Oi Futuro Flamengo apresenta "O Papagaio de Humboldt",  mostra que resgata idiomas indígenas

29 JAN 2015
29 de Janeiro de 2015
As instalações sonoras de 15 artistas da América Latina que compõem a mostra resgatam idiomas indígenas em risco de extinção.
"O Papagaio de Humboldt” se inspira no mito do papagaio que o explorador e naturalista alemão Alexander von Humboldt adquiriu da tribo indígena caribe, em plena selva do Orinoco, em uma das inúmeras viagens que o levaram a países como Venezuela, Colômbia, Equador, Peru, Cuba e México, entre 1799 e 1804.

Divulgação
Humboldt percebeu que o papagaio não falava a língua da tribo que visitava, mas a língua da tribo exterminada, os maipuré. Na verdade, o papagaio era o único falante vivo dessa língua que levava o mesmo nome da tribo extinta. Vale lembrar que Humboldt está um pouco presente na literatura brasileira por causa do papagaio do Macunaíma – aquele papagaio que fala no fim do livro, o único que conhece a língua da tribo.

Assim como preservar a biodiversidade de uma nação, conservar a sua diversidade linguística é de suma importância no Brasil, País onde 85% das línguas que eram faladas em meados de 1500 estão praticamente extintas hoje. Para exibir e resguardar esse patrimônio, a instalação sonora inédita “Papagaio de Humboldt” entrará em cartaz a partir do dia 2 de fevereiro nos três andares do Oi Futuro Flamengo, localizado no Rio de Janeiro. “A exposição surge para abordar e revisitar línguas em extinção não só no Brasil, mas na América Latina”, coloca o curador da mostra, o linguista alemão Alfons Hug.

A ideia da exposição nasceu a partir da observação de Hug – diretor do Instituto Goethe – acerca do alto grau de extinção das línguas indígenas da América Latina – que tem mais de 600 idiomas ao todo. Por conta de muitas línguas terem surgido com os povos indígenas, o curador solicitou que 18 artistas das mais variadas origens se espalhassem e coletassem as vozes indígenas, em países como Brasil, Uruguai, Argentina, Chile, Bolívia, Peru, Venezuela, Paraguai, Colômbia, Equador, Guatemala, Costa Rica, Nicarágua e Panamá.

“Os artistas puderam escolher a tribo e o idioma que quisessem. No caso do Chile, por exemplo, a última pessoa a vivenciar o idioma yámana é uma senhora de quase 80 anos, onde o artista foi lá e gravou a voz dela. A maior parte deles foi a campo e a outra coletou a partir de alguns arquivos históricos. Lugares como a Argentina e a Patagônia já tem línguas extintas”, pondera ele.

Processo

A intervenção sonora se distribuirá das dependências da Oi Futuro com cada artista portando em sua frente uma caixa de som. Cerca de 550 idiomas em extinção serão escritos nas paredes. “Mas, além do efeito visual, o principal é o efeito sonoro”, coloca Alfons, explicando o porquê de tantas línguas e formas de expressão “desaparecerem” com o tempo.

“Alguns desses grupos étnicos eram muito pequenos. Inclusive no Brasil, e principalmente na Amazônia há muitas tribos isoladas, com poucas pessoas por grupos étnicos. Esses vivem o perigo de perder o próprio idioma, por conta do contato com o exterior. Alguns dos grupos étnicos são vulneráveis ao contato com a civilização”, justifica o diretor do Instituto Goethe.

Raízes

Por sua vez, há ainda idiomas bem-sucedidos, como o guarani e o aymara, que ainda tem diversos falantes em alguns países da América do Sul. E mesmo com a complexidade do português brasileiro e com a transposição da linguagem para gírias e outros termos de expressão, Alfons destaca que o Brasil é um exemplo positivo de preservação, por conta das diversas terras indígenas que cultivam a sua cultura linguística. “Na América Central a situação é mais crítica. Há poucos remanescentes”, destaca ele.

Para o curador, deveria haver uma mudança de perspectiva um pouco mais voltada para a presença humana, e não apenas para a biodiversidade. “Muitas vezes se fala da biodiversidade, da extinção de espécies ou de plantas. A mesma extinção dos idiomas com as mesmas tribos é muito mais grave. Para mim, as escolas têm falhado no processo de disseminação do interesse por essas línguas. Se fala da Amazônia, por exemplo, de sua biodiversidade, mas pouco se fala da diversidade linguística, que para mim tem valor maior”, assegura. Após sua estreia, a mostra “Papagaio de Humboldt” deve passar ainda por São Paulo, Quito (Equador), Nova York (EUA), e mais duas cidades da Alemanha. (ACritica | Laynna Feitoza)

Artistas:
Brasil: Adriana Barreto, Paulo Nazareth – Uruguai: Gustavo Tabares – Argentina: Sofia Medici & Laura Kalauz – Chile: Rainer Krause – Bolívia: Sonia Falcone & José Laura Yapita – Peru: José Huamán Turpo – Venezuela: Muu Blanco – Paraguai: Javier López / Erika Meza – Colômbia: Oswaldo Maciá – Equador: Fabiano Kueva – Guatemala: Sandra Monterroso – Costa Rica: Priscilla Monge – Nicarágua: Raul Quintanilla – Panamá: Orgun Wagua

Curadoria: Alfons Hugh
Idealização: Instituto Goethe

Serviço:
De 3 de fevereiro a 29 de março | Níveis 2, 4 e 5 e Vitrais
Terça a domingo, 11h às 20h
Entrada franca | Classificação etária: livre
Endereço: Rua Dois de Dezembro, 63 - Flamengo, Rio de Janeiro, RJ CEP: 22220-040
Data: De 03/02/2015 até 29/03/2015.


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