Jornalismo e Povos Originários: O Papel Transformador da Etnomídia Indígena

Por Anápuàka Tupinambá Hãhãhãe – etnocomunicador CEO da Rádio Yandê e empreendedor indígena


Introdução

A comunicação sempre foi um pilar fundamental para a coesão e resistência das comunidades indígenas. A experiência vivida diariamente, enquanto comunicador e empreendedor à frente da Rádio Yandê, a primeira webradio indígena do Brasil, me possibilitou refletir, desenvolver e aprimorar a Etnomídia Indígena. À primeira vista, aos olhos não indígenas, o conceito pode até parecer complicado, mas é muito simples: o compreendo como um fazer político-comunicacional que coloca a produção multi, pluri midiática de tecnologias digitais nas mãos dos indígenas, permitindo-lhes narrar suas histórias a partir de suas próprias perspectivas, sem atravessadores. São comunicadores que, a partir de sua ancestralidade, memória, espiritualidade e resistência, apresentam em suas identidades, as múltiplas maneiras de ver, ler, escutar, produzir, pensar e difundir a Comunicação.

Neste artigo, quero compartilhar com você como fui construindo e continuo a aprofundar o conceito da Etnomídia Indígena no meu dia-a-dia, como a sua prática e seus eixos de trabalho são importantes para o fortalecimento da comunicação popular e experiências etnocomunicacionais indígenas transfronteiriças, e o quanto pode contribuir para práticas jornalísticas menos colonizadoras e cretinas das mídias massivas.

O que é Etnomídia Indígena?

Definição e Propósito

Para iniciar a nossa prosa, ressalto que a Etnomidialogia é uma disciplina recente, investigada pelo Prof. Alexino Ferreira (2015), a qual se refere às autorepresentações midiáticas de grupos sócio-acêntricos, ou seja, de grupos “minorizados”. Com o foco na população afro-brasileira, as suas pesquisas procuraram compreender em que medida os aspectos ideológico-culturais constroem e também desconstroem identidades na esfera da Comunicação.

Sou um cidadão negro e também indígena, se você ainda não me conhece. Por isso, de antemão, explico que sou filho de grandes nações que jamais foram, historicamente, minorias: os Tupinambá, que antes do grande saque feito pelos portugueses, eram milhares pela terra de Pindorama, e as diversas etnias africanas, violentadas e escravizadas ao chegarem por aqui. São milhões, os cidadãos de tantos povos que construíram, à força, suor e luta, o que hoje chamamos Brasil! E, embora saibamos que os seus sangues correm por nossas veias, seja você indígena, negro ou não, ainda hoje, milhões de brasileiros desconhecem, negam e invisibilizam suas existências históricas e contemporâneas. Se mais de 50% da população brasileira é negra, nós, indígenas, sempre fomos muito mais do que 1 milhão e 700 mil, não fechando a conta atual do Censo 2023. O Prof. Gersem Baniwa (2019) ressalta que somos mais de 305 etnias e falamos mais de 274 línguas, o que significa dizer que há mais de 305 modos de ser e estar no mundo comunicados, diariamente, em mais de 274 línguas distintas. 

Agora, você já imaginou essa imensa diversidade consumindo somente os meios massivos de comunicação? Esses, que insistem na velha e única narrativa etnocêntrica, egocêntrica e eurocêntrica, que se aloja no imaginário social, estereotipa e marginaliza o povo indígena, como “romântico”, ora associado ao “conflito”, ao “selvagem”, ao “tutelado”? Sendo um cidadão indígena que vive nas encruzilhadas dos saberes, como diz a professora Leda Maria Martins (2021), da aldeia para a cidade e vice-versa, amadureci o entendimento de que os meios de comunicação massivos nunca funcionaram para propagar a temática indígena, muito menos para entender a nossa diversidade comunicacional!

Nós temos  conceitos culturais, linguísticos e sociais que têm caminhos totalmente diferentes. Somos seres históricos e em comunicação midiática, uma vez que estamos inseridos em contextos, lógicas de produção, discursos, modelos informativos das indústrias culturais hegemônicas, que tentam nos matar em todos os sentidos. E o que a gente faz com isso? Pega a flecha digital e mira no fortalecimento da nossa própria cultura, construindo uma comunicação do nosso povo, gerando territórios indígenas digitais! Afinal, não somos pasteurizados! Nós somos muitos e cada etnia constrói a sua comunicação, tendo como princípio matriz as suas culturas atuais e a sua ancestralidade. A partir daí, o comunicador indígena vai tecendo a sua identidade, com os fios de valores e conhecimentos somados e transmitidos por sua tradição e cultura, seja através de grafismos, pensamentos cantados, dançados, rezados, da vida em comunidade ou no resgate dessa, formando os seus territórios de saberes.

Do conflito, da miséria, do genocídio e do epistemicídio, eu já estava cheio. Na boa? Eu queria mesmo era saber dos meus parentes! Seja nas redes digitais ou presencial, eu sempre perguntava para um aqui, outro ali: “Olha, a gente tem a Rádio Yandê, você quer participar? Quer mostrar sobre a sua cultura? Quer mostrar o melhor de você? Você quer auxiliar a ser melhor a sua comunidade? Quer mostrar o melhor do seu povo?”.

Hoje, há mídias indígenas do Nordeste, Centro-Oeste, no Alto Rio Negro, no Amazonas! A intenção é que o cidadão indígena, na simplicidade, possa construir suas linguagens comunicacionais para gerar aplicabilidade dentro do seu território. Primeiro, deve fortalecer a comunicação interna, no âmbito da sua comunidade e depois, de maneira externa, precisa mostrar ao mundo o melhor de sua cultura!

Reforço que a  Etnomídia Indígena é simples para nós, indígenas. Nossas linguagens comunicacionais, que constituem nossas identidades, não são marcadas apenas por aspectos ideológico-culturais, mas são produzidas e difundidas a partir de nossas experiências sociais, políticas, econômicas, culturais e jurídicas com as nossas nações e também com suas problemáticas. São essas vivências e as nossas relações múltiplas que nos capacitam a lidar com os formatos brancos hegemônicos, suas estratégias, informações, conhecimentos e gramáticas que ainda tentam nos tutelar. Comunicar e expressar nossas inteligências e sensibilidades são ações que fazemos todos os dias, de forma a considerar a nossa mutabilidade, a nossa multidimensionalidade e, por isso, já pensamos em uma Etnomultimídia…. Isto porque a identidade de cada cidadão indígena é flexível e está em constante evolução, cultivando tradições e recriando a memória do conhecimento, nos seus repertórios orais, corporais, visuais, artísticos, comunicacionais! Logo, a nossa Comunicação utilizará todos os conceitos de registros, gestos, hábitos, técnicas, ou quaisquer outros meios comunicacionais que nos impulsionem a existir.

A seguir, explico para você quais os eixos trabalhados pela Etnomídia e Etnomultimídia Indígena para criar uma comunicação que, não apenas respeite e valorize as culturas indígenas, mas empodere e mobilize as comunidades a (re)existir e prosperar em face das adversidades históricas e contemporâneas:

Eixo 1. Construção de uma Comunicação Indígena Cidadã

Para tanto, precisamos falar de dois conceitos identidade e autonomia:

  • A promoção da identidade indígena significa valorizar e reforçar a identidade cultural e étnica das comunidades indígenas, assegurando que suas vozes e perspectivas sejam ouvidas e respeitadas na mídia;
  • O empoderamento comunitário é muito importante para fortalecer a autonomia e luta pelo direito fundamental à livre expressão dos povos indígenas, proporcionando uma plataforma para que possam se comunicar e discutir suas próprias questões, respeitando a sua própria língua e costumes.

Eixo 2. Resistência e Descolonização

A resposta ao Poder Hegemônico dos meios massivos de comunicação vem com o diálogo e, principalmente, a escuta dos povos indígenas, promovendo a inter-relação humana respeitosa a partir da cultura e tradição dos povos.

  • A oposição aos modelos hegemônicos se dá na resposta aos modelos dominantes de comunicação que frequentemente marginalizam ou distorcem as culturas indígenas, significa conhecê-los e subverter suas ordens, através das sabedorias, sensibilidades, conhecimentos a partir do chão dos territórios, fortalecendo narrativas próprias;
  • A preservação das tradições, seus registros e divulgação das culturas, línguas e conhecimentos ancestrais são cruciais através da Comunicação, como um meio de resistência cultural contra a assimilação forçada e a perda da identidade étnica cultural;
  • A resistência e resiliência na utilização e apropriação da mídia como meio multimidiático de resistência política, social, cultural contra as opressões históricas, promovendo a resiliência das comunidades indígenas.

Eixo 3. Mobilização e Educação

A consciência política e sensibilização são fundamentais para falarmos sobre:

  • Educação sobre Direitos Humanos e Indígenas nas comunidades indígenas e na sociedade em geral  para educar e fomentar uma consciência política e social sobre as questões indígenas no Brasil e no seu contexto Latino-Americano, a partir de experiências de outros povos parentes, como Mapuche, Aymara;
  • Informação e sensibilização tanto para comunicar com os cidadãos indígenas e para a sociedade em geral sobre as temáticas indígenas relevantes, ampliando a compreensão, educação, conhecimento e apoio às causas dos povos originários, que também é de todos: meio ambiente, emergência climática, sustentabilidade, cidadania;
  • Educomunicação comunitária e participação ativa devem ser encorajados dentre as comunidades indígenas, reconhecendo e problematizando as realidades nas aldeias, com a participação dos comunicadores indígenas. Incentivar e trabalhar a autogestão, mobilização e circulação de ideias comunitárias, bem como em seus processos sociais, políticos e culturais, estimulando à educação midiática libertadora, emancipadora e cidadã. A etnomídia, como meio comunicacional de mobilização, fortalecimento, união e engajamento comunitário.

Eixo 4. Pluralidade e Inclusão

O respeito à diversidade de saberes implica no trabalho etnocomunicacional pensado em:

  • Ecologia de Saberes para a promoção de  uma integração entre conhecimentos científicos e saberes étnicos e ancestrais, oferecendo uma visão pluralista e inclusiva do mundo que valorize a diversidade de perspectivas;
  • Diálogo Intercultural e a sua facilitação entre as diferentes culturas,  com a intenção de promover, primeiramente, a escuta dos seres e posterior diálogo, em um exercício de escuta, compreensão e respeito à diversidade cultural étnica indígena.

Eixo 5. Inovação e Sustentabilidade

Cada etnia, em suas comunidades, têm o direito à tecnologia apropriada para a sua cultura no seu desenvolvimento comunicacional:

  • Uso Inovador de Tecnologias em comunicação deve ter seu uso e aplicabilidade adaptados às necessidades e contextos das comunidades indígenas, assegurando que sejam acessíveis e relevantes;
  • Sustentabilidade e seus modelos de mídia necessitam ser econômica e culturalmente sustentáveis, garantindo a continuidade e a viabilidade das iniciativas de etnomídia a médio e longo prazo.

Eixo 6. Autonomia e Autorepresentação na Comunicação

A voz ativa na mídia, seja em meios comunicacionais de massa ou em mídias indígenas necessitam:

  • Autonomia na representação para garantir que os comunicadores indígenas tenham sua forma de produzir e veicular a informação respeitados, a partir de suas identidades étnicas e permitindo que se representem de maneira autêntica e sem intermediários.

Comunicação Popular e Povos Indígenas

A comunicação popular visa democratizar a informação, proporcionando espaço para que comunidades marginalizadas contem suas histórias. Por isso, para nós, povos indígenas, trabalhar a comunicação a partir das comunidades significa fazer caminhar nossos pensamentos cantados, dançados, ritualizados, conhecimentos grafados em nossa pele. Nossa comunicação é construída a partir das raízes de sabedorias ancestrais, através da escuta dos mais velhos.  Fazer caminhar nossos conhecimentos significa conhecer a memória e o território, fortalecendo cada comunidade como um espaço de aprendizagem. Saberes oriundos do chão da aldeia, que se constituem em pedagogias e estratégias políticas, uma vez inseridos em espaços e narrativas de violência, invisibilidade e estereótipos, defendendo seus lugares existenciais diante da mídia hegemônica.

Papel da Etnomídia Indígena na Comunicação Popular

A etnomídia indígena promove uma mídia inclusiva e participativa, a partir da construção coletiva de uma produção de saberes. Informação e ancestralidade, memória espiritualidade e resistência são tecidos juntos. A etnomídia e a etnomultimídia  se enraízam da comunicação ancestral e contemporânea, possibilitando aos indígenas relatarem suas próprias experiências, ao invés de depender de intermediários que, frequentemente, não compreendem a profundidade de nossas culturas. E não compreendem, porque seus processos de aprendizagem são rasos, ou seja,  suas metodologias de conhecimento e produção coletiva, tendo a escuta como premissa, inexistem. Assim, não constroem diálogos com a diversidade étnica, mas insistem em perpetuar o silenciamento de vozes que possuem, sim, uma comunicação autêntica e empoderada.

Experiências Transfronteiriças

A Importância da Cooperação Internacional

As experiências transfronteiriças são vitais para a troca de conhecimentos e a construção de solidariedade entre povos indígenas de diferentes regiões. Projetos de comunicação popular elaborados por comunidades indígenas na América Latina foram se desenvolvendo em meados do século XX, através de inúmeras pequenas emissoras em áreas rurais e urbanas com produção e veiculação de conteúdo sobre a cultura, a língua e os direitos fundamentais desses cidadãos.

A partir da oralidade, uma das riquezas de expressão da tradição e cultura de um povo, destaco o fundamental papel do rádio não apenas na minha trajetória enquanto comunicador, mas pela possibilidade que nos traz  em rememorar, ressignificar e valorizar os conhecimentos ancestrais transmitidos dos anciãos aos mais jovens. Em meio a trajetórias sociohistóricas marcadas por ditaduras, neocolonizações, guerras e genocídios de comunidades inteiras, com a intenção de segregar e dizimar, a autocomunicação indígena fomentou espaços de ação em distintos meios comunicacionais, impactando políticas públicas e governamentais (Carneiro, 2023).

Experiências e iniciativas etnomidiáticas indígenas nos países Chile, Bolívia, Equador Colômbia e México, bem como no Canadá, Austrália, Nova Zelândia inspiraram a criação da Rádio Yandê, em 2013. A América Latina, em especial, foi o território onde as primeiras experiências de rádio comunitária, alternativa e popular no mundo começaram, bem como organizações e entidades que contribuíram historicamente para a elaboração e fomento de redes e processualidades comunicacionais, tais como a Associação Mundial de Rádios Comunitárias (AMARC).

Embora países com cenários históricos, políticos, sociais, econômicos, culturais, jurídicos distintos, há temáticas que unem os povos indígenas, quanto ao ativismo político nos processos de reivindicação étnica e recuperação territorial, além do esforço em desfazer, por eles mesmos, através das narrativas vivenciadas nos territórios, a imagem preconceituosa e estigmatizante transmitida pelos grandes meios de comunicação.

O fomento às trocas de vivências e experiências indígenas no âmbito etnocomunicacional, em nosso continente latino-americano, é fundamental, é urgente! Compartilhar nossas práticas nos auxilia a enfrentar desafios comuns de forma colaborativa, criando uma rede de apoio global que fortalece nossas lutas e reivindicações.

Exemplos de Iniciativas Transfronteiriças

  • Rádios Comunitárias Bilíngues são fundamentais pois produzem programas em múltiplas línguas indígenas, fortalecendo a identidade cultural e ampliando o alcance das vozes indígenas. Destaco apenas algumas, como a Radio Kurruf , um meio de comunicação social autônomo que nasceu em 2015,  da organização de  moradores, estudantes e  trabalhadores Mapuche, ligados aos diferentes movimentos sociais que ocorrem em “Ngülumapu” (território Wallmapu), a Radio Tuna La Voz de Las Cascadas, rádio de interesse coletivo e social, dedicada a comunicar a todas as comunidades o bem e o desenvolvimento da federação e dos povos do Equador,  a Radio Comunitaria Jënpoj, que fortalece a vida comunitária e a oralidade da língua Ayuujk, falada pelo povo Mixes, no México.
  • Redes Digitais Globais são redes e fluxos online que permitem que comunidades indígenas de diferentes continentes compartilhem histórias, estratégias de resistência e projetos culturais, criando um diálogo intercultural que enriquece todas as partes envolvidas. Destaco iniciativas, como o Portal Coletivo Mapuexpress da cidade de Temuco, no Chile. É um coletivo tem em seus objetivos a defesa e promoção dos direitos do povo Mapuche, assim como o respeito aos direitos humanos dos povos indígenas.  O site nasceu entre os anos 1990 e 2000, sob a coordenação do grupo “Kona Pewman”, que reunia jovens, principalmente profissionais Mapuches, que se organizaram para contribuir com suas capacidades aos processos de luta e construção do povo.  Há também a Agencia Plurinacional de Comunicación APC Bolivia, que surge em abril de 2010, com a intenção de gerar, divulgar e distribuir informações sobre conteúdos e materiais de comunicação dos povos indígenas nativos camponeses interculturais e suas organizações, bem como promover e especificar a interligação dos diferentes espaços e meios de comunicação próprios e aliados do Sistema Plurinacional de Comunicação. Por fim, destaco  o Portal Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador (CONAIE), organização que reúne as nacionalidades, povos, comunidades, centros e associações indígenas do Equador, e  oferece boletins informativos, notícias, uma biblioteca digital e a Radio CONAIE, com o programa “Tambores Suenan”, parte da estratégia comunicacional da confederação em coordenação com rádios comunitárias, organizações de base, grupos de comunicação comunitária.

O Papel da Tecnologia na Etnomídia e Etnomultimídia Indígena

Os Meios Digitais

A tecnologia tem um papel crucial na expansão da etnomídia indígena. Os meios digitais, como redes sociais, plataformas de streaming e aplicativos móveis, permitem uma disseminação mais ampla e eficiente das vozes indígenas. No entanto, ainda estamos longe de ter nosso direito ao acesso à tecnologia e à informação assegurados para o nosso desenvolvimento comunicacional, sociopolítico e econômico presente e futuro de nossas tradições e culturas.  Os meios digitais só serão democráticos acesso se houver pleno acesso à todos e para isso, é preciso que lutemos por políticas públicas de acesso à informação, pela regularização das mídias, para que  as comunidades indígenas alcancem uma audiência global, ampliando, verdadeiramente, seu impacto.

Desafios e Considerações

Apesar das oportunidades oferecidas pela tecnologia, fiquemos alerta para a necessidade de uma adoção crítica e consciente dos meios digitais. É fundamental que as tecnologias sejam integradas de maneira que respeitem os valores e a soberania das comunidades indígenas, evitando a imposição de modelos externos de comunicação. A etnomídia  e etnomultimídia devem promover os lugares de fala e escuta desde dentro da aldeia, de formas culturais próprias de comunicação, gerando comunidades de saberes coletivas. A nossa comunicação e expressão devem ser extensões das nossas tradições e formas de vida cultural, política, social, econômica e não uma substituição.

Casos de Sucesso da Etnomídia e Etnomultimídia Indígena

Rádio Yandê

A Rádio Yandê é um exemplo emblemático de etnomídia indígena no Brasil. Quando a idealizei, imaginava a webradio como um território comunicacional para a difusão de música, notícias e debates culturais indígenas, alcançando uma audiência global. A Rádio Yandê não só informa, mas também inspira e conecta, criando um senso de comunidade e identidade entre os ouvintes indígenas, com uma programação de 24h, nas línguas originárias e também em português, como forma de aprendizagem e denúncia.

Festival Yby

O Yby Festival, que também idealizei, celebra a música indígena contemporânea, destacando artistas e culturas indígenas do Brasil e do mundo. O festival não apenas promove a música indígena, mas também fortalece a conexão entre diferentes comunidades indígenas e o público em geral. Ele serve como um espaço de celebração e resistência cultural, onde as vozes indígenas são amplificadas e valorizadas.

A Educomunicação de Comunicadores Indígenas – Rede Wayuri

A Rede Wayuri é um coletivo de comunicação indígena do Rio Negro, Brasil, está localizado no extremo noroeste do estado do Amazonas, abrange os municípios de São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos. Nessa região vivem mais de 40 mil indígenas em cerca de 750 comunidades que abrigam 24 povos indígenas que pertencem a três famílias linguísticas: Aruak, Tukano e Maku: Arapaso, Bará, Barasana, Desana, Karapanã, Kubeo, Makuna, Mirity Tapuya, Piratapuya, Siriano, Yanomami, Tariana, Tukano, Tuyuca, Kotiria, Baniwa, Kuripako, Hupda, Yuhupde, Dâw, Nadöb, Baré e Warekena.

Desafios e Oportunidades Futuras

Sustentabilidade e Financiamento

Um dos principais desafios para a Etnomídia Indígena é garantir sustentabilidade financeira. Projetos de etnomídia frequentemente enfrentam dificuldades para obter financiamento, especialmente aqueles que não se alinham com as narrativas dominantes. A busca por modelos de financiamento alternativos, como crowdfunding e parcerias com ONGs, pode ser uma solução para garantir a continuidade desses projetos.

Formação e Educomunicação

Capacitar jovens indígenas em técnicas de comunicação e jornalismo é essencial para a continuidade e expansão da etnomídia. Programas de treinamento e educação podem fortalecer as habilidades necessárias para que as comunidades indígenas possam fazer autogestão, mobilização e circulação de ideias comunitárias em suas próprias mídias. A formação de comunicadores indígenas não só garante a perpetuação da etnomídia, mas também empodera uma nova geração de líderes indígenas, com habilidades e sensibilidades de identificar traços no comunitário, no ancestral, na memória, como centrais nos processos e produtos.

Políticas Públicas e Reconhecimento

É crucial que governos e instituições reconheçam a importância da etnomídia e apoiem políticas públicas que promovam a diversidade na mídia. O reconhecimento oficial pode abrir portas para financiamentos e colaborações mais amplas. Além disso, a inclusão da etnomídia nas políticas públicas de comunicação pode garantir que as vozes indígenas sejam ouvidas e respeitadas em todas as esferas da sociedade.

No final da nossa prosa…

A Etnomídia e Etnomultimídia Indígena representam marcos importantes na luta pela autonomia e representação dos povos indígenas na mídia. Ao colocar a produção midiática nas mãos das próprias comunidades indígenas, não apenas resistem às narrativas hegemônicas, como as subvertem para a valorização e preservação das culturas, línguas e tradições ancestrais. Através de iniciativas como a Rádio Yandê e o Yby Festival, bem como redes colaborativas como a Rede Wayuri, a etnomídia e etnomultimídia indígena demonstram forças de mobilização e educação, fortalecendo a identidade e a coesão comunitária.

Os desafios para a sustentabilidade e o financiamento são significativos, mas a busca por modelos alternativos e a capacitação de novos comunicadores indígenas prometem um futuro robusto para a etnomídia. Além disso, o apoio de políticas públicas pode garantir que as vozes indígenas sejam amplificadas e respeitadas, contribuindo para uma comunicação mais diversa e inclusiva.

A Etnomídia e a Etnomultimídia Indígena, portanto, não são meios multimidiáticos de resistência, mas percursos de empoderamento e transformação social. Possibilitam aos cidadãos indígenas que não apenas relatem suas próprias histórias, mas como também construam e divulguem suas realidades, as de suas comunidades e povos, fortalecendo a luta por direitos e justiça social. Em um mundo cada vez mais interconectado, poder comunicar e expressar nossos modos de vida, de ser e estar no mundo, honra a nossa diversidade cultural e promove a solidariedade entre os povos indígenas globalmente, assegurando que nossas vozes continuem a serem amplificadas, ouvidas e respeitadas.

Seja um bom ancestral hoje. – Anápuàka Tupinambá Hãhãhãe

Referências

BANIWA, Gersem. Educação escolar indígena no século XXI: encantos e desencantos. 1. ed. Rio de Janeiro: Mórula, Laced, 2019.
CARNEIRO, Raquel Gomes. Etnomultimídia Indígena: configurações de vozes de uma demarcação etnomulticomunicacional cidadã e descolonizadora no Brasil. Tese (doutorado) – Universidade do Vale do Rio dos Sinos, Programa de Pós Graduação em Ciências da Comunicação, São Leopoldo, RS, 2023. Orientador Dr. Alberto Efendy Maldonado Gómez de la Torre e Coorientador: Anàpuáka Muniz Tupinambá Hã Hã Hãe.
FERREIRA, Ricardo Alexino. Etnomidialogia: diversidade e sua interseção com a difusão científica. Trabalho apresentado no GP Comunicação, Ciência, Meio Ambiente e Sociedade, XV Encontro dos Grupos de Pesquisas em Comunicação, evento componente do XXXVIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. 
MARTINS, Leda Maria. Performances do tempo espiralar, poéticas do corpo-tela – 1ª ed. Rio de Janeiro: Cobogó, 2021.

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