Estudantes indígenas da UFSC fazem carta de repúdio contra racismo nas redes sociais

31 JAN 2016
31 de Janeiro de 2016
O curso de Licenciatura Intercultural Indígena do Sul da Mata Atlântica realizado na Universidade Federal de Santa Catarina, sofreu comentários preconceituosos nas redes sociais, por ser um curso destinado aos povos indígenas locais.



CARTA DE REPÚDIO CONTRA RACISMO SOFRIDO POR ESTUDANTES INDÍGENAS NA UFSC

Os estudantes Indígenas da Universidade Federal de Santa Catarina ­ UFSC, em conjunto com lideranças indígenas e apoiadores vem por meio desta tornar público, crime de racismo que vem acontecendo de forma explícita e velada contra os indígenas, tanto por pessoas da comunidade acadêmica em geral como também pela instituição ­ UFSC.

A muito nossa presença enquanto estudantes indígenas nesta instituição, Universidade Federal de Santa Catarina ­ UFSC, tem causado desconforto, os ataques e questionamentos sobre nossa presença são constantes, a exemplo disso o recente caso de racismo em um grupo do facebook denominado UFSC, ocorrido no dia 28/01/2016, comentários carregados de estereótipos, pretensiosos e mal intencionados “choveram” nos ridicularizando. Como esses que seguem, a respeito do curso de licenciatura indígena existente nesta instituição:

“E essa licenciatura aí também serve pra caçar capivara sem ser multado pelo Ibama?”

“onde eles fazem estagio? depenando aves que gostam de melancia?” “Em qual fase aprende a fazer oncinha pra vender no centro?”

“Para preservar o senso de camaradagem e bom humor, deixo aqui umas piadas de indio”: “AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAUHEUAHEUHAEUHEUHUEA HUEHUEAHUEAH CARALHO MANO EU RI DEMAIS COM ESSA PORRA”.

A despeito disso viemos refutar qualquer afirmação estereotipada e generalista que fora proferida.

O post que foi publicado no grupo UFSC é tendencioso e incita o ódio e racismo contra os indígenas. Crime previsto no Art.286 do Código Penal ­ Decreto Lei 2848/40. O mesmo post questiona a exitência de um curso específico (Licenciatura Intercultural Indígena do Sul da Mata Atlântica) que atende as três etnias do estado: Xokleng, Guarani e Kaingang ( que na primeira turma contou com acadêmicos provenientes dos estados de Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Sul, Espírito Santo, Rio de Janeiro e de Santa Catarina), e por “discriminar” e “excluir” os não índios, além de outras etnias. A exemplo, um estudante do curso de medicina e membro discente do Conselheiro Universitário CUn ­ Entidade máxima representativa da UFSC, afirma ter acompanhado o processo de criação do curso de licenciatura indígena, entretanto o mesmo posta o seguinte comentário:

“ A minha dúvida aqui é se é constitucional garantir que um curso ou parcela deste seja garantido a apenas uma etnia específica dentro de uma seleção em universidade pública de ensino?”.

Esse comentário do estudante conselheiro levou os outros estudantes da UFSC a questionar sobre a legalidade do curso e ainda proferirem mais discurso de ódio contra nós. Um deles chegou a dizer que somos arrogantes e violentos e que não temos discurso racional.

É bom frisar que racismo reverso não existe - racismo se refere a uma omissão de direitos e a uma série de privilégios históricos, do qual não possuímos. Sem nenhum interesse no conteúdo do curso a noticia fora plantada de forma sensacionalista, com intuito de criar a discórdia e colocar estudantes uns contra os outros, confundindo o direito de liberdade de expressão com incitação ao ódio, de maneira velada e a tom de piada foi se propagando, o racismo já naturalizado em suas cabeças colocou de forma incongruente o agressor como vitima, causando ainda mais revolta.

Nenhum discurso de cunho racista, preconceituoso e estereotipado será tolerado, nós hoje, somamos cerca de 17 estudantes nos mais diversos cursos e áreas do conhecimento, contando também com 4 em pós graduação. Esse ano de 2016 a UFSC terá mais 19 alunos em cursos de graduação regulares, três em pós graduação, além de uma nova turma de Licenciatura Intercultural Indígena do Sul da Mata Atlântica, estamos ocupando nossos espaços por direito, uma conquista que à muito tempo temos lutado.

A UFSC por outro lado se omite diante de nossas demandas, segundo a LEI Nº 12.711, DE 29 DE AGOSTO DE 2012. a lei de cotas, é dado uma parcela mínima de vagas à indigenas, além de 22 vagas suplementares. O Artigo 231 da Constituição Federal de 1988 reconhece aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições. Não há equidade e respeito a direitos constitucionais quando somos submetido a tratamentos desrespeitosos, a falta de empatia da própria universidade que, de forma indireta através de burocracias dificulta nossa entrada e permanência na instituição, um exemplo claro disso é sete anos de políticas de ações afirmativas e nenhum indígena formado em um curso de graduação regular, institucionalizando o racismo e sendo conivente com tais atos. Essas ações de dificultar nossas vidas acontece desde preencher formulários extremamente burocráticos ONLINE (lembrando que a maior parte das terras indígenas não possui internet a disposição), deslocamento (como o caso dos Xokleng, etnia do Estado, que tem que percorrer cerca de 70 km até o local de prova mais próximo) provas que não estão de acordo com as vivências indígenas, a escolha de uma terceira língua (inglês ou espanhol), notas de corte absurdas como o ocorrido de 2015, primeira etapa de matricula do curso online. Munidos de pilhas de documentos e sem dinheiro nem para o lanche durante o percurso de deslocamento para a segunda etapa da matrícula, seguem sem a garantia de que terão uma casa para morar, visto que mesmo aderindo ao programa de bolsa permanência não há a certeza de recebimento por pelo menos três meses após efetuado cadastro, o fato de nossos familiares não terem remuneração também agrava a questão, não há como alugar uma casa sem possuir ao menos dois aluguéis em mãos, ou ainda um fiador que aceite tais condições de não recebimento até que a bolsa seja paga.

Os novos calouros desse ano, sem mesmo efetuar a matricula presencial já sentem na pele o que está por vir, a busca por uma ferramenta que possibilite um melhor atendimento ao nosso povo tem um alto preço, mais caro que os aluguéis de miseras kitnetes, de todos os futuros xerox, livros, jalecos, materiais e de toda a saudade que vamos sentir de nosso povo, o preço é nosso sangue, podemos afirmar com certeza que o tempo dos bugreiros não passou, eles ainda tentam nos matar, dessa vez com papéis, canetas, leis e burocracias, mas nós somos fortes, somos guerreiros, o pedido de nossos ancestrais de registrar e não deixar morrer nossa cultura e conhecimento será cumprido, pois não foi só um pedido, foi uma visão.

As devidas providências que cabem ao ocorrido estão sendo tomadas, isso não vai acabar em branco.

A UFSC vai ser indígena!

Florianópolis ­ SC 30 de janeiro de 2016.





Redação Yandê
Voltar

© 2013 - 2021 YANDÊ - A rádio de todos. A 1ª EtnoMídia Indigena do Brasil - Todos os direitos reservados.