Eles não podem parar a chuva

23 OUT 2018
23 de Outubro de 2018
Foto: Divulgação - ANARCI

Foto: Instituto Manoa

Por  Renata Tupinambá

Rádio Yandê

O ritmo das Eleições 2018 no Brasil ameaça as Terras Indígenas, povos originários,  aumenta a violência e crimes de ódio por todo país. A intolerância ganha força nas ruas, exacerbada pelo discurso daqueles que defendem um falso progresso ao país.

Aqui fora tudo está molhado, dentro da gente a terra fica seca, nossa garganta parece cortada e por algum motivo não conseguimos mais fechar nossos olhos. Querem que acreditemos em um progresso que apenas destrói a vida e impede as sociedades de prosperar, separando pessoas por classes  e dizendo que alguns são mais importantes que outros. Dividem as pessoas, movimentos, grupos e os fazem inimigos na ilusão de que vencedores são os que estão em ascensão, ficando acima de outros como superiores. Essa perspectiva vertical adoece nossas relações com o mundo e as pessoas. É como praga que se alastra em diferentes lugares e traz desunião, existe para dividir.

Querem que acreditemos em uma falsa autonomia de quem está preso a acordos políticos e a patrocínios de empresas, bancada ruralista, corporações internacionais, todos responsáveis por desmatamento e destruição de territórios, cujo único objetivo é o lucro próprio de seus donos, não do povo. 

Para aqueles que enriquecem da exploração, valemos menos que o gado, soja, mineração, petróleo, somos o inimigo, aquilo que precisa ser eliminado para que outros possam enriquecer ao custo de nossas vidas. São anhanguera que pode ser traduzido como um espírito ruim e ceifadores que trazem a morte, se alimentam do sangue. Não se enganem, anhanguera é velho, enfrentamos com diferentes nomes. Como os bandeirantes e tantos outros que vieram antes, em 518 anos passamos por tudo, ainda estamos sob os cabrestos do Brasil colônia. Nunca aprendem que não se controla a natureza.

Querem que acreditemos que devemos ser como todos os outros, assim eliminam nossa diferença, negam a pluralidade e impõem modelos políticos de governo, saúde e educação que não representam nossas realidades. 

Querem que acreditemos que vencer é abandonar nossas raízes e tradições.

Querem que acreditemos que não podemos ser tradicionais e contemporâneos ao mesmo tempo.

Querem que sejamos dependentes de todas as formas, pois sabem que a força da comunidade é ser autossustentável. A força de nosso bem viver é ameaça para governos e poderes que vivem da dependência do povo em todo o mundo. Controlar é tudo que desejam para manter suas posições de poder. Apenas quem possui poder econômico é favorecido. 

Querem que acreditemos que nossa cultura e ciência ancestral é atraso ao progresso, mas ela é solução e evolução. O saber de nossos antigos é milenar e conhece a força da natureza.

Vocês conseguem parar o vento ? 

Conseguem impedir as águas  ?   

Conseguem controlar tremores de terra ? 

Não. Vocês não podem parar a tempestade. Essa sabedoria foi deixada pelos nossos ancestrais para aqueles capazes de realmente sentir e respeitar os dons da terra. O tempo corre como o vento do início de uma grande tempestade. Nossas avós disseram que eles não podem parar a chuva. 

"Todo ser humano é uma gota de chuva. E quando as gotas de chuva se tornam claras e coerentes, elas se tornam o poder da tempestade." 
John Trudell, da etnia Santee Dakota-American.

Quando o céu está em queda, todos são gotas de chuva. 

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