#ProtejamNossosPovosIndígenas: por que a história se repete?

Cena do filme “Martírio” de Vicent Carelli, de 2017, que trata do genocídio Guarani Kaiowá. Foto: Divulgação.

Brasil | Uma hashtag volta a ocupar as redes digitais, mobilizando pessoas em defesa dos povos indígenas. Nesta quinta-feira, 29 de outubro, o movimento #ProtejamNossosPovosIndígenas busca ampliar a visibilidade das violências denunciadas em diferentes comunidades e pressionar as autoridades a agir. Entre as iniciativas está a criação do canal de WhatsApp “Exército dos Povos Indígenas”, inspirado na estratégia de mobilização digital utilizada durante a campanha eleitoral de 2026 pelo deputado André Janones, conhecida como “Exército do Lula”.

A mobilização ocorre após relatos de atropelamentos, espancamentos e assassinatos de indígenas que circulam desde o segundo turno das eleições presidenciais, realizado no último domingo, 25 de outubro. No Mato Grosso do Sul, um servidor público da Prefeitura de Tacuru, município onde fica a aldeia Mossoró, do povo Guarani Kaiowá, teria ameaçado envenenar a água consumida pela comunidade. Segundo as informações divulgadas sobre o caso, o Ministério Público Federal (MPF) estabeleceu prazo de 48 horas para que o Executivo municipal esclareça os fatos. Até o momento, conforme as informações disponíveis para esta reportagem, não há esclarecimento público da prefeitura sobre as ameaças.

A urgência das denúncias, porém, não deve apagar uma memória importante: a mobilização digital em defesa dos povos indígenas já demonstrou sua força há 14 anos. Em 2012, a campanha #SomosTodosGuaraniKaiowá ganhou as redes sociais e chegou aos grandes veículos de comunicação, levando a um público mais amplo a situação de violência enfrentada pelos Guarani Kaiowá no Mato Grosso do Sul.

Uma campanha que nasceu da indignação indígena

Em depoimento à Rádio Yandê, o artista Denilson Baniwa relembra que a mobilização começou a partir da comoção provocada por uma carta de integrantes do povo Guarani Kaiowá. O documento denunciava a violência sofrida pela comunidade, incluindo ataques, mortes e o temor de um genocídio. Naquele momento, as denúncias circulavam principalmente entre pessoas já conectadas às pautas indígenas e ainda tinham alcance limitado nos grandes meios de comunicação.

Foi nesse contexto que comunicadores indígenas começaram a compartilhar a carta e a utilizar hashtags como #SouGuaraniKaiowá e #SomosTodosGuaraniKaiowá. “A proposta era ampliar o alcance da denúncia, ultrapassar os círculos que já acompanhavam a questão indígena e fazer com que mais pessoas conhecessem a situação vivida pelas comunidades. A campanha ganhou força no Facebook e no Twitter, chegou aos assuntos mais comentados da plataforma e passou a ser compartilhada por artistas, ativistas, organizações e pessoas de diferentes regiões do país”, conta o artista plástico.

Além de Denilson, o surgimento da campanha contou com a participação do comunicador Anápuàka Muniz Tupinambá Hãhãhãe e da jornalista Thereza Dantas. No ano seguinte, em 2013, os dois fundariam a Rádio Yandê, a primeira webrádio e portal de notícias indígena do Brasil, fortalecendo um projeto de comunicação protagonizado pelos próprios povos indígenas.

Ao recordar a experiência, Denilson destaca a importância de utilizar as redes para alcançar públicos que estão além das próprias comunidades e dos grupos já sensibilizados pela causa. A campanha de 2012 é, nesse sentido, um exemplo de como a comunicação indígena pode articular denúncias, produzir visibilidade e mobilizar diferentes setores da sociedade.

Visibilidade não significa que a violência acabou

Em artigo publicado pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi) no final de outubro de 2012, Egon Heck registrou os desdobramentos daquela mobilização. A campanha contribuiu para ampliar a repercussão da situação Guarani Kaiowá, impulsionar manifestações públicas e pressionar instituições, incluindo órgãos de direitos humanos, o Ministério da Justiça (MJ) e a Fundação Nacional dos Povos Indígenas, então chamada Fundação Nacional do Índio (Funai).

Foram realizadas reuniões com lideranças indígenas, compromissos anunciados pelo governo e medidas relacionadas à segurança das comunidades e à regularização de terras. Ao mesmo tempo, Heck apontava a permanência dos conflitos fundiários, a lentidão dos processos de demarcação e a dificuldade de transformar compromissos institucionais em garantias efetivas de direitos.

A distância entre a repercussão pública de uma denúncia e a solução dos problemas estruturais permanece como uma das questões centrais dessa história. No depoimento à Rádio Yandê, Denilson Baniwa recorda que, “apesar dos desdobramentos da campanha, o território Guarani Kaiowá continuou em disputa. Houve a morte do cacique Vicente Fernandes, em 2025, como evidência da continuidade da violência naquela região”. 

A memória da campanha de 2012, portanto, não deve servir apenas para celebrar a capacidade de mobilização das redes, mas nos exige um olhar atento sobre o que mudou desde então e quais problemas continuam sem solução. E assim, uma pergunta insiste em permanecer:

Por que os povos indígenas precisam cobrar as mesmas respostas?

A criação do Ministério dos Povos Indígenas (MPI), em 2023, representou um marco institucional. Sob a gestão inicial da ministra Sonia Guajajara, o órgão passou a ocupar um espaço próprio na estrutura do governo federal. A Funai, por sua vez, voltou a ter uma liderança indígena com a presidência de Joênia Wapichana. Atualmente, o ministério é comandado por Eloy Terena, que pertence ao povo Terena e tem trajetória ligada ao Mato Grosso do Sul, estado marcado por conflitos territoriais envolvendo povos indígenas.

Diante dessa estrutura, uma pergunta precisa ser feita: por que, mesmo com instituições específicas para defender os direitos indígenas, as comunidades continuam recorrendo às redes sociais para denunciar ameaças e exigir proteção?

A questão não se resume à existência ou não de órgãos públicos. É necessário avaliar sua capacidade de agir de maneira preventiva, garantir a segurança das comunidades, articular respostas com outras instituições e fazer cumprir os direitos constitucionais dos povos indígenas. Também é preciso perguntar quais obstáculos políticos, administrativos e jurídicos impedem que as medidas anunciadas se convertam em mudanças concretas.

O desafio abrange a diversidade dos mais de 391 povos indígenas existentes no Brasil, com diferentes línguas, culturas, territórios, formas de organização e demandas. Não se trata de uma pauta única, nem de uma população homogênea. A proteção dos direitos indígenas exige políticas públicas que reconheçam essa diversidade e respondam às necessidades específicas de cada povo, sem deixar de enfrentar problemas estruturais, como a violência territorial, as ameaças às lideranças e a demora na regularização das terras.

Nesse cenário, a mobilização digital cumpre um papel importante ao romper silêncios, conectar pessoas e ampliar a pressão pública. Mas ela não pode substituir a responsabilidade do Estado. A denúncia precisa encontrar instituições capazes de investigar, proteger e responsabilizar os envolvidos, com transparência e continuidade.

Da hashtag à garantia de direitos

A campanha #SomosTodosGuaraniKaiowá mostrou, em 2012, que a comunicação indígena pode ultrapassar fronteiras e transformar uma denúncia local em uma questão de repercussão nacional e global. A mobilização atual, com a hashtag #ProtejamNossosPovosIndígenas, recupera essa possibilidade de articulação coletiva em um ambiente digital que se transformou profundamente ao longo dos últimos anos.

Para a Rádio Yandê, que nasceu da trajetória de comunicadores envolvidos naquele processo, recuperar essa memória significa também reconhecer o protagonismo indígena na criação de estratégias de comunicação e mobilização a partir da realidade vivida pelos povos indígenas. Não se trata de uma história que começa agora, nem de uma luta que termina quando uma hashtag alcança os assuntos mais comentados. Já inicia no sangue derramado por Marçal Tupã’Y, assassinado pelos mesmos motivos na década de 1980. Se você não ainda não o conhece, pare essa leitura e dê um Google.

A pergunta que permanece é outra: quantas vezes os povos indígenas precisarão mobilizar a sociedade para exigir direitos que já estão previstos na Constituição? E o que precisa mudar para que a proteção não dependa, a cada nova ameaça, da capacidade de uma comunidade de tornar sua dor visível nas redes?

A força das mobilizações digitais está em fazer com que as denúncias não sejam ignoradas. O passo seguinte é garantir que essa visibilidade produza respostas institucionais, proteção efetiva e mudanças duradouras. Afinal, não basta que o Brasil se comova com a violência contra os povos indígenas. É preciso que o Estado cumpra suas responsabilidades para que essa violência deixe de se repetir.

Uma resposta

  1. Matéria necessária, potente e comprometida com a memória e a luta dos povos indígenas. Denunciar a violência é fundamental, mas garantir direitos, proteger territórios e preservar vidas precisa ser um compromisso permanente. Parabéns à Rádio Yandê por fortalecer vozes originárias!

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