Mulheres Indígenas no baixo Tapajós transformando suas realidades

16 NOV 2018
16 de Novembro de 2018
Dois barcos, com cerca de 110 pessoas entre indígenas, não indígenas, homens, mulheres e crianças, saíram rumo ao Território Indígena Cobra Grande, pelas margens dos rios Tapajós e Arapiuns, região de Santarém.
Foto: Israel Campos


Por Coletivo de Mulheres Indígenas Suraras do Tapajós
@surarasdotapajos 

Nos dias 02 a 04 de novembro aconteceu a Caravana das Encantadas, o I Encontro de Acolhimento, Cura e Empoderamento de Mulheres Indígenas no baixo Tapajós. Dois barcos, com cerca de 110 pessoas entre indígenas, não indígenas, homens, mulheres e crianças, saíram rumo ao Território Indígena Cobra Grande, pelas margens dos rios Tapajós e Arapiuns, região de Santarém. O intuito foi promover e fortalecer o protagonismo, a liderança e os direitos das mulheres indígenas, as estratégias de combate à violência e racismo e intensificar a luta indígena, que tem seus territórios ameaçados pelo modelo de desenvolvimento predador, que afeta principalmente as mulheres. A iniciativa e realização foi do coletivo de mulheres indígenas Suraras do Tapajós, com financiamento do Fundo ELAS e Instituto Avon pelo fim das violências contra as mulheres, parceria do Engajamundo, ICMBio, PSA e Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai).

Com o tema “Mulheres indígenas transformando suas realidades!”, reuniu-se a plurietnicidade das mulheres indígenas, tanto da cidade como das aldeias do baixo Tapajós, entre lideranças, mães, militantes, cacicas, parteiras, pajés, benzedeiras e universitárias, que marcaram presença e vivenciaram três dias intensos juntamente aos parentes Tapajó que já estavam na espera da caravana, percorrendo nas areias da Ponta do Toronó, navegando sobre as águas cristalinas do Arapiuns e adentrando as belas praias do solo sagrado do T. I. Cobra Grande.

Com o principal objetivo de desabrochar a própria mulher à sua autonomia perante a realidade vivida, foram apresentados meios para desenvolvimento de atividades direcionadas a esse público em situação de fragilidade e violência familiar. Foi um momento de abrir espaço para mais mulheres que desconhecem o tema e as formas de defesa e enfrentamento, especialmente em momentos de vulnerabilidade causados pela violência.

Diante da realidade, onde as violências vividas são cometidas pelos próprios parceiros, pelo Estado e sociedade em geral, a maioria desses atos está relacionada à baixa auto estima, falta de consciência das violências a qual são submetidas e à falta de autonomia financeira. Ao longo de 2018, as mulheres do coletivo Suraras do Tapajós debateram e buscaram espaços para o enfrentamento ao racismo e combate às violências moral, psicológica, física e sexual, visando o fortalecimento psicológico e financeiro da mulher indígena. Assim, diferenciando e ressaltando que é importante haver respeito à cultura e hierarquia existente em alguns povos indígenas, mas sem perder o discernimento de distinguir o que é tradição e o que é cultura de violência e abuso.

Acolher, combater a violência, curar e proporcionar autonomia e bem estar.

Envolvendo trocas de experiências, café da manhã na praia, uma maravilhosa pirakaia ( peixe assado na praia), momentos de interação cultural, diálogos, possibilitando a construção de alternativas de combate às violências sofridas para além da área urbana. Como, por exemplo, com a finalização da formação de mulheres indígenas multiplicadoras na luta, prevenção, enfrentamento ao racismo e as violências, que habitam as aldeias mais distantes. Na parte de auto estima do corpo e saúde da mulher, tiveram espaços de embelezamento, maquiagem indígena, sobrancelhas, massagens, limpeza de pele, grafismo corporal. Da medicina natural, banhos com ervas de cura, garrafadas para saúde da mulher, pomadas e xaropes de remédios caseiros. Da valorização cultural indígena, oficinas de grafismo em cuias e cerâmica. Para o empoderamento financeiro das mulheres as oficinas de economia solidária e empreendedorismo. Com as crianças foram desenvolvidas atividades interativas e com temáticas de igualdade de genero e de combate a violencia contra mulher, além da doação do livro “Templo da Luz” – da trilogia Guerreiros da Amazônia (Ronaldo Barcelos).

Tiveram presentes cerca de 300 participantes, grande atuação dos homens ajudando em toda logística e no preparo dos alimentos na cozinha.

Pelo direito de viver!

No final do dia todos participantes se juntaram na bela ponta de areia da Aldeia Lago da Praia em um lindo ato de resistência para defender os direitos dos povos e denunciar tudo que lhe afetam:

AMAZÔNIA e sua diversidade de povos, seguem em RESISTÊNCIA!
EM LUTA, nas margens dos Rios Tapajós e Arapiuns.

O Brasil vive um dos momentos mais difíceis da sua história, com legitimação de discursos e atos violentos, de ameaças, tortura, discriminação, desmatamento e armas.

Encontrar o amor, o acolhimento, a alegria e, sobretudo a força entre mulheres indígenas, é um fio de esperança em meio a esse caos.

CONTINUEMOS EM UNIÃO COM A FORÇA DE NOSSOS ESPÍRITOS GUARDIÕES NA CORAGEM E PERSISTÊNCIA!

EM LUTA
Pela demarcação das terras indígenas;
Pela equidade de gênero e igualdade de direitos entre homens e mulheres;
Pelo Ministério do Meio Ambiente;
Pela entrada e permanência dos povos indígenas nas universidades;
Pelo atendimento gratuito a mulheres vítimas de violência;
Pelo fortalecimento do Ibama, ICMBio, FUNAI;
Pelos ativistas que NÃO SÃO CRIMINOSOS;
Pela ampliação e manutenção dos direitos trabalhistas;
Pela permanência do Brasil no acordo com Paris;
Pela liberdade de expressão, etnocultural, religiosa, racial e de gênero;
Pelo direito à vida;
Pela educação livre;
Pelo direito de AMAR a quem quiser;

PELA AMAZÔNIA!!!

Surara! Sawê!

- Coletivo de Mulheres Indígenas Suraras do Tapajós

O coletivo Suraras do Tapajós é um coletivo de mulheres indígenas, sem fins lucrativos, que atua no baixo Tapajós com a missão de combater a violência e racismo, e no empoderamento econômico e político de mulheres indígenas desse território. Atualmente é formado por um grupo de aproximadamente 30 mulheres de diferentes povos, jovens, solteiras, curandeiras, estudantes, mães, militantes e ativistas, que carregam no sangue a forte plurietinicidade da região. São exímias artesãs, fabricam biojóias com penas, miçangas e sementes da região, grafismo corporal com genipapo e urucum e artesanatos (arco e flecha, cerâmicas, grafismo em cuias, maracás), doces, cantorias, rituais de purificação, garrafadas e banho de ervas (medicinais). “Estamos mais vivas do que nunca. Estamos mais fortes e mais unidas. Estamos em luta por todos os direitos de nosso povo e de todos aqueles que lutam conosco!” Maria Eulalia Borari, integrante do coletivo.









Foto 1 de Milena Raquel 

Imagem 2 do FotoAtivismo

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