Universitária Navajo fala o que pensam os não indígenas sobre os nativos norte americanos

17 FEV 2016
17 de Fevereiro de 2016
A indígena Shandiin Herrera fez um desabafo no thetab.com, sobre como é ser uma Navajo e o fato das pessoas acharem que não existem mais indígenas norte americanos nos Estados Unidos. Perguntas e falta de informação sobre sua cultura e realidade são comuns, como por exemplo sobre viver em uma teepees (tenda tradicional) ou não, que no Brasil seria a famosa "oca indígena".

Veja seu texto abaixo:

O que significa ser um Navajo na Universidade Duke

Não tem nada a ver com teepees ou arcos e flechas

Quando as pessoas pensam nos Nativos Americanos eles pensam em teepees, arcos e flechas e guerreiros – mas a maioria das pessoas pensam em “selvagens”.
Eu sou uma Navajo. Acabei de sair da reserva. Meu nome carrega o significado de “raios de sol”, e poucas pessoas sabem mas quando elas chamam meu nome elas estão praticando a língua Navajo.
Qual o significado, se existe algum, de ser um Navajo? Mais especificamente: O que se sente em ser um Navajo em uma faculdade? Eu nunca tinha realmente pensado em quem eu era até a metade do meu primeiro semestre na Duke.

É claro que me faziam perguntas ignorantes: “Você vive em uma teepee? O seu cabelo é de verdade? Todos os Nativo Americanos são bêbados?” E a minha favorita: “É verdade que o governo dá tudo de graça pra vocês?”

As perguntas, que parece estar ficando mais ofensivas, nunca terminam. Você começa a ver minha frustração? Não, meu povo não vive em teepees, nossas casas são chamadas de Hogans. Meu longo cabelo preto simboliza o conhecimento que eu adquiri ao longo da minha vida, e é por isso que ele é tão longo. Alcoolismo é sim um problema, mas nem todos os Nativos são bêbados. E a resposta para a última pergunta é um grande NÃO.

Em um campus lotado dos mais brilhantes estudantes do país uma pessoa pensaria, e mesmo esperaria, um pouco de conhecimento sobre os povos indígenas. Eu escolhi a Duke em razão da diversidade de assuntos em que eu fui submetida (e também sou uma fanática pelo basquetebol da Duke – emocionalmente investido), ainda assim eu soube que eu simplesmente não seria recebida de braços abertos.

Existem os desafios que acordam comigo, que nasceram comigo, que ninguém que não cresceu em uma reserva por se relacionar. Ainda assim eu entendo que eu estou na Duke e eu sou agradecida de ter o privilégio de aprender com professores renomados e me emociono na primeira fila da Cameron enquanto o Grayson Allen voa para outro mergulho super-humano.

Mas eu perco o ar quando percebo que em meio a uma multidão de milhares de pessoas eu sou o única Navajo. Eu estou sozinha. Eu não tenho o privilégio de acordar junto às quatro montanhas sagradas para a minha língua Navajo enquanto Shima (minha mãe) cozinha spam e batatas (um tipo de guloseima Navajo) com o seu famoso pão frito.

Eu não posso dançar ao som da batida do tambor na minha roupa tinida que a Shima costurou a mão. Mas o que realmente machuca é saber que eu não posso ter orgulho de quem eu sou em um ambiente prestigiado como a Duke.

O nome do meu povo Dine reside nos textos, artigos e no contexto histórico. E quando eu ouvi pela primeira vez a referência às pessoas indígenas eu fiquei sentada imaginando quando meu professor ia se lembrar que eu estava na sua sala.

Finalmente ele olhou em minha direção, rapidamente mudando o assunto quando ele se lembrou que eu era uma Navajo e que eu ainda existia. Espantosamente uma comum ideia errada é a de que todas as tribos Nativo Americanas se tornaram extintas – mas aqui estou eu.

Para aqueles que reconhecem a nossa sobrevivência é geralmente apenas para declarar como nós nos tornamos dependentes do governo e preguiçosos embriagados. Este é um estigma que a minha tribo, junto com muitas outras, tem que lidar, o que é realmente triste porque ele cega o resto do mundo de ver a beleza em nossa cultura que eu estimo tão profundamente.

Então de volta a minha pergunta: o que significa ser um Navajo?

Navajo é uma língua que nós salvamos para as nossas crianças. É uma maneira de vida que poucas pessoas tem o privilégio de ter. É uma ancestralidade e paixão imortal por nossa cultura e natureza.
Navajo não é um estigma, é a mais pura forma de existência. Nosso grande líder Manuelito contou ao nosso povo, “Educação é uma escada, diga ao nosso povo para se apropriar dela.”

Naquele tempo ele compreendeu que o mundo estava evoluindo e que nossa maneira de vida teria que mudar para garantir a nossa sobrevivência. Então aqui estou eu, abraçando cada dia dessa confusa jornada e com medo de me perder na imersão da cultura “branca”, mas sabendo que no fundo eu não devo esquecer a resistência do meu povo e nem ignorar os princípios com os quais eu fui criada.
Então quem sou eu? Eu sei que eu sou um estudante tentando desesperadamente ficar aéreo neste louco ambiente chamado universidade. Eu sei que o meu sucesso aqui não é apenas o meu, mas é compartilhado entre o meu povo de volta na reserva. Eu sei que a minha tribo acredita em mim e disse, “nós vamos enviar um dos nossos próprios para aprender com o Biliganas (Homem Branco).”

E eu sei que no final do dia eu represento uma raça tão forte e tão prevalecente que eu tenho o direito de dizer que eu sou uma Navajo. Eu tenho o direito de estar orgulhosa.

Fonte com texto original em inglês e foto: http://thetab.com/us/duke/2016/02/05/mean-navajo-duke-903

Tradução: Jefferson Costa

Redação Yandê

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