Os Magníficos Korubo: um estúdio de Sebastião Salgado na selva amazônica

19 JAN 2018
19 de Janeiro de 2018
FOTO - Intercâmbio entre Matis e Korubo: Binan Chapu Chunu Matis (a esquerda de bermuda laranja) e Tumi Branco Matis, no meio com um caco de panela nas mãos (Vitor Goes/Acervo CGIIRC/Funai/2014)


Por Barbara Arisi

O Vale do Javari sempre atraiu câmeras de documentaristas. A beleza dos índios que vivem nesta floresta alta é irresistível. Como aprendi com Txema Matis, é de tal exuberância essa beleza que pode mesmo matar um incauto, se algum índio se descuidar e se exibir em todo seu esplendor. As fotografias feitas por Sebastião Salgado, publicadas pela Folha de S. Paulo,  mostram a beleza e a força dos Korubo em um estúdio montado com um fundo infinito em meio às magníficas sumaúmas, pau-mulateiros, seringueiras e tantas outras árvores. Com suas bordunas a postos, algumas vezes vestidos com os chapéus feitos de folha de palmeira e desenhados com urucum, exibem seus olhares desafiantes e penetrantes.


As fotos são fortes, como os Korubo e como outras imagens anteriores de Salgado. Porém, há um essencialismo e uma romantização de um olhar não-indígena sobre o outro que pertence a uma genealogia imagética totalmente colonial.

Conheci os Korubo em 2003 ao trabalhar como tradutora de um jornalista neozelandês que acabou por publicar um artigo que considerei bem sensacionalista. Os indigenistas que conviveram com ele também ficaram muito chateados com o que saiu impresso. Fiquei contente ao saber que o mesmo neozelandês foi processado anos depois pela Funai pela forma preconceituosa com que tratou os Suruwaha em outra reportagem.

O sertanista Sydney Possuelo havia organizado o que o Departamento de Índios Isolados (assim chamado à época) considerava uma expedição de “contato” com essa parcela do povo Korubo em 1996, pois eles moravam próximo ao local onde o governo planejava construir a Base da atual Frente de Proteção Etno-Ambiental do Vale do Javari (FPEVJ), da Funai, no estado do Amazonas. Esse primeiro encontro foi registrado pelo olhar e talento do fotojornalista Ricardo Beliel, em imagens que circularam por todo o mundo e foram finalistas ao Prêmio Esso de Fotografia, no Brasil.

A Terra Indígena fora demarcada em 2000 e homologada em 2001. Como parte das ações de fiscalização e proteção do território, Possuelo considerou que a confluência dos rios Ituí e Itacoaí oferecia um lugar geograficamente estratégico para criar um posto de vigilância, graças ao encontro dos dois rios que dão acesso às aldeias de povos Matis, Marubo, Korubo e Kanamari. Os Mayoruna/Matsés ocupam mais as bandas do Peru com acesso pelos rios Curuçá e Javari e o rio Jandiatuba desemboca mais abaixo no rio Solimões.

Os Korubo do grupo de Mayá estiveram vivendo perto da Base durante vários anos e tive o prazer de encontrá-los algumas vezes quando estava de ‘subida’ ou ‘baixada’ pelo rio Ituí, onde morei durante cerca de 13 meses em 2006 e 2009 convivendo e aprendendo a viver com os Matis. Alguns Korubo conversavam comigo em Matis quando finalmente aprendi a falar e a ouvir nessa língua indígena. Pediam roupas, dinheiro, facas, lanternas.

Durante 2006, ouvi atentamente as narrativas de contato que os Matis haviam vivido quando resolveram aceitar as investidas dos servidores do governo federal que auxiliavam a Petrobrás a realizar perfurações para verificar o potencial de exploração da terra. Havia também planos mirabolantes de construir uma estrada ligando Tabatinga, no Amazonas, à Cruzeiro do Sul, no Acre, que teria vindo a se chamar Perimetral Norte (uma pequena transamazônica). Estava também interessada em conhecer as narrativas que os Matis tinham do encontro deles com os Korubo do grupo de Mayá e como e por quê os Matis haviam aceitado trabalhar como tradutores e intermediários entre o governo brasileiro e os Korubo, mesmo tendo tido o trauma de ter perdido cerca de dois terços do seu povo para doenças trazidas pelo contato irresponsável que o governo brasileiro havia empreendido.

Aprendi que os e as Matis se consideravam filhos e filhas de duas meninas Korubo e que seus antepassados haviam roubado no passado, por volta do ano 1920, de acordo com as minhas estimativas. Publiquei textos sobre essas histórias matis, mas o relato dos contatos está em minha dissertação de mestrado.

Quando morei no Javari, vi como os Matis criaram uma economia criativa para ganhar dinheiro com qualquer gringo que quisesse pagar para fotografá-los. Alguns se tornaram experts em organizar viagens para turistas ou cineastas a quem os Matis chamavam de forma genérica de “jornalistas”. Escrevi sobre essa relação com as câmeras em minha tese e alguns artigos.

A pedido das ONGs Centro de Trabalho Indigenista (CTI) e Instituto Socioambiental (ISA), escrevi com a médica Deise Francisco e o antropólogo Pedro Cesarino, um diagnóstico médico-antropológico para recomendar melhoras para o atendimento de saúde na Terra Indígena Vale do Javari.

Entre nossos comentários, redigimos: “Frente às informações expostas [sobre os contatos que o grupo de Korubo àquela época ainda considerado como sendo ‘isolado’] e à preocupação que as mesmas suscitam em relação à situação de saúde desse grupo Korubo, recomendamos à FPEVJ, à CGIIRC, à FUNAI e à Secretaria Especial de Saúde Indígena (ligada ao Ministério da Saúde) que se preparem para receber os Korubo do rio Coari (“isolados”) com estrutura médica e sanitária adequada e que acompanhar suas relações com os Matis e Kanamari, sem necessariamente impedir tal movimento, que pode corresponder a dinâmicas e necessidades internas do grupo” (Arisi, Cesarino, Francisco, 2011: 18).

Em 2013 e 2014, acompanhei a cineasta Celine Cousteau como voluntária para um documentário, ainda não oficialmente lançado, sobre saúde na terra indígena. Na segunda viagem, fui picada de cobra e sobrevivi ao péssimo atendimento, incluindo a recusa por parte do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) em mandar um helicóptero para remoção de emergência e aumentar as chances de salvar minha vida e evitar eventual amputação de minha perna. Felizmente, sobrevivi para contar a história.

Em 2014 ocorreu um confronto violento entre os Matis e os Korubo. O conflito se estendeu até 2016. Os Matis pediram que eu escrevesse para ajudá-los, para que eu expusesse como eles entendiam a tragédia que havia ocorrido na aldeia Todorak. Soube então que dois homens Matis haviam sido mortos a bordunadas pelos parentes Korubo. Os Matis consideravam que os Korubo mataram Damë e Iva Xukurutá porque uma mulher e crianças haviam desaparecido e o grupo isolado de Korubo pensou que os Matis poderiam tê-los sequestrado.


Roubos de mulheres são parte da história de todos os povos do Vale do Javari. No passado, os Marubo roubaram mulheres dos Mayoruna/Matsés, os Matis dos Korubo, os Mayoruna/Matsés roubaram mulheres de todos os povos do entorno, peruanos, brasileiros, Marubo, Matis, e tantos outros.


Após a morte violenta de Damë e Iva Xukurutá, os Matis pediram ajuda para a Funai, enviaram documentos para Brasília, mas receberam apenas uma nota contra o povo Matis, do próprio coordenador à época da Coordenação Geral de Índios Isolados e de Recente Contato, Carlos Travassos. Era a primeira vez que um órgão de defesa dos índios publicava uma nota contra um povo indígena. Recebi a mensagem: “Barbara, tu és a nossa antropóloga, escreve explicando nosso lado sobre o que aconteceu no Javari”.

Eu estava estarrecida, pois sabia que haviam ocorrido em torno de 9 mortes nos Korubo provocada pela reação dos Matis depois que a Funai não havia feito nada mesmo após tantos apelos. Eles pediram que eu escrevesse com Felipe Milanez, jornalista e professor universitário da Universidade Federal do Recôncavo Baiano. Então, em co-autoria com Milanez, escrevemos uma coluna para a Carta Capital, um capítulo de livro e, finalmente, um artigo acadêmico para tratar sobre o colonialismo das relações que muitos não-indígenas mantêm e/ou procuram manter com os índios do Vale do Javari.

As fotos dos Korubo feitas por Sebastião Salgado chamam atenção para a necessidade de trabalhos de defesa do território que é uma área de proteção socioambiental. Mas as imagens, de certo modo, reforçam a observação que fizemos em nossos textos. As fotos mostram como é ainda necessária uma crítica a um “certo ideal de índio [que] permeia as utopias indigenistas do Estado brasileiro e como a política de isolamento, influenciada por esses ideais, apresenta suas idiossincrasias e contradições.  (…) No Brasil, os índios Korubo que vivem na Terra Indígena Vale do Javari ocupam esse local de índios modelo na política de isolamento promovida pelo governo federal” (Arisi & Milanez 2017).


As fotos de Sebastião Salgado reforçam esse ideal de índio pelado, fora do tempo, como vivendo nessas “origens edênicas” que os brancos acham que existiram.


Na verdade, e obviamente, eles e elas são homens e mulheres que vivem no presente, com as consequências de nosso tempo, o mesmo tempo em que todos os demais seres vivos do planeta Terra. Com os mesmos problemas que os não-indígenas e todos demais indígenas, massacrados pelo industrialismo, pelo empobrecimento e contaminação do planeta e pela monoculturalidade emburrecedora de visões de mundo.


Entre os povos do Vale do Javari, o pagamento em forma de presentes para poder fotografar e filmar quase sempre causa muito ciúmes. Há um desbalanço de riquezas e poder, portanto, sempre que chegam gringos querendo filmar e pagam para comprar uma casa de associação indígena ou trazendo presentes. Pelo que soube de amigos que vivem em Atalaia do Norte, Salgado apenas presenteou os Korubo e não deu nada para a União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (UNIVAJA). Para piorar, os Matis receiam que, com os presentes e a ciumeira desencadeada, prossiga a escalada de violência na região. O fato de Salgado ter vindo acompanhado de Carlos Travassos, o autor da nota contrária aos Matis, também acirrou a tensão local.

Para terminar, narro mais um diálogo de floresta. Certa feita, quando estava pesquisando a relação dos Matis com os turistas e jornalistas que os filmam e fotografam, encontrei uma foto na internet dos Matis nus, os homens vestidos com o cordão peniano, colares e adornos. Perguntei a Binan Tuku sobre a foto. Dias antes, um cara da Funai havia visto comigo a foto e comentado que os turistas e jornalistas exploravam os Matis fazendo-os de bobo. Queria ouvir o que Binan Tuku tinha a dizer a respeito daquela foto deles e delas pelados, como nunca os havia visto.

 
“Barbara, eu era jovem naquele tempo, quando a Funai chegou aqui na floresta, para fazer contato com os Matis, eu andava com meu pênis amarrado assim, na envira, para caçar/caminhar na floresta. Agora, sou velho o suficiente para saber e escolher a quem eu mostro ou não meu pênis”, respondeu-me Binan Tuku.


Em 2003, conheci o grupo de Mayá ainda sem calções e com o cordão peniano, mas desde 2006 sempre os encontrei vestidos. Atualmente, os Korubo usam no dia-a-dia calções e roupas de branco (sim, porque andar pelado na floresta cheia de pium, mosquito e outros bichos não é nada agradável, como ensinou-me o mesmo Binan Tuku).

Admiro a beleza desses homens e mulheres que viveram fugindo do contato com a sociedade doente dos brancos, mas ainda assim não consigo esquecer-me do que aprendi dos velhos Matis, que eles são velhos o suficientes para escolherem a quem mostram ou não seus pênis. As fotos de Salgado iluminam bem essa noção de índios prístinos, da utopia e da cosmologia do Éden perdido, que vivem isolados, porém circulando num mercado bilionário de alta elite que é o da fotografia internacional. A beleza dos índios Matis e Korubo pode matar, temos de ter muito cuidado ao tentar olhar tamanho esplendor.

 
As fotografias de autoria de Ricardo Beliel foram cedidas para uso exclusivo deste artigo. O texto pode ser republicado e compartilhado sob a Licença Creative Commons – Atribuição 4.0 Internacional.
 

Barbara Arisi é jornalista formada em Comunicação Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS) e antropóloga com mestrado e doutorado pela Universidade Federal de Santa Catarina. Como repórter trabalhou no jornal Zero Hora. Fez estágio doutoral como antropóloga pela Universidade de Oxford, no Reino Unido. Nasceu em Porto Alegre (RS) e morou em Foz do Iguaçu (PR), Florianópolis (SC), São Paulo (SP) e Manaus (AM), Amsterdam, Maastricht e Hoorn (Holanda) e em Londres, no Reino Unido. É professora concursada pela Universidade Federal da Integração-Latino Americana, em Foz do Iguaçu (PR). É também pesquisadora visitante na Vrije Universiteit Amsterdam, onde   estuda   manejo de resíduos sólidos (plásticos e orgânicos).  Atualmente mora com a filha em Hoorn. No Brasil, trabalhou na campanha do Greenpeace Amazônia pela criação da Reserva Extrativista de Porto de Moz e da Verde para Sempre, no Pará, em 2003. Há 14 anos faz pesquisas na Terra Indígena Vale do Javari, no Amazonas, sendo que em 2006 e 2009 recebeu financiamento da Capes e do CNPq. Em 2011, produziu um diagnóstico sobre saúde no Vale do Javaripara o Instituto Socioambiental (ISA) e o Centro de Trabalho Indigenista (CTI). Com a equipe de Céline Cousteau trabalha para o documentário Tribes on the Edge desde 2012. O filme ainda não estreou. Para ler outros textos da autora entre aqui.

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