Bienal canadense de arte contemporânea indígena: uma edição de afirmação

31 MAI 2020
31 de Maio de 2020

À espera para admirar, em seis lugares montrealenses diferentes, as obras de cerca de cinquenta artistas da 5ª Bienal de arte contemporânea indígena (Biennale d'art contemporaine autochtone, ou BACA), os entusiastas ganharam acesso a uma galeria virtual que demonstra o saber particular dessa edição. Perturbada pela pandemia, a BACA revela um panorama desgrenhado da arte contemporânea indígena canadense marcada por um forte desejo de afirmação.
Autoria de Éric Clément, para La Presse
Tradução de Idjahure Kadiwel, para Yandê

Evening star, morning, 2019 (Estrela da noite, estrela da manhã), Wally Dion (da primeira nação Saulteaux-Yellow), circuitos impressos, pintura automóvel, tubo de aço, 1,19m x 2,41m

Enquanto a grama for verde, enquanto os rios fluírem, enquanto o sol se levantar a leste e se pôr a oeste, a amizade, a paz e uma vida harmoniosa guiarão as relações entre indígenas e não-indígenas.

Tais foram, em suma, os votos da primeira aliança selada, há cerca de 400 anos, entre as nações indígenas da Ilha da Tartaruga (América do Norte) e os representantes do colonizador.

Beaded Amauti (Amauti de miçangas), 2019, Ulivia Uviluk (Inuit), miçanga, pele, 11 cm x 7 cm x 3 cm.

“É nesse espírito que a Bienal de arte contemporânea indígena veio à luz, nosso mais caro desejo é que nasçam amizades para uma melhor compreensão, em um espírito da partilha”, sublinha, no catálogo da 5ª BACA, Rhéal Olivier Lanthier, coproprietário da galeria Art Mûr e fundador da bienal com François St-Jacques.

A pandemia veio sacudir a organização de Honrar nossas afinidades, tema desta 5ª bienal indígena montrealense. É uma pena. Esperamos que o desconfinamento permita, em breve, remediar a penúria dessas circunstâncias, pois o evento é, neste ano, uma real celebração da arte indígena contemporânea canadense inteiramente orquestrada pelos indígenas do Canadá.

a long time ago//mewinzha (há muito tempo atrás), 2018, Dylan Miner (Métis), 704 agulhas de pinheiro em 176 pedaços de fio de cobre, 176 quadrados de pinheiro branco ancestral, cobre, 6 m x 5 m x 3 m. Ao fundo, do mesmo artista, look back at her//ndaabanaabamaa (olhe para trás, para ela), sete cianotipos em algodão com tubos de cobre.

A BACA 2020 preparou como uma mão estendida e com uma orgulhosa necessidade o aceno de seu “indigenismo”, uma identidade política, segundo o crítico e curador métis de Régina David Garneau, que elaborou o evento, com a ajuda da artista Anishinaabe Faye Mullen e o artista rudi aker, da nação Wolastoqiyik.

Três curadores destacados dos pontos de vista artístico e político dão a essa BACA um perfume muito particular, entre a declaração identitária combativa e a afirmação assumida de uma busca de sobrevivência.





Calico & Camouflage: Shane, Avatar activist (Chita & Camuflagem: Shane, Avatar ativista), 2020, Skawennati, impressão digital adesiva, 94 cm x 216 cm. Na placa lê-se “PLUS JAMA!S DE SOEURS VOLÉES”, ou “NUNCA MA!S IRMÃS ROUBADAS”.

“Nos posicionando enquanto praticantes do pensamento indígena ressurgente, e reconhecendo nossa implicação na paisagem cultural que é ligada ao mercado capitalista, nós endossamos a responsabilidade em propor outras formas de honrar o próprio processo de criação”, escreveram Faye Mullen e rudi aker no catálogo.

Os dois curadores condenam, dentre outras coisas, a delimitação de reservas indígenas do “KKKanadá”, a falta de acesso a água potável em certas comunidades indígenas, a brutalidade policial frente aos indígenas e a “crise genocida” que mira as mulheres indígenas. Um tom muito firme, que deixa pouco espaço para nuances.
Detalhe de Skateboarding is Medecine (Andar de skate é medicina)
O evento é ocasião para evocar frustrações e esperar outras relações entre “brancos” e indígenas. O lançamento virtual da exposição, em 23 de abril, fora já muito impressionante para um não-indígena. Com um preâmbulo cerimonial bastante longo, “palavras de agradecimento” foram expressas diretamente por anciãos iroqueses para honrar “as forças que nos dão vida e que assim asseguram nosso futuro”. A terra, os peixes, as raízes, os insetos, as plantas, as frutas, as árvores, o sol etc. Uma cerimônia fundamentada sobre o amor à natureza e à vida.

A BACA 2020 é portanto marcada pelo reconhecimento acerca dos recursos da vida sobre a Terra e da transmissão de saberes, pedra angular da sobrevivência das Primeiras Nações. São abordadas relações intergeracionais, a importância da memória e dos ancestrais, e os laços com nosso ambiente. Os temas mais atuais possíveis.

Cerca de vinte artistas foram convidados a sugerir obras criadas por parentes ou amigos, para que a BACA ofereça, mais que obras de artistas consagrados, criações de artistas desconhecidos que jamais expuseram em Quebec, tais como Lucas Hale (com miçangas sobre skate), Kay Meyer, Corinna Wollf, Graham Paradis, Sharon Rose Kootenay ou ainda Emma Hassencahl-Perley.

Esta última criou uma roupa de sinos como aquelas utilizadas nos pow-wow. Ela é feita de retalhos da Lei sobre os índios, um velho documento federal que regula ainda hoje a vida dos indígenas e que lhes frustra profundamente. Este vestido encontra um eco atual porque, segundo David Garneau, os vestidos de sinos surgiram pelo Canadá à época da pandemia da gripe espanhola, em 1919.

A exposição inclui tanto desenhos, pinturas, esculturas, cerâmicas e obras de pérolas, de peles ou de tecidos como fotografias, instalações e vídeos. Certas obras são menos surpreendentes que outras, enquanto umas seguem o caminho das tradições artísticas indígenas, outras são resolutamente modernas. Por exemplo, as impressões digitais de Jon Corbet (um artista de origem Cree, Métis e Saulteaux) realizadas a partir de um programa de computador que lhe permitiu produzir retratos "perolados", tirados de fotos de membros de sua família. Muitos exemplos feitos com essa técnica particular estão expostos na galeria Art Mûr.
Four Generations (Quatro Gerações) é uma obra de Jon Corbett, artista e programador que atualmente faz doutorado na Universidade da Colômbia Britânica. A obra feita de pérolas digitais tridimensionais está exposta na galeria Art Mûr.
Ou ainda a obra de cores do arco-íris This One Brings Me the Most Pride (Esta Me Traz o Maior Orgulho), da artista Cree das planícies Judy Anderson, criada para honrar seu segundo filho, mas também o orgulho de indígenas biespirituais (Two-Spirit). Seu filho, Cruz, também fez a obra Side by Side 2020 (Lado a Lado 2020) com ela, um par de sacolas expostas na Guilda. Um trabalho simbólico dessa necessidade de honrar as afinidades, que começa com talento inato e se prolonga nos relacionamentos.

Eis um desafio dirigido aos montrealenses não-indígenas, convidados a mergulhar sem preconceitos no coração desse universo paralelo, que tende, nos últimos anos, cada vez mais a se unir ao seu, em direção a um amanhã talvez mais harmonioso.

Após ter sido uma das iniciadoras dessa reconciliação, a Bienal de arte contemporânea indígena de Montreal é hoje tão ilustrativa quanto um de seus vetores.

O pintor e professor Métis David Garneau assegura a curadoria da BACA 2020, assistido por Faye Mullen, artista Anishinaabe (à esquerda), e por rudi aker, artista Wolastoqiyik (ao centro).

Voltar

© 2013 - 2020 YANDÊ - A rádio de todos. Todos os direitos reservados