Editorial indígena sobre detenções, soberania e os perigos da normalização institucional

Entre erros operacionais e riscos estruturais, povos indígenas observam um padrão que a história já ensinou a reconhecer.
As recentes ações do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE), realizadas em janeiro de 2026 na cidade de Minneapolis, acenderam um alerta profundo entre povos indígenas, comunicadores, lideranças e organizações originárias.
Está confirmado por investigações jornalísticas independentes que cidadãos indígenas norte-americanos foram detidos em operações de imigração, apesar de possuírem cidadania reconhecida e proteção jurídica garantida por tratados históricos. Três membros da Oglala Sioux Tribe permanecem sob custódia federal. Outro foi liberado após algumas horas. Um jovem indígena da Red Lake Nation também foi detido por aproximadamente dez horas, mesmo apresentando documentação válida.
Esses fatos, por si só, já configuram falhas institucionais graves. Do ponto de vista indígena, no entanto, o problema não se limita ao episódio em si: o que está em jogo é o padrão que começa a se desenhar.
Operações baseadas em aparência, nome ou localização territorial indicam práticas de perfilamento racial, nas quais a identidade indígena passa a ser tratada como suspeita. Quando isso ocorre, documentos deixam de proteger, tratados passam a ser relativizados e a cidadania indígena se transforma em algo constantemente questionado, nunca presumido.
Embora o governo federal negue a existência de uma política sistemática de perseguição a povos indígenas, lideranças tribais denunciam elementos recorrentes e preocupantes:
- dificuldade de acesso a informações sobre pessoas detidas;
- negação inicial das detenções por parte de órgãos federais;
- pressão política indireta para adesão a acordos de cooperação com o ICE, conhecidos como acordos 287(g).
Esses acordos, caso aceitos, podem comprometer a soberania tribal e enfraquecer a relação histórica de nação para nação entre povos indígenas e o Estado norte-americano.
Até o momento, não há comprovação de operações do ICE dentro de territórios indígenas nem de um plano formal de criminalização direcionada aos povos originários. Ainda assim, do ponto de vista indígena, é necessário afirmar com clareza: a ausência de provas não elimina a existência de riscos reais e iminentes.
A história demonstra que políticas de exceção raramente surgem de forma explícita ou declarada. Elas costumam se instalar gradualmente, normalizando erros, relativizando abusos e testando limites institucionais. O que hoje é classificado como “erro operacional” pode, amanhã, se consolidar como procedimento padrão.

O uso de Fort Snelling como local de detenção, espaço historicamente marcado pelo encarceramento indígena durante o século XIX, reforça o impacto simbólico dessas ações. Para os povos indígenas, memória não é um recurso retórico: é experiência política acumulada, inscrita no território e no corpo coletivo.
Diante desse cenário, organizações e comunicadores indígenas reafirmam publicamente princípios inegociáveis:
- Povos indígenas não são estrangeiros.
- Povos indígenas não são imigrantes.
- Povos indígenas não estão sujeitos a políticas de controle migratório.
São povos originários, com cidadania reconhecida, direitos garantidos por lei e tratados que seguem em vigor.
A principal preocupação, neste momento, não é apenas o que já aconteceu, mas o que pode se tornar regra caso não haja contestação pública, institucional e internacional.
Os povos indígenas não estão criando alarme.
Estão exercendo vigilância histórica.
Porque quem sobreviveu à colonização aprendeu, cedo demais, que quando o Estado testa limites, o silêncio nunca é neutro.
Anápuàka M. Tupinambá Hãhãhãe | @anapuakatupinamba
Editorial publicado pelo Portal Rádio Yandê — Comunicação Indígena no Brasil e no mundo.







