não têm base linguística sólida e costumam aparecer muito depois, já no contexto de apagamento da violência colonial e de domesticação da memória indígena. São versões que suavizam o conflito, retiram o peso político da ocupação e transformam o território indígena em cenário folclórico.
Do ponto de vista Tupinambá, é preciso afirmar: não há nome neutro em contexto de colonização. Toda palavra que atravessa esse processo carrega disputa, conflito, tradução forçada e silêncio imposto.
É nesse contexto que a Lei Municipal nº 7.735/2022 assume importância histórica. Ao instituir o Dia da Memória e da Cultura Tupinambá, celebrado em 20 de janeiro, o município do Rio de Janeiro reconhece oficialmente aquilo que sempre existiu: a presença indígena como fundamento da cidade. Não se trata de homenagem simbólica, mas de reconhecimento político da memória viva Tupinambá na formação da identidade carioca.
Essa lei dialoga com marcos nacionais como a Lei 11.645/2008, que torna obrigatório o ensino da história e da cultura indígena nas escolas, e a Lei 14.402/2022, que fortalece o reconhecimento dos Povos Indígenas no Brasil. Juntas, essas legislações apontam para a necessidade de recontar a história a partir de outras vozes, outros olhares, outros saberes.
Para os povos indígenas, memória não é passado distante, memória é território em disputa, é língua, é rio, é nome, é corpo. O Rio de Janeiro tem memória indígena vivendo novamente. E essa memória é Tupinambá.
Redação Rádio Yandê e Anàpuáka Tupinambá – Memória indígena é direito, é identidade e é futuro.







