Em carta coletiva ao povo brasileiro, organizações indígenas denunciam as consequências da invasão garimpeira, recordam a crise humanitária entre 2019 e 2022, reconhecem avanços na recuperação do território desde 2023 e alertam para ameaças de novas invasões.

Boa Vista (RR), 23 de outubro de 2026 — Oito organizações indígenas dos povos Yanomami e Ye’kwana divulgaram uma carta aberta à sociedade brasileira alertando para o risco de repetição da crise humanitária que atingiu a Terra Indígena Yanomami. Intitulado “Não nos deixem morrer de novo”, o documento, datado de 19 de outubro de 2026, relaciona as consequências da invasão garimpeira e do enfraquecimento da assistência à saúde às decisões políticas tomadas pelo Estado brasileiro.
A manifestação coletiva ocorre no contexto das eleições presidenciais de 2026 e apresenta uma avaliação das políticas governamentais entre 2019 e 2026. As organizações denunciam a devastação ambiental, a contaminação por mercúrio, a disseminação de doenças e as mortes de crianças durante o período de agravamento da crise sanitária.
Ao mesmo tempo, reconhecem os esforços de recuperação territorial e de restabelecimento da assistência à saúde realizados desde 2023, mas alertam que os avanços ainda são insuficientes para garantir que a tragédia não volte a acontecer.
“Nós não temos partido político, a nossa política é diferente da dos não-indígenas, mas vivemos consequências diretas das políticas de governo executadas por um candidato eleito”, afirmam as organizações.
A declaração estabelece o ponto central da carta: para os povos indígenas, as decisões tomadas nas urnas podem determinar não apenas os rumos da administração pública, mas também as condições concretas de existência de comunidades inteiras.
A memória de uma crise que ainda não terminou
Na carta, os povos Yanomami e Ye’kwana descrevem o período de 2019 a 2022 como marcado pelo avanço do garimpo ilegal, pelo enfraquecimento da assistência à saúde e pelo agravamento das condições de vida dentro do território.
Segundo o documento, mais de 6 mil hectares de floresta foram destruídos até o final de 2022 em decorrência da atividade garimpeira.
Além da devastação ambiental, as organizações denunciam a contaminação de peixes por mercúrio, a disseminação de doenças e o comprometimento de fontes tradicionais de alimentação.
Os impactos, segundo os signatários, atingiram especialmente as crianças.
A carta afirma que, naquele período, os casos de desnutrição triplicaram e os de malária mais do que dobraram. Também relata a redução do número de profissionais de saúde nas aldeias, a falta de medicamentos e denúncias de irregularidades em contratos relacionados ao atendimento indígena.
Entre os episódios mais graves descritos estão casos de crianças com infestações parasitárias severas, incluindo situações em que vermes eram expelidos pela boca.
O documento atribui àquele período a morte de aproximadamente 600 crianças menores de cinco anos por causas consideradas evitáveis.
Esses números e relatos são apresentados pelas organizações indígenas na carta. Sua utilização como indicadores independentes exige conferência com as respectivas bases oficiais de saúde e monitoramento territorial.
A dimensão humana, entretanto, está expressa no próprio testemunho coletivo: famílias perderam crianças, comunidades enfrentaram insegurança alimentar e os povos tiveram suas formas de viver profundamente afetadas.
A recuperação do território e os desafios que permanecem
A carta também reconhece mudanças ocorridas a partir de janeiro de 2023, quando o governo federal declarou emergência sanitária na Terra Indígena Yanomami e iniciou ações para enfrentar a presença de invasores e restabelecer serviços públicos.
De acordo com as organizações, as operações de proteção territorial conseguiram retirar mais de 90% dos garimpeiros, enquanto ações de assistência contribuíram para a redução da desnutrição e das mortes por malária.
O documento relata a retomada de roças em áreas anteriormente ocupadas por invasores e a recuperação gradual das condições de vida das comunidades.
Para os autores, esses resultados representam a possibilidade de voltar a pensar no futuro, depois de anos em que a sobrevivência imediata se tornou a principal preocupação.
Mas a carta também ressalta que a recuperação está longe de ser concluída.
“Destruir é rápido, mas consertar é muito difícil”, afirmam os povos.
A frase sintetiza uma questão fundamental: a retirada de invasores e a retomada dos serviços de saúde não eliminam automaticamente os efeitos prolongados da contaminação ambiental, das doenças, da insegurança alimentar e das rupturas provocadas pela violência.
Eleições de 2026 e o temor de novas invasões
Um dos pontos mais preocupantes do documento é a denúncia de que garimpeiros estariam entrando em contato com jovens das comunidades indígenas, após o primeiro turno das eleições, anunciando a intenção de retornar ao território.
Segundo a carta, essas comunicações provocaram medo entre os moradores, especialmente diante das experiências anteriores de violência associadas à atividade ilegal.
As organizações relatam episódios de violência sexual contra mulheres, circulação de armas, consumo problemático de álcool e drogas e intensificação de conflitos entre comunidades durante o período de maior presença dos invasores.
A denúncia sobre contatos recentes de garimpeiros deve ser apurada pelas autoridades competentes, com atenção à proteção dos moradores e à segurança de eventuais testemunhas.
No documento, os autores manifestam oposição ao retorno da família Bolsonaro ao poder, associando essa possibilidade ao risco de retomada de políticas favoráveis à exploração mineral em territórios indígenas.
A carta faz ainda críticas diretas ao voto no número 22 e à abstenção eleitoral. Trata-se de um posicionamento político explícito das organizações signatárias, apresentado em suas próprias palavras, e não de uma orientação editorial da Rádio Yandê.
O alerta demonstra como a disputa eleitoral é percebida pelas comunidades a partir de experiências concretas relacionadas à proteção territorial, à assistência à saúde e à segurança de suas famílias.
Quando a floresta é ameaçada, o futuro também está em risco
A defesa territorial apresentada pelos povos Yanomami e Ye’kwana ultrapassa a questão da posse da terra.
Na carta, o território aparece como espaço de alimentação, saúde, memória, transmissão de conhecimentos, continuidade cultural e proteção das próximas gerações.
Os autores utilizam a expressão “terra-floresta” para demonstrar que o ambiente não pode ser reduzido a uma reserva de recursos minerais ou a uma área disponível para exploração econômica.
A relação entre território e vida é apresentada como inseparável.
Essa perspectiva também amplia o significado político da proteção ambiental. Ao defenderem suas terras, os povos indígenas afirmam que protegem condições ecológicas fundamentais para a sociedade brasileira.
“Nós Yanomami e Ye’kwana nos alimentamos dessa terra-floresta e a protegemos não só para os nossos filhos, mas para os de vocês também”, registra o documento.
Etnomídia Indígena: o direito de narrar a própria história
A carta representa também um exercício de comunicação política protagonizado pelos próprios povos indígenas.
Em vez de aparecerem exclusivamente como personagens de reportagens sobre crises humanitárias, os Yanomami e Ye’kwana assumem a autoria de uma mensagem dirigida ao conjunto da sociedade brasileira.
Sob a perspectiva da Etnomídia Indígena, essa distinção é fundamental.
A comunicação indígena não se limita à divulgação de acontecimentos envolvendo comunidades tradicionais. Ela também compreende o direito dos povos de definir suas próprias narrativas, estabelecer prioridades, denunciar violações e participar da construção do debate público.
Nesse sentido, a carta não deve ser interpretada apenas como um documento eleitoral. Ela é também um registro de memória coletiva, uma denúncia de violações e uma reivindicação de autodeterminação.
O protagonismo de seus autores precisa ser preservado, inclusive quando suas manifestações confrontam interesses políticos e econômicos.
Dar visibilidade a essas vozes não significa falar em nome dos povos, mas reconhecer sua autoridade para explicar as consequências das decisões que afetam diretamente suas vidas.
A presença das oito organizações signatárias reforça essa dimensão coletiva. A carta expressa uma articulação de associações territoriais, organizações de mulheres e representações comunitárias que exercem o direito de participar diretamente do debate nacional.
O Brasil diante de uma responsabilidade coletiva
A carta termina com uma convocação à sociedade brasileira para que não permita a repetição das condições que produziram a crise humanitária no território.
O documento evidencia que a proteção dos povos indígenas não pode depender exclusivamente de medidas emergenciais adotadas depois que a violência e o adoecimento já atingiram níveis críticos.
É necessário assegurar a continuidade das ações de proteção territorial, a presença permanente de equipes de saúde, o combate às atividades ilegais, a recuperação ambiental e a participação efetiva das organizações indígenas nas decisões públicas.
Também é indispensável que denúncias de ameaças e tentativas de reorganização de redes de garimpo sejam investigadas e enfrentadas pelas instituições responsáveis.
Independentemente dos resultados eleitorais, os direitos territoriais, culturais e fundamentais dos povos indígenas permanecem assegurados pela Constituição brasileira e não podem ser tratados como concessões temporárias de governos.
A carta Yanomami e Ye’kwana recoloca, assim, uma pergunta no centro do debate nacional: que garantias concretas o Estado brasileiro oferece para impedir que uma tragédia já conhecida volte a acontecer?
A resposta precisa ser construída com políticas públicas permanentes, fiscalização, responsabilização dos envolvidos em violações e respeito à autodeterminação dos povos.
Ao final, as organizações deixam uma mensagem que ultrapassa a disputa eleitoral e interpela toda a sociedade:
“Por isso, pedimos a todo o povo brasileiro: não nos deixem morrer de novo. Garantam o futuro das nossas crianças.”
Organizações indígenas signatárias da carta
O documento “Carta dos Povos Yanomami e Ye’kwana ao Povo Brasileiro — Não nos deixem morrer de novo”, datado de 19 de outubro de 2026, em Boa Vista (RR), apresenta oito logomarcas de organizações indígenas, reafirmando o caráter coletivo da manifestação.
As organizações identificadas na carta são:
- Hutukara Associação Yanomami (HAY)
- Associação Wanasseduume Ye’kwana (SEDUUME)
- Urihi Associação Yanomami
- Associação Yanomami do Rio Cauaburis e Afluentes (AYRCA)
- Associação das Mulheres Yanomami Kumirayoma (AMYK)
- Associação Kurikama Yanomami
- Associação Parawami Yanomami
- TANER — Texoli Associação Ninam Estado de Roraima
As oito organizações aparecem representadas assinado pelos seus símbolos institucionais ao final do documento.
A manifestação coletiva evidencia a atuação de diferentes organizações indígenas na defesa da vida, da saúde, dos territórios e da continuidade cultural de seus povos.
A publicação integral dos nomes das entidades reconhece que a carta não representa uma declaração isolada, mas uma articulação política e comunicacional de organizações indígenas que reivindicam o direito de serem ouvidas pela sociedade brasileira.
DOCUMENTO ORIGINAL
Carta dos Povos Yanomami e Ye’kwana ao Povo Brasileiro — Não nos deixem morrer de novo.
Local e data do documento: Boa Vista (RR), 19 de outubro de 2026.
Fonte primária: Organizações indígenas signatárias da carta.
Redação: Rádio Yandê — Comunicação Indígena. | Raquel Carneiro | Anápuàka Tupinambá Hãhãhãe
Abordagem editorial: Etnomídia Indígena, direitos dos povos originários, saúde indígena, proteção territorial e soberania narrativa.







