Parentes de Davi Gavião, assassinado no Maranhão, clamam por justiça  

24 OUT 2018
24 de Outubro de 2018
Parentes no enterro de Davi Gavião (Foto: Erisvan Guajajara/Amazônia Real)
No dia 13 de outubro, dois homens atiraram cinco vezes contra o indígena, que estava dormindo na rua, no centro de Amarante  (Na foto, o túmulo de Davi Gavião, na Aldeia Rubiácea/Erisvan Guajajara/Amazônia Real)

Por Erisvan Guajajara, especial para a Amazônia Real

A população brasileira está passando por um momento trágico do nosso país. A todo instante, pessoas pregam ódio e violência, que acabam causando morte de algum cidadão. E para os povos originários, o resultado ainda é pior: parentes estão sendo assassinados na surdina em diversas regiões do Brasil. Além de golpes, retrocessos e retiradas de direitos, estamos vivenciando um grande aumento no número de assassinatos de lideranças indígenas no País. O relatório “Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil” de 2017, publicado anualmente pelo Conselho Indigenista Missionário (CIMI), entidade vinculada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), identificou um aumento em 14 dos 19 tipos de violência sistematizados. E a apropriação das terras indígenas é um dos principais vetores dessas ações.

Davi Mulato Gavião, da Aldeia Rubiácea, localizada na Terra Indígena Governador, no município de Amarante, estado do Maranhão, é mais uma vítima do ódio e discriminação que recai sobre nossos parentes. Na madrugada do último dia 13 de outubro, Davi foi assassinado com cinco tiros enquanto dormia na praça do mercado no centro de Amarante, a três quilômetros de sua aldeia. Relatos dão conta de que dois homens estavam em uma moto. Eles pararam próximo onde Davi estava deitado. Um deles desceu e efetuou os disparos, tirando a vida do parente.

Davi foi morto com cinco tiros. O crime aconteceu entre três e quatro horas da madrugada. Joaquim Gavião é tio de Davi. Ele disse que o corpo do sobrinho ficou até às 12 horas do dia seguinte no local do crime, esperando pela presença de alguma autoridade que viesse tomar as medidas cabíveis. Devido a tanta espera, quando os policiais chegaram ao local, Joaquim se recusou a levar o corpo para o IML, pois a viatura ainda viria de Imperatriz (a 110 quilômetros de Amarante).

“Ao chegar no local onde meu sobrinho foi assassinado, senti uma dor horrível por dentro ao ver ele jogado no chão pegando sol na cara. Fui até o mercado mais próximo, comprei um lençol e joguei por cima, cobrindo ele. Fiquei imaginando quem podia ter feito aquilo com meu sobrinho. Ele era especial. Não podia morrer dessa forma. Quando os policiais chegaram, falaram que já tinham ligado para o IML de Imperatriz e que já estavam se preparando para vir. Eu disse que não ia esperar. Já estava muito mal vendo meu sobrinho ali jogado no chão, naquele sol escaldante. Falei que ia levar o corpo pra aldeia. Íamos enterrar ele de acordo com nossa cultura. Eles pegaram meus dados e assim ficou combinado. Fomos atrás da funerária, resolvemos as burocracias e levei ele pra aldeia”, afirmou Joaquim.


Davi era especial. Tinha problemas mentais e tomava remédios controlados. Sempre vivia andando pelas ruas de Amarante. Era calmo e tranquilo. Pedia comida quando sentia fome, mas voltava para aldeia. Amarante tem sido palco de violência contra os povos indígenas que moram nas redondezas.

A morte de Davi foi mais uma prova da discriminação que os indígenas enfrentam na cidade. Guaraci Mendes da Silva, Coordenador Regional Substituto do Maranhão da Fundação Nacional do Índio (Funai), que acompanhou o caso, relata a negligência das autoridades:

“Foi revoltante como o acontecimento foi tratado pelas autoridades. Não havia nenhum membro da polícia para prestar ocorrência no momento do ocorrido. Quando fui informado do assassinato, me direcionei para Amarante para apurar o real motivo dessa barbárie. Chegando em Amarante, enquanto (representante da) Funai, procurei a Polícia Civil e a Polícia Militar para saber mais informações do ocorrido. Qual não foi a surpresa ao descobrir que até então não tinha sido lavrado BO sequer porque simplesmente não tinha um servidor na delegacia da cidade. O Delegado estava de folga em Teresina e os servidores não estavam em seu local de trabalho e só vieram aparecer horas depois do assassinato. Já na Companhia da PM, pedi para ler o registro do atendimento, que é o Boletim de Ocorrência, e não tinham feito, não estava nem no sistema. Questionando a guarnição sobre o corpo, me disseram ‘os índios já levaram’. Fiquei estarrecido. Como deixaram isso sem ter feito o laudo do IML? Mais tarde descobri que se tivessem esperado o IML, estariam lá até hoje”.

O clima de medo e de indignação toma conta dos povos que vivem na região de Amarante. Outras mortes de indígenas já ganharam destaque no mundo. E o poder público falha em não dar nenhum retorno para os indígenas. Como no caso do jovem indígena Candide Zaraky Tenetehar Guajajara, 22 anos, que foi atropelado e morto por um caminhão madeireiro em 2016. O fato é muito suspeito.

No dia 12 de agosto deste ano, o corpo do cacique Jorginho Guajajara, 55 anos, foi encontrado no Rio Zutiwa, na cidade de Arame, revoltando lideranças nacionais e internacionais. Os parentes dizem que ele foi assassinado. Já a polícia aponta afogamento como causa da morte. É mais uma investigação sem interesse do poder público para descobrir a verdade.

Ainda no Maranhão, as aldeias próximas a Amarante enfrentam um alto número de invasões de madeireiros, que exploram suas riquezas naturais e destroem suas florestas e acabam com o pouco verde que ainda predomina em suas terras.

Sobre o assassinato de Davi Gavião, a Polícia Civil afirmou que está apurando a ocorrência e que, em breve, terá respostas sobre o caso e o crime não ficará impune. As investigações seguem em sigilo. Para o escrivão João Batista, as investigações estão sendo feitas a fundo. “Estamos nas investigações. Já existem alguns elementos importantes para solucionar o caso. Estamos a todo vapor. O nosso quadro de pessoas na delegacia é precário, mas vamos dar prioridade para esse caso, pela crueldade que foi esse crime. Já encaminhamos o relatório para São Luís e Brasília, estamos dialogando com (a Secretaria de) Direitos Humanos e esperamos em breve solucionar esse caso e dar retorno para os parentes”, disse ele.

Thayane Tavares, da Assessoria Especial de Assuntos Indígenas da Secretaria dos Direitos Humanos do Estado do Maranhão, disse que o órgão está dialogando com a Segurança Pública de Amarante para buscar soluções que diminuam o índice de violência na cidade. “Estamos articulando para juntos buscarmos mais segurança para os povos indígenas que vivem nas proximidades. Cobrar mais atenção e proteção aos indígenas que frequentam a cidade e acabar com essa violência. Vamos dar total atenção para solucionar o caso da morte de Davi. Vamos cobrar a solução do caso o mais rápido possível”, afirma ela.

 
Tempos de ameaça e incitação ao ódio

Em tempos de incitação ao ódio, a intolerância se sobrepõe. Tudo indica que a morte de Davi foi motivada pela onda fascista que está espalhada pelo nosso país. A liderança indígena Sonia Guajajara, que é da região de Amarante e foi candidata vice-Presidência da República pelo PSOL, alerta que é preciso muita cautela ao andar pelas ruas da cidade.

“Entre tantos atos de violência nos últimos dias, os assassinatos dos povos indígenas seguem invisíveis e banalizados. Amarante do Maranhão é o meu município de origem e vem sendo conhecido nacionalmente como um dos municípios mais violentos contra os indígenas por estar marcado por essa onda de violência e assassinatos de indígenas que nunca são explicados. Basta os indígenas estarem na cidade para já estarem sujeitos a serem mortos. Dessa vez foi Davi Mulato Gavião, assassinado covardemente com cinco tiros enquanto dormia”, ressalta Sônia.

A Coordenação Regional da Funai no Maranhão acompanha o caso e as investigações sobre a morte de Davi Gavião e disse que está cobrando às autoridades por essa e por outras mortes de indígenas, que estão sem resposta até o momento.

O assassinato de Davi ficará impune? Davi está presente e clamamos por justiça!


*Erisvan Guajajara é jornalista formado pela Universidade Federal do Maranhão. Indígena da etnia Guajajara, ele faz parte da Comissão Nacional de Juventude Indígena (CNJI). É membro da Mídia Índia e ativista na defesa dos direitos dos povos indígenas.

 

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