Museu da Cultura Puri, retomada identitária e a presença indígena viva no Sudeste brasileiro

Durante décadas, o Sudeste brasileiro repetiu a mesma mentira colonial: a de que os povos indígenas haviam desaparecido da região. A pergunta ecoava nos livros, nas escolas e nos discursos oficiais: “onde estão os Puri?”
A resposta nunca foi ausência. A resposta sempre foi sobrevivência.
O que se tentou apagar foi a existência indígena por meio da violência simbólica, da proibição das línguas, do silenciamento dos rituais e da negação dos modos de vida originários. Trilhas indígenas viraram estradas coloniais. Rios com nomes ancestrais foram rebatizados. Territórios foram transformados em mapas que fingem não ver quem sempre esteve ali.
Aqui era a terra da palmeira mundsuke, do macaco tanguá, do sagui mirité.
O que hoje se chama Rio Meriti é território Puri.
O caminho sanã, trilha viva do povo Puri, segue existindo, ainda que tenha sido rebatizado como Estrada Real.
“Nós nunca fomos embora”
O discurso do “desaparecimento” dos Puri sustenta uma lógica colonial que tenta justificar o apagamento histórico no Sudeste. Mas o povo Puri nunca deixou seu território. Sobreviveu aos massacres, às remoções forçadas e ao silenciamento institucional.
Muitos permaneceram nas periferias, nos nomes alterados, nas memórias contadas em voz baixa, nas histórias guardadas pelas avós.
“A gente sempre soube que era Puri, só não podia dizer.”
Hoje, dizer é também um ato político.
Memória viva não se arquiva
Registros históricos confirmam aquilo que a memória indígena sempre afirmou. Em 1860, o imperador Pedro II coletou vocábulos da língua Puri no Espírito Santo. Rugendas retratou o povo em seus registros visuais. Documentos coloniais mencionam hábitos, costumes e a presença Puri em diferentes regiões do Sudeste.
Mas, para os próprios Puri, nenhum arquivo é maior do que a memória viva.
O que muitos chamam de “ressurgimento” é, na verdade, retomada. Como sementes em dormência, o povo Puri floresce novamente por meio da arte, da educação, da agroecologia, da música, do cinema, da literatura e da organização coletiva.
Museu da Cultura Puri: quando o museu fala
É nesse contexto que surge o Museu da Cultura Puri, idealizado por Dauá Puri. Mais do que um espaço expositivo, o museu funciona como um território vivo de comunicação indígena, pesquisa, educação e encontro interétnico.
Em três anos de funcionamento, o espaço recebeu milhares de pessoas, incluindo escolas, creches, universidades e grupos de estudo da UERJ, UFRJ, UNIRIO e UFF, além de povos de diversas etnias.
“Nosso museu não guarda silêncio. Ele fala.”
O museu se tornou uma referência na difusão da língua Puri e na valorização da memória indígena no Sudeste, conectando passado, presente e futuro.
Reconhecimento que não cria, reconhece
O trabalho desenvolvido pelo Museu da Cultura Puri e por Dauá Puri foi recentemente reconhecido pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), com a concessão da Medalha de Honra ao Mérito – 90 anos da Escola de Museologia.
O reconhecimento institucional, no entanto, não inaugura essa história. Ele apenas confirma algo que já estava vivo, pulsante e em movimento.
A homenagem se soma a um processo coletivo de retomada identitária, cultural e política do povo Puri, compartilhada com voluntários, colaboradores e, principalmente, com os Puri, que se reconheceram, retomaram seus nomes e reativaram memórias guardadas nas famílias.
Estamos bem vivos
A presença Puri no Sudeste não é memória congelada. É presente político, cultural e comunicacional.
O povo Puri fala por si, ocupa espaços, produz conhecimento e disputa narrativas. A comunicação indígena é território. E cada palavra dita é também um gesto de retomada.
Estamos bem vivos. Estamos em movimento. Estamos falando por nós.
Nà Thamati.
Redação Rádio Yandê e Dauá Puri
Comunicação indígena, território em disputa.
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Respostas de 2
Refletir sobre o processo de apagamento no sudeste, reacender a voz dos povos.
Maravilha! Parabéns ao povo Puri e ao Sr. Dauá pela iniciativa do Museu da Cultura Puri!