A terra de águas escondidas desconhecida dos niteroienses

07 MAI 2016
07 de Maio de 2016
Niterói ou Nictheroy, nome que passou por diferentes grafias ao longo do tempo sendo muito difícil recuperar sua etimologia como outros nomes na língua Tupi. Pode ser traduzido como "água que se esconde, porto sinuoso".

É um município do Rio de Janeiro, conhecido por ser a cidade fundada pelo indígena Araribóia do povo Temiminó, como presente dos portugueses por sua aliança ao lutar contra outros povos que faziam parte da Confederação dos Tamoios. Ele foi um herói na visão dos colonizadores, ganhando até uma estatua no centro de Niterói, mas traidor na visão de grande parte dos indígenas, embora fosse comum as disputas de territórios entre diferentes etnias na época. Existem controvérsias de onde veio, alguns historiadores dizem que era de uma ilha na baía de Guanabara outros que seu povo vinha do Espirito Santo. Mas a certeza era sua rivalidade com o povo Tupinambá de quem disputava as terras das quais acabou ganhando. 

Sua estratégia parecia perfeita, adotou um nome cristão, Martim Afonso de Sousa em homenagem ao homônimo que foi um famoso navegador português, virou amigo dos perós "portugueses", recebeu da Coroa Portuguesa a sesmaria que ficou sendo chamada de São Lourenço dos índios, local em que começou a cidade e seu povo acabou dizimado com camisas contaminas por varíola distribuídas. Ele assumiu as terras em 22 de Novembro de 1573. Havia colonos nelas e propriedades. 

O governo decidiu extinguir o aldeamento São Lourenço dos índios em 1866. As famílias e homens solteiros receberam um lote. A terra que o Temiminó conquistou com o sangue de outros povos derramado parecia amaldiçoada pela doença que aqueles que ele acreditava serem seus aliados fizeram questão de espalhar entre os Temiminó. Seus descendentes até hoje permanecem na cidade embora alguns tenham vergonha de sua origem.

Se alguém um dia perguntar, quem foi Araribóia, sabemos que foi uma importante liderança que traiu grande parte do movimento indígena no Rio de Janeiro organizado na Confederação dos Tamoios, era como um grande conselho das lideranças que decidiram se aliar aos franceses. Ele nadou contra a corrente do movimento, ganhou terras dos inimigos e foi traído por seus aliados que o contaminaram junto de seu povo com varíola. Mesmo batizado como cristão, sempre seria visto como um indígena por aqueles que não eram indígenas. 

Seu plano de guerra contra os Tupinambá para ganhar as terras que tanto desejava, não mudou seu destino. Ele entrou para história, porque ela é contada por aqueles que ganharam a guerra e não os que perderam. Talvez esse fosse seu maior desejo, ser lembrado como o vencedor, grande guerreiro, garantir território para os Temiminó, mas não imaginava que como todos seus parentes também seria vítima do extermínio do qual fez parte.

O que aconteceu com os indígenas de Niterói ?

Cada vez que um indígena recebia nome cristão na cidade passava a não ser considerado indígena perdendo direito também a sesmaria ganhada por Araribóia ou seja as terras. Essa foi uma forma de exterminar mais rápido os que permaneceram vivos, os fazendo acreditar que não eram mais indígenas mesmo sendo. Assim seus filhos já nasceriam acreditando não ser indígenas e jamais reivindicando terra. 

A presença indígena foi camuflada pouco a pouco, passaram a trabalhar nas grandes fazendas que foram surgindo. Havia nativos que eram trazidos de outros estados. Generais e famílias tradicionais famosas passaram a ser donas das terras, teve família que doava até para a igreja católica. Conflitos entre indígenas e a policia eram comuns. Existem relatos orais de aldeia na região oceânica até década de 40. Suas histórias foram escondidas como as águas que dão nome ao município. Próximo das praias, as comunidades caiçaras no entorno do município possuem bisnetos, tataranetos e outros familiares com sangue de indígenas Tupinambá, Temiminó e de etnias que também viveram na região. 

Na obra do calvinista Jean de Léry são citadas quatro das aldeias Tupinambá em Niterói: Keriy, onde hoje é o bairro de São Francisco. Akaray que hoje é onde fica o bairro de Icaraí. Morgujá-uasú no centro da cidade. Kurumuré no bairro do Barreto. Nomes indígenas estão espalhado nas ruas e bairros, cada um revela uma informação sobre o local, como por exemplo Itaipu, um local em que a água do mar bate nas pedras e faz barulho. 

Indígenas permaneceram na cidade mas invisíveis pela versão histórica dos portugueses, escondidos com outros nomes, perseguidos durante diferentes gerações por causa da cobiça as suas terras. Tem aqueles que negam a própria origem e os que não são vistos por serem  "caboclos caiçaras".

"Niterói terra de índio" ?

A urbanização modificou bastante Niterói, locais foram aterrados no centro da cidade que mudou em poucos anos. Até apelidada de cidade sorriso foi, expressões como "o outro lado da poça", são usadas por moradores do Rio de Janeiro. No facebook foi criada uma página que tem sido denunciada por preconceito, chamada "Niterói Terra de índio", a imagem é um prefeito pintado como índio genérico e de cocar. Ela mostra os problemas na cidade, o termo índio é empregado de forma pejorativa para dizer que é uma cidade bagunçada. Ora, antes da chegada dos não indígenas, era uma um paraíso tropical, águas limpas e de grande beleza, quando a terra era realmente habitada apenas por indígenas não havia o cenário que é hoje. 

O desconhecimento dos niteroiense mostra que as aulas de história na cidade não parecem abordar detalhes importantes. Como grande parte das cidades brasileiras, suas histórias não são contadas nas escolas ou em livros. É valorizada uma história de conquista do território pelos portugueses e seus aliados, um lado somente, falar em indígenas na região ou sobre eles parece uma realidade distante, sendo até motivo de piada ou de romantismo. Quando passou a ser uma cidade de ''brancos" os males apareceram em terras indígenas. 

A Baía de Guanabara era limpa, não havia esgoto sendo despejado nela por todos os cantos, não havia dezenas de prédios, carros e todas as coisas que existem nos dias atuais. A Ponta da Areia possuía águas transparentes aproximadamente 50 anos atrás, não sujas ou escuras por causa do grande número de navios. Quando chovia não havia os alagamentos pela cidade que ocorrem hoje e casas não caiam nos morros. 

Áreas que deveriam ser de preservação ambiental sofreram e ainda sofrem com a especulação imobiliária. Na década de 70 a lagoa de Itaipu foi aterrada pela Veplan Imobiliária para loteamento, alterando para sempre a região e meio ambiente, pescadores expulsos das áreas consideradas valorizadas e vítimas de perseguições. Até construção em cima de sítios arqueológicos, sambaquis com idade de 5 a 8 mil anos foram feitas.

Em 2008 ocorreu um aldeamento na região oceânica de indígenas Guarani Mbyá, por conta da mobilização em defesa dos sambaquis e meio ambiente, fruto da luta de ambientalistas, indígenas de diferentes etnias e moradores. Causando susto para todos aquele que ignoram ou não sabem nada sobre Niterói embora nascidos nela. O Censo Demográfico 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apontou existência de 655 indígenas no município. 

A ironia com niteroienses se sentiram incomodados pela presença indígena é que era cobrado indevidamente pela Prefeitura de Niterói no IPTU dos moradores, o imposto chamado laudêmio do Índio, como não reconheciam herdeiros de Araribóia, o valor era revertido para o município, somando cerca de R$ 300 mil por ano. Pagavam o imposto até 2005, 604 proprietários de 680 imóveis localizados em ruas do Centro, Bairro de Fátima, São Lourenço, São Domingos e Ingá.

Redação Yandê
Voltar

© 2013 - 2020 YANDÊ - A rádio de todos. Todos os direitos reservados