Roda de Conversa na Aldeia

16 MAR 2015
16 de Março de 2015
O Pajé inicia uma conversa...

Era uma vez, uma Terra sem males, certo dia apareceu de lugares distantes um povo, que ao chegar nesse local, viu o quanto de riquezas naturais ali se encontrava, enchendo os olhos de ambição e ganância, mas logo perceberam que não era uma terra sem ninguém, que viviam seres semelhantes, apesar de falarem outra língua e de se vestiram de outro jeito.

Trataram logo de encontrar estratégias para suborná-los, ofertando-os de mimos, que traziam consigo, os dias foram passando e logo viram que existiam outros que não aceitaram de bom grado e se sentiram invadidos, daí começou uma matança desmedida, transformando em o maior genocídio jamais visto, tomaram-lhes tudo, impuseram suas leis e sua cultura.

Alguém o interrompe e questiona - E o que foi feito a partir daí?

- Exploração, Espoliação e Esbulho, tudo isso dentro de um formato de suas leis, que se os habitantes originários utilizar das mesmas práticas, imputam-lhes processos criminais. Sabe aquele adágio popular que diz: “O dono do cavalo não tem direito a garupa”? Assim ficou...

- Dividiram em espaços e deram o nome de capitanias, foram implantando novas formas de divisões, criando cidades, estados e um país, vieram pessoas do mundo inteiro, umas trazidas a força e outras com a promessa de que estariam indo para um lugar onde tudo que se plantava, tudo dava, uma promessa de vida próspera.

Mais uma interrupção e questionamento – Onde foi isso, o que restou desse ambiente hostil e quanto aos seus habitantes originários, morreram todos?

- Muitos conseguiram fugir, outros foram cooptados para servir em regime de escravidão sem direito a mostrar o rosto e a voz.

- Aqui onde vivemos, estou contando-lhes uma pequena parte da verdadeira história do Brasil, aqui foi palco e ainda é de todos os tipos de violação dos direitos humanos que nós povos originários sofremos, um choque cultural desmedido, práticas intermináveis de etnocídio, a fim de perdermos por completo nossas referências culturais e sermos identificados como cidadãos comuns inseridos na sociedade por eles imposta.

- se observarmos mais atentamente para educação, a saúde, projetos desenvolvidos em nossas comunidades, e a presença de várias religiões ocidentais, convertendo-nos, perceberão que são estratégias sutis, e muito mais perigosas, que arma de fogo, com a finalidade de exterminar o que ainda nos resta da nossa cultura que resiste há séculos, sem falarmos dos meios de comunicação, como TV e rádio, que nós mesmos adquirimos e levamos para dentro das nossas moradias, e apontamos diuturnamente para nossas cabeças, e não percebemos que são instrumentos de alienação e dominação.
Por hoje, chega é hora de descansar o corpo e o espírito, e de refletirmos sobre o que foi dito. Um povo sem cultura sempre será guiado, é como uma terra nua sem produzir alimentos, e sem vida própria.


Yakuy Tupinambá
Educadora e militante do movimento indígena Tupinambá. Autora de vários textos, publicados, entre outros, nas coletâneas Índios na visão dos índios, na rede indiosonline e em Indiografie (Costa &Nolan/Itália). Técnica em economia doméstica, cursou alguns períodos de Direito na Universidade Federal da Bahia – UFBA.  
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