ESPECIAL | OURO DE SANGUE: COMO A ECONOMIA DO OURO CONVERTEU TERRITÓRIOS EM HOLOCAUSTO INDÍGENA NO BRASIL

Foto: Diego Baravelli / Greenpeace

O Brasil, detentor de uma das maiores biodiversidades do planeta e lar de povos indígenas com culturas milenares, enfrenta uma crise silenciosa, mas devastadora: a extração ilegal de ouro em suas terras. Conhecido como “ouro de sangue” ou também chamado “ouro de sangue indigena”, carrega consigo um rastro de destruição ambiental, violações de direitos humanos e um complexo esquema de crime organizado que se estende das profundezas da Amazônia até os mercados globais. A seguir, aprofundamos a compreensão sobre esse fenômeno, seus impactos e a urgente necessidade de ações efetivas para combatê-lo.

O que é o “Ouro de Sangue”?

O termo “ouro de sangue” é uma analogia direta aos “diamantes de sangue”, utilizados para descrever minerais extraídos em zonas de conflito e cuja comercialização financia guerras e milícias, narcotráfico, organizações criminosas e violações de direitos humanos. No contexto brasileiro, o ouro de sangue se refere ao metal extraído ilegalmente de Terras Indígenas (TIs), onde a atividade garimpeira é proibida por lei. O processo de extração e a cadeia de comercialização desse ouro estão intrinsecamente ligados a crimes ambientais, contaminação por mercúrio, violência contra povos indígenas e o fortalecimento de organizações criminosas.

Territórios Indígenas: os mais afetados

Diversas Terras Indígenas no Brasil sofrem com a invasão de garimpeiros ilegais, mas algumas se destacam pela intensidade dos impactos:

  • Terra Indígena Yanomami (Roraima/Amazonas): Considerada a mais emblemática, a TI Yanomami tem sido palco de uma grave crise humanitária, marcada por desnutrição severa, surtos de malária e violência armada. Embora as operações governamentais recentes tenham resultado em uma queda de 98,77% nas áreas de garimpo ativas até janeiro de 2026, a pressão sobre o território e seus habitantes permanece.
  • Terra Indígena Kayapó (Pará): Uma das mais devastadas em termos de área, com mais de 11 mil hectares impactados pelo garimpo ilegal.
  • Terra Indígena Munduruku (Pará): Apesar da forte resistência do povo Munduruku, o território enfrenta invasões persistentes e a contaminação de seus rios, como o Tapajós, por mercúrio.
  • Terra Indígena Sararé (Mato Grosso): Registrada como líder de desmatamento em 2024/2025 devido à expansão do garimpo ilegal.

Geopolítica do crime: a conexão local-global do “Ouro de Sangue Indígena”

A extração de ouro em terras indígenas brasileiras não é um fenômeno isolado de criminalidade local. Trata-se de uma engrenagem estratégica de uma economia global predatória, articulada por fluxos financeiros opacos e por lacunas regulatórias que conectam o garimpeiro armado na Amazônia ao investidor institucional em Londres ou Nova York. Essa cadeia não é acidental, mas totalmente estruturada.

Do território ao sistema financeiro

O ouro extraído ilegalmente sob violência, contaminação ambiental e violação de direitos territoriais passa por um processo acelerado de “lavagem de ativos”. Em poucas horas, o chamado “ouro de sangue” pode ser transformado em “ouro institucional”.

Esse processo ocorreu, historicamente, por meio das Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários (DTVMs), que atuavam como porta de entrada do metal no sistema financeiro. Durante décadas, a chamada “presunção de boa-fé”, dispositivo legal que aceitava como verdadeira a declaração do vendedor sobre a origem do ouro, funcionou como salvo-conduto jurídico para o crime organizado.

Uma vez “esquentado”, o ouro deixava de ser minério extraído ilegalmente em território indígena e passava a ser classificado como ativo financeiro. Depositado em instituições custodiantes, adquiria lastro institucional e podia ser negociado formalmente.

O papel da B3 e a institucionalização da lavagem

A B3 (Brasil, Bolsa, Balcão) desempenhou papel central nesse circuito. Como principal ambiente de negociação de ativos financeiros no País, a bolsa brasileira operou, por anos, contratos de ouro à vista.

Nesse ambiente, o metal previamente “esquentado” pelas DTVMs ganhava roupagem de legalidade plena. Uma vez custodiado e registrado, passava a compor carteiras de investimento, fundos e operações financeiras, sem qualquer verificação de origem geológica ou territorial.

Em fevereiro de 2024, a B3 anunciou a descontinuação dos contratos de ouro à vista, medida inédita adotada após pressão do Ministério Público Federal e decisão do Supremo Tribunal Federal que derrubou a presunção de boa-fé. A decisão representou um reconhecimento implícito de que os mecanismos de controle existentes eram insuficientes para impedir a entrada de ouro ilegal no sistema formal.

No entanto, a retirada da B3 do mercado à vista não elimina o problema estrutural. O estoque de ouro já transformado em barras custodiadas continua circulando no mercado secundário e internacional. O metal que foi legalizado no passado permanece ativo, negociável e indistinguível do ouro de origem regular.

Da bolsa às refinadoras globais

Após inserido no sistema financeiro brasileiro, o ouro é exportado para refinadoras internacionais em países como Itália, Suíça e Canadá. Nessas plantas industriais, o metal é fundido e misturado ao ouro de origem legal, apagando qualquer traço físico de sua procedência.

O resultado é a diluição da responsabilidade. O ouro que saiu de uma terra indígena sob violência tornou-se parte de cadeias globais de produção tecnológica, joalheria de luxo e reservas financeiras. Já nas bolsas internacionais, rastrear sua origem é tarefa praticamente impossível.

ESG, Risco Reputacional e Passivo Histórico

A saída da B3 do mercado à vista pode ser interpretada como movimento de mitigação de risco reputacional, especialmente diante das pressões internacionais por padrões ESG, sigla em inglês para Environmental, Social, and Governance (Ambiental, Social e Governança). Contudo, a medida não resolve o passivo histórico acumulado.

O sistema financeiro global continua operando sobre um estoque de ouro cuja origem, em muitos casos, está ligada a violações territoriais e crimes ambientais. O problema não é apenas jurídico: é geopolítico.

O que se revela é uma arquitetura transnacional na qual violência territorial, omissão regulatória e engenharia financeira se entrelaçam. O ouro de sangue não é apenas um problema da Amazônia, mas um ativo globalizado.

O brilho da morte: entre a alta tecnologia e a ostentação do entretenimento

As maiores corporações do mundo, símbolos de inovação e sustentabilidade, são as consumidoras finais desse ciclo de destruição. O “ouro de sangue” brasileiro está presente em componentes de alta precisão de smartphones, servidores de dados e baterias de carros elétricos. Empresas como Apple, Microsoft, Tesla e Amazon operam em uma zona cinzenta de suas cadeias de suprimentos, onde auditorias superficiais falham em identificar o metal manchado com o sangue dos povos Yanomami, Kayapó e Munduruku.

Entretanto, o “ouro de sangue” não se esconde apenas nos circuitos invisíveis da tecnologia. Ele brilha intensamente nas vitrines da alta sociedade e nos palcos do entretenimento. A cultura da ostentação, alimentada por celebridades, influenciadores e a elite financeira, transformou o ouro em um troféu de status que ignora solenemente sua origem ética.

Investigações da Polícia Federal e dossiês da Repórter Brasil já apontaram que grandes joalherias, como a HStern, e marcas globais de luxo como Rolex, Tiffany e Bulgari, operam em mercados abastecidos por refinadoras europeias que processam o ouro “lavado” da Amazônia. No mundo das joias personalizadas e dos acessórios de luxo, o brilho do ouro serve para mascarar o mercúrio que envenena o rio Tapajós e a violência armada que dizima comunidades indígenas

O consumo consciente no Norte Global é uma ilusão sustentada pela invisibilidade do corpo indígena no Sul Global. Enquanto o entretenimento celebra em palcos o ouro em seus pescoços como símbolo de sucesso e poder, cada grama que brilha em uma joia de ostentação carrega o peso do genocídio de povos originários. O brilho da elite é a escuridão da floresta.” — segundo análise editorial da Rádio Yandê.

A complexa cadeia do ouro ilegal

A extração e comercialização do ouro de sangue envolvem uma rede complexa e multifacetada:

  1. Extração: Garimpeiros, muitas vezes em condições análogas à escravidão, são financiados por empresários e, cada vez mais, por organizações criminosas. O Primeiro Comando da Capital (PCC), por exemplo, tem sido associado à logística e lavagem de dinheiro proveniente do garimpo ilegal.
  2. Logística: O transporte do ouro e dos suprimentos para os garimpos é frequentemente realizado por aeronaves ilegais. Pilotos envolvidos nesse esquema podem faturar até R$ 200 mil por semana.
  3. Lavagem: O ouro ilegal é “esquentado” no mercado por meio de Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários (DTVMs) que aceitam declarações de origem falsas, baseadas na chamada “boa-fé” do comprador. Isso permite que o ouro ilegal seja inserido na cadeia de suprimentos formal.
  1. Empresas envolvidas: Dossiês e investigações têm apontado o envolvimento de diversas empresas, direta ou indiretamente, na cadeia do ouro ilegal. Refinadoras como a italiana Chimet e a brasileira Marsam foram citadas. Além disso, gigantes da tecnologia e da indústria automotiva, como Apple, Microsoft, Intel, Tesla, Amazon, Samsung, Sony, Volkswagen, Ford e General Motors, podem estar comprando ouro com origem duvidosa. Joalherias como a HStern também foram mencionadas em inquéritos da Polícia Federal.

Impactos socioambientais devastadores

Os impactos do ouro de sangue são profundos e multifacetados:

  • Saúde: A contaminação por mercúrio, utilizado na separação do ouro, provoca danos neurológicos irreversíveis, prejuízos ao desenvolvimento infantil e outras doenças graves entre indígenas e ribeirinhos. A degradação ambiental favorece surtos de malária e outras doenças transmitidas por mosquitos. A presença de garimpeiros também está associada ao aumento de Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs), como HIV, sífilis e gonorreia, frequentemente relacionadas à exploração sexual nas áreas invadidas, ampliando vulnerabilidades sanitárias e sociais.
  • Crise de Segurança Alimentar: A contaminação e o assoreamento dos rios comprometem a pesca, enquanto o desmatamento reduz áreas de caça, coleta e plantio tradicional. A perda dessas fontes de subsistência intensifica a insegurança alimentar e agrava casos de desnutrição infantil.
  • Desestruturação Social e Cultural: O recrutamento de indígenas para o garimpo, a criação de dependência econômica artificial e a circulação de álcool e drogas fragilizam lideranças, rompem vínculos comunitários e alteram práticas culturais, impactando diretamente a organização social dos territórios.
  • Segurança: A atuação de grupos ilegais intensifica conflitos armados, promove o aliciamento de jovens indígenas e amplia episódios de violência sexual contra mulheres e meninas, aprofundando o cenário de instabilidade nas comunidades.
  • Meio Ambiente: O garimpo ilegal provoca assoreamento de rios, desmatamento em larga escala, perda de biodiversidade e contaminação de ecossistemas inteiros. Além do mercúrio, sedimentos e outros metais pesados são lançados nos cursos d’água, deteriorando a qualidade da água e comprometendo a sustentabilidade da Amazônia.
  • Governança e Soberania Territorial: A Constituição Federal reconhece os direitos originários dos povos indígenas sobre as terras que tradicionalmente ocupam, assegurando-lhes posse permanente e usufruto exclusivo dos recursos naturais. Entretanto, a propriedade formal pertence à União, e decisões estratégicas, como a exploração mineral, dependem de autorização do Congresso Nacional e de consulta prévia às comunidades afetadas. Na prática, a efetivação desses direitos enfrenta entraves políticos, disputas legislativas, pressões do poder econômico local e global e fragilidades na fiscalização. O resultado é uma assimetria estrutural entre o reconhecimento jurídico dos direitos territoriais e o exercício efetivo do controle sobre esses territórios.
  • Legalidade e Responsabilização: O garimpo em terras indígenas, quando realizado sem autorização legal e sem consulta às comunidades, configura violação da legislação brasileira. Investigações indicam que parte do ouro extraído ilegalmente é “esquentada” por meio de fraudes documentais e inserida no mercado formal, evidenciando falhas de rastreabilidade e a existência de cadeias econômicas que conectam o crime ambiental a centros financeiros e comerciais.
  • Impactos Climáticos e Econômicos: O desmatamento associado ao garimpo contribui para o aumento das emissões de carbono, enfraquece compromissos climáticos assumidos pelo Brasil e acelera a degradação de biomas estratégicos. Ao mesmo tempo, o ouro ilegal movimenta cadeias econômicas paralelas de alto valor, fortalecendo redes criminosas e reduzindo a capacidade do Estado de exercer controle territorial.

Essa dinâmica transforma o garimpo ilegal não apenas em um crime ambiental, mas em um fenômeno sistêmico que produz uma crise humanitária, territorial, climática e institucional.

Foto: Christian Braga/Greenpeace

Garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami, evidenciando a destruição ambiental. [Fonte: Imagem de pesquisa]

Criança indígena Yanomami recebendo atendimento médico, um reflexo da crise de saúde causada pelo garimpo. [Fonte Crédito: Prevfogo/Ibama/MMA/ISA]

Ações e omissões dos órgãos federais

O combate ao garimpo ilegal em terras indígenas é uma responsabilidade complexa que envolve diversos órgãos federais. Embora haja esforços significativos, a atuação do Estado apresenta tanto avanços quanto lacunas críticas:

Ações (o que está sendo feito)

Operações conjuntas e fiscalização: O Governo do Brasil, por meio de uma força-tarefa que inclui o Ministério dos Povos Indígenas, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), a Força Nacional de Segurança Pública, a Polícia Federal (PF), a Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), a Polícia Rodoviária Federal (PRF), o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN), o Exército Brasileiro (EB) e a Força Aérea Brasileira (FAB), têm realizado milhares de operações. Na TI Yanomami, por exemplo, foram mais de 9 mil ações entre março de 2024 e janeiro de 2026, resultando na inutilização de 45 aeronaves, 77 pistas de pouso clandestinas e 762 acampamentos, além da apreensão de 249 quilos de ouro e 232 quilos de mercúrio. A Funai e a Polícia Federal também atuam em ações permanentes de fiscalização e repressão em outras TIs, como a Kayapó.

  • Redução do garimpo: Essas operações resultaram em uma queda de 98,77% nas áreas de garimpo ativo na TI Yanomami no período mencionado, com prejuízos estimados em mais de R$ 642 milhões à estrutura econômica do garimpo ilegal.
  • Atuação do Ministério Público Federal (MPF): O MPF tem sido proativo na deflagração de operações contra o garimpo ilegal, como na TI Trincheira Bacajá, e na busca por ações judiciais para proteger as áreas indígenas.
  • Regulamentação e investigação de mercado: A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) abriu processos administrativos contra empresas por comércio de ouro de garimpo ilegal, após denúncias do Instituto Escolhas. Além disso, o Supremo Tribunal Federal (STF) derrubou a presunção de boa-fé no comércio de ouro, um mecanismo que historicamente facilitava a lavagem do metal ilegal.

Omissões e falhas (o que não está sendo feito ou onde há deficiências)

  • Deslocamento do garimpo: Apesar do sucesso em algumas áreas, as operações de combate frequentemente resultam no deslocamento do garimpo ilegal para outras TIs, como a Sararé (MT), que se tornou líder de desmatamento, e a Munduruku (PA), onde o problema persiste. Isso demonstra a necessidade de uma estratégia mais abrangente e coordenada que evite o “efeito gangorra”.
  • Falta de coordenação e segurança: Relatórios apontam falhas na coordenação entre as ações governamentais, o que gera insegurança em áreas sensíveis e dificulta a retirada completa dos garimpeiros. A persistência de riscos para servidores da Funai em algumas regiões é um indicativo dessa deficiência.
  • Lentidão na fiscalização do mercado: Embora a CVM tenha agido, a investigação contra as empresas só foi aberta em 2023, após um estudo de 2022, evidenciando uma demora na fiscalização de um mecanismo (a presunção de boa-fé) que já era criticado há anos e permitia a lavagem de toneladas de ouro ilegal.
  • Apoio governamental passado e ineficiência pontual: Houve períodos em que o garimpo ilegal foi incentivado por governos anteriores, e mesmo em 2024, algumas ações federais foram consideradas ineficientes, com a área devastada crescendo em certas TIs.
  • Controle de fronteiras e rotas de abastecimento: A dificuldade em controlar as vastas fronteiras e as rotas de abastecimento dos garimpos ainda é um desafio, permitindo que insumos e equipamentos cheguem aos invasores.

Indígenas protestam contra o garimpo ilegal e o ouro de sangue. Foto: Diego Baravelli/Greenpeace

Falhas da Funai e do Ministério dos Povos Indígenas (MPI) no combate ao Ouro de Sangue

Apesar dos esforços e operações conjuntas, a atuação da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e do Ministério dos Povos Indígenas (MPI), e suas respectivas lideranças, tem sido alvo de críticas e apresenta falhas que comprometem a eficácia do combate ao garimpo ilegal. É crucial analisar essas deficiências em diferentes níveis de gravidade para entender a complexidade do problema.

Falhas amenas

  • Burocracia e morosidade administrativa: A lentidão nos processos internos, na liberação de recursos e na tomada de decisões administrativas tem sido um obstáculo. A burocracia excessiva muitas vezes atrasa a resposta a emergências e a implementação de projetos de proteção territorial.
  • Comunicação institucional deficiente: Falhas na comunicação entre os órgãos e com as comunidades indígenas podem gerar desinformação e dificultar a coordenação de ações, além de minar a confiança dos povos indígenas nas instituições.

Falhas graves

  • Insuficiência de recursos e sucateamento: A Funai em particular, tem sofrido com o sucateamento e a falta de recursos humanos e financeiros, especialmente em governos anteriores. Isso limita sua capacidade de fiscalização, proteção territorial e assistência aos povos indígenas em áreas de conflito, tornando as ações esporádicas e insuficientes.
  • Demora na execução de planos de desintrusão: Mesmo com planos de desintrusão aprovados, a execução pode ser lenta ou incompleta, permitindo que garimpeiros retornem às áreas já desocupadas. A falta de permanência das forças de segurança após as operações é um fator crítico.
  • Falta de diálogo efetivo com lideranças de base: Em alguns casos, a comunicação com as lideranças indígenas de base é insuficiente, resultando em ações que não atendem plenamente às necessidades e especificidades de cada comunidade, ou que não aproveitam o conhecimento local para o combate ao garimpo.

Falhas gravíssimas e responsabilidade política

Neste nível, a falha deixa de ser técnica e passa a ser uma escolha política de omissão ou conivência.

  • Omissão diante de alertas e ataques iminentes: Houve denúncias de omissão por parte de órgãos governamentais diante de alertas de ataques e invasões de garimpeiros, o que resultou em violência e mortes de indígenas. A falta de resposta rápida e eficaz a essas ameaças é uma falha gravíssima que coloca vidas em risco.
  • Falha na proteção de servidores e indígenas: A insegurança em áreas de garimpo ilegal expõe tanto os servidores da Funai quanto os próprios indígenas a riscos extremos. A incapacidade de garantir a segurança desses atores é uma falha crítica que afeta diretamente a capacidade de atuação no campo.
  • Manutenção de estruturas que favorecem o garimpo: A persistência de mecanismos que facilitam a lavagem de ouro, como a antiga “presunção de boa-fé” (apenas recentemente derrubada pelo STF), demonstra uma falha sistêmica na proteção dos territórios indígenas. A demora em combater essas estruturas legais e econômicas contribuiu para o avanço do garimpo.
  • Incentivo e apoio governamental passado: Em períodos anteriores, houve acusações de que o próprio governo incentivou o garimpo ilegal, minando os direitos indígenas e encorajando a impunidade dos criminosos. Embora o cenário atual seja de combate, as consequências dessas políticas passadas ainda são sentidas.
  • Inércia na rastreabilidade tecnológica: Apesar de o Brasil possuir tecnologia para implementar a rastreabilidade via DNA do ouro e selos digitais, a implementação em larga escala pelo governo federal e pelo Banco Central tem sido barrada por lobbies setoriais, mantendo as portas abertas para o ouro de sangue na economia global.

O “ouro de sangue” indigena é uma realidade brutal que exige atenção e ação urgentes. A luta contra o garimpo ilegal em terras indígenas não é apenas uma questão ambiental, mas uma defesa da vida, da cultura e da dignidade dos povos originários do Brasil. É fundamental que haja uma fiscalização mais rigorosa, punição exemplar para os envolvidos em toda a cadeia, e que as empresas compradoras de ouro assumam sua responsabilidade, garantindo a rastreabilidade e a origem ética do metal. Somente assim será possível estancar essa chaga e garantir um futuro mais justo e sustentável para a Amazônia e seus povos.

Por: Anápuàka Tupinambá Hãhãhãe | Raquel Carneiro | Redação Rádio Yandê

Referências

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Ações do governo federal contra garimpo ilegal são ineficientes e área devastada cresce 7% na Terra Indígena Yanomami, diz ISA.  Portal G1. (2024). Disponível em:< https://g1.globo.com/rr/roraima/noticia/2024/01/26/acoes-do-governo-federal-contra-garimpo-ilegal-sao-ineficientes-e-area-devastada-cresce-7percent-na-terra-indigena-yanomami-diz-isa.ghtml>. Acesso em: 20.fev.26

Sob Bolsonaro, Funai põe direitos indígenas em risco.  Deutsche Welle. (2022). Disponível em:<https://www.dw.com/pt-br/sob-bolsonaro-funai-p%c3%b5e-direitos-ind%c3%adgenas-em-risco/a-62760333>. Acesso em:20.fev.26.
Relatório sobre omissões governamentais e direitos indígenas. Human Rights Watch. (2022). Disponível em:<https://www.hrw.org/pt/world-report/2022/country-chapters/brazil>. Acesso em: 20.fev.26

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