
Universidades são convocadas a reconhecer línguas, rituais e métodos de conhecimento indígenas como ciência legítima no ensino superior.
A Universidade Federal do Amazonas (UFAM) viveu um daqueles momentos que mudam o rumo da história, não apenas da instituição, mas da ciência produzida no Brasil. Pela primeira vez, uma tese de doutorado foi defendida diante de uma banca composta inteiramente por professores indígenas, marcando a consolidação de um movimento que há décadas vem sendo construído pelos povos originários, a reivindicação do direito de produzir ciência a partir das próprias cosmologias, línguas, corpos e protocolos.
O doutorando Jaime Diakara Dessano, povo Dessana, apresentou sua pesquisa escrita integralmente em língua Tukano no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS/UFAM). A defesa uniu canto, grafismos, bebida tradicional, sopro ritual e defumação, não como ornamento, mas como metodologia de pesquisa, e a universidade, desta vez, reconheceu.
Este não foi um ritual dentro da academia. Foi a academia entrando no território indígena do conhecimento.
“Estamos marcando um momento histórico. As bancas indígenas mostram que a universidade precisa reconhecer como pensamos, como produzimos conhecimento e como criamos teoria a partir de nossos próprios mundos.” — Drº Jaime Diakara Dessano
Uma conquista que nasce de dentro dos povos, e não das instituições
A defesa é resultado de mais de 15 anos de políticas afirmativas construídas a partir do diálogo com estudantes indígenas, lideranças, pesquisadores e núcleos como o NEAI.
Essas políticas garantiram:
• editais específicos
• reconhecimento de línguas indígenas como línguas científicas
• validação de grafismos, narrativas e performances como produção acadêmica
Mas a defesa de Diakara vai além de um processo administrativo. Ela consolida algo que a Etnomídia Indígena vem denunciando há décadas, a universidade brasileira ainda não tinha entendido como o indígena pensa, cria teoria e valida seus saberes. Agora, não há mais volta.
O que diz a tese que provocou um marco
A pesquisa investiga duas forças fundamentais para o povo Dessana:
Bahsésê, o sopro de fumaça do kumu, que ativa rituais, organiza festas e orienta cuidados.
Ûsecoda, a saliva produzida pela mulher, potência de fermentação, criação e transformação.
O estudo demonstra a articulação entre corpo feminino, mito e prática produtiva do caxiri, revelando uma cosmologia complexa e profundamente sofisticada. A tese rompe com o esquema acadêmico ocidental que separa corpo, espiritualidade, substância, símbolo e fazer. Para os Dessana, e para muitos povos da Amazônia, tudo isso é ciência. Sempre foi.
Etnomídia Indígena, quando a notícia se ancora no território epistemológico
O impacto desse momento não está apenas no fato ocorrido, mas no que ele representa para os modos indígenas de comunicar conhecimento.
Segundo o campo da Etnomídia Indígena, comunicar não é apenas transmitir informação, é circular a memoriância, transformar tempo, costurar mundos, ativar parentesco, afirmar pertencimento e defender cosmovisões.
Esta defesa de doutorado faz exatamente isso:
• reafirma a língua Tukano como língua de pensamento científico
• dá centralidade às práticas corporais e espirituais como metodologia
• reconhece que a autoridade do conhecimento está nos povos, não nas instituições
• insere o território do Rio Negro como produtor de teoria, e não como objeto de estudo
• rompe a lógica de tradução que tantas vezes apaga a complexidade indígena
Para a Etnomídia Indígena, este é um marco que precisa ser narrado por nós, não pelos filtros coloniais da grande imprensa.
Por que o Brasil precisa transformar este caso em protocolo nacional?
O que aconteceu na UFAM não pode e não deve ser exceção. É preciso estabelecer um protocolo indígena nacional para a educação superior, válido para universidades públicas e privadas.
O protocolo deve garantir:
1. Direito à língua materna
Trabalhos de conclusão, dissertações e teses podem, e devem, ser apresentados em línguas indígenas, sem exigir tradução como condição de validade.
A língua é território, é pensamento, é método, e negar a língua é negar a ciência do povo que fala.
Para povos indígenas, a língua não é apenas veículo, é epistemologia, é o caminho por onde o conhecimento caminha.
2. Reconhecimento da Epistemologia Indígena como base científica
As universidades precisam reconhecer que povos indígenas possuem sistemas próprios de produzir, organizar e validar conhecimento, articulando corpo, território, rito, ancestralidade, canto, substâncias e memória como fundamentos científicos.
Negar essa epistemologia é manter o colonialismo científico, reconhecer é abrir espaço para um Brasil verdadeiramente pluriversal.
3. Metodología indígena como método científico
Ritual, canto, grafismo, corpo, voz, performance, sopro, fermentação e narrativas dos mais velhos são metodologias legítimas de pesquisa.
O conhecimento indígena nasce no movimento da vida, não apenas no texto acadêmico, e a universidade precisa compreender que método não é apenas protocolo escrito, mas prática viva.
4. Bancas indígenas obrigatórias
Sempre que o tema envolver povos originários, é fundamental a presença de pesquisadores indígenas na banca.
Isso garante rigor epistêmico, evita distorções, impede exotizações e assegura que o território fale por si.
Quem vive o conhecimento tem autoridade para reconhecê-lo.
5. Validação da formação indígena completa
Da graduação ao pós-doutorado, estudantes indígenas devem poder apresentar suas trajetórias formativas nos moldes tradicionais de seus povos, com reconhecimento pleno do MEC e das universidades.
A formação indígena não é paralela, é ciência completa, com seus próprios critérios, fundamentos e legitimidades.
6. Equiparação entre rito acadêmico e ritual indígena
Não existe hierarquia entre rito acadêmico e ritual indígena.
Ambos são formas de legitimar conhecimento, reconhecer trajetórias e dar continuidade aos saberes que sustentam a vida.
Para muitos povos, ritual é método, é registro, é arquivo e é validação.

O que está em jogo é futuro, e soberania intelectual
O marco vivido pela UFAM não é um gesto de inclusão. É uma mudança estrutural na forma como o país entende ciência.
Institucionalizar esse protocolo é:
• reparar séculos de silenciamento
• fortalecer a soberania epistêmica indígena
• reconhecer o Brasil como país pluriversal
• garantir que futuras gerações não precisem abandonar sua língua para serem reconhecidas como cientistas
• romper definitivamente com a lógica que reduz povos indígenas a objetos de estudo
Ciência brasileira não existe sem epistemologias indígenas
A defesa de Jaime Diakara não abre apenas um caminho. Ela convoca o Brasil a redesenhar seu sistema universitário para que deixe de ser monocultural e passe a reconhecer o país real, composto por povos, línguas e mundos diversos.
A UFAM mostrou que é possível.
Agora, é preciso transformar esse gesto em política, em protocolo, em norma, para que todo estudante indígena possa se formar como indígena, com a força da sua língua, do seu território e da sua ciência.
Redação Radio Yandê







