Roraima: II Seminário dos jovens indígenas da região Serra da Lua: conquistas, desafios e perspectivas de vida 

11 NOV 2017
11 de Novembro de 2017
Fonte: Ascom - CIR
Fotos: Mayra Wapichana

Mais de 100 jovens indígenas de quatro polo-base, Manoá, Jacamim, Moskou e Malacacheta, da região Serra da Lua realizaram por dois dias, 7 e 8, o II Seminário dos Jovens Indígenas da Região da Serra da Lua com o tema “ conquistas, desafios e perspectiva de vida”. O evento foi realizado no tradicional Centro Comunitário Tuxaua Constantino Viana Pereira, localizado na comunidade indígena Malacacheta, região Serra da Lua, município de Cantá. 

Após uma rodada de três encontros locais, os jovens e adolescentes indígenas da etnia Wapichana e Macuxi, maioria Wapichana, se reuniram no Centro Regional da Serra da Lua para debater sobre os pontos discutidos nos encontros anteriores, educação, saúde, economia, política partidária e sustentabilidade, além de fazer uma profunda reflexão sobre o seu papel social na comunidade indígena diante de tantas influências externas que chegam às comunidades, principalmente, as influências dos centros urbanos, bebida alcóolica, drogas, alimentos industrializados e outros tipos de influências negativas. 

Na abertura, houve apresentações artísticas com destaque para o dia do livro com os estudantes de 1º ao 5º ano da Escola Municipal Maria Teodora Viana da comunidade indígena Malacacheta, dramatizações sobre a atual realidade de vulnerabilidade dos jovens indígenas feito pelos estudantes da Escola Estadual Indígena Professor Edmilson Lima Cavalcante, debate com as lideranças tradicionais, jovens, professores, representantes das organizações indígenas e demais convidados.
 
No primeiro dia, 7, participaram do evento o coordenador geral do Conselho Indígena de Roraima (CIR), Enock Barroso Tenente, a coordenadora estadual da Organização dos Professores Indígenas de Roraima(OPIRR), o pró- reitor de Pesquisa e Extensão, Inovação e Tecnologia da Fundação Universidade Virtual de Roraima(UNIVIR), Airton Lima, os professores indígenas Fausto Mandulão, Macuxi, da comunidade indígena Tabalascada, Getúlio Solon, Wapichana, da comunidade Canauanim, Clovis Ambrósio, Wapichana, Simeão Messias, Macuxi, ambos da comunidade Malacacheta, Rivelino Manduca Uchoa, Wapichana, da comunidade Jacamim e Jonathan Paulino, Wapichana, da comunidade indígena Manoá. 

O jovem Tuxaua da comunidade indígena Malacacheta, anfitriã do seminário, Jose Ailton de Souza Cruz, com alegria deu boas vindas ao seminário, o primeiro a ser realizado na comunidade indígena, depois de um longo histórico de luta das antigas lideranças, entre eles, um dos fundadores da comunidade Malacacheta Constantino Viana Pereira, nome dado ao Centro Comunitário da região Serra da Lua. “Isso aqui é uma luta, uma caminhada, uma batalha e também uma conquista para nós lideranças, professores e alunos. E essa conquista de hoje, acredito que uma batalha das lideranças, Clovis, Simeão, professor Ananias, Waleria e nós, também estamos lutando para que as conquistas sejam alcançadas” refletiu o Tuxaua, filho de uma das antigas lideranças e fundadores da comunidade Malacacheta, conhecido como Raimundo Cruz, já falecido. 

Uma das lideranças tradicionais de Roraima, com mais de 30 anos de dedicação a pauta da saúde indígena, mais de 40 anos no movimento indígena, um dos fundadores da organização Conselho Indígena de Roraima (CIR) e uma das lideranças que participou da aprovação dos artigos 231 e 232 na Constituição Federal Brasileira de 1988, Clovis Ambrósio, Wapichana, 72 anos, morador da comunidade indígena Malacacheta há mais de 20 anos, mas oriundo da comunidade Tabalascada, sem dúvida, foi uma das presenças mais simbólicas do evento, sendo a memória viva para a atual geração de lideranças indígenas.
Clovis Ambrósio fez uma breve apresentação do histórico de criação do movimento indígena em Roraima iniciado na década de 1970, sendo motivada pela mobilização indígena em todo país, com o apoio dos simpatizantes da causa indígena, o início da criação dos Conselhos regionais iniciado pela região das Serras e depois se estendeu por todas as regiões do Estado, o processo de debate da educação escolar indígena no dia D, 5 de setembro de 1985, quando se discutiu o slogan “Que Escola temos, que Escola queremos”, a saúde indígena com a realização da primeira Conferência de Saúde Indígena no Brasil em 1986, e em 1987, a criação do Conselho Indígena de Roraima(CIR) voltado para discutir sobre terra, educação, saúde e sustentabilidade. 

Ambrósio fez uma profunda reflexão de que os jovens indígenas saibam que toda caminhada sempre foi coletiva, sempre pelo bem estar e melhoria das comunidades indígenas. “Que esse evento sirva para que vocês, jovens, seja as lideranças, para fortalecer a nossa organização social como professores, agentes indígenas de saúde e outras profissões, mas sempre com o valor de assumir quem somos nós” orientou Clovis. 

Enock Barroso Tenente, atual coordenador geral do Conselho Indígena de Roraima (CIR), fruto das lideranças indígenas da região Amajari, também deixou a sua contribuição aos jovens indígenas da região Serra da Lua. Falou da alegria de participar pela primeira de um evento na região, ainda mais sendo um evento sobre juventude, assim como da alegria de trazer a mensagem de jovens de outras regiões. 
Informou sobre a realização do encontro dos jovens indígenas da região Amajari, no período de 3 a 7 de dezembro, na comunidade indígena Aningal, onde existe o primeiro Centro Regional de Juventude, construído com o esforço da própria comunidade, assim como sobre o intercâmbio dos estudantes indígenas do Centro Indígena de Formação e Cultura Raposa Serra do Sol (CIFCRSS) na comunidade Aningal e outras ações realizadas pelos jovens nas demais regiões membro do CIR . Entre muitos desafios do dia a dia da juventude, Enock destacou que a “juventude é a diferença no dia de hoje” e que não se pode pensar a juventude como futuro, e sim, como presente.

Os jovens indígenas trouxeram para o seminário a preocupação de um futuro, ou presente, às vezes, incerto, porém, com o desejo de construir uma nova realidade de ações práticas e de oportunidades, para que fortaleçam o bem viver das suas comunidades indígenas. 

Marcelo Wapichana, da comunidade indígena Jacamim apontou questões que demonstram a forte expressão de uma juventude que de fato quer uma realidade mais justa e digna. Pediu uma escola com estrutura adequada, merenda escolar de qualidade e uma das alternativas de mudança de um cenário precário, mudança no contexto político partidário. 
Para o ponto, político partidário, Marcelo apresentou a proposta da realização de oficina sobre conscientização política nas comunidades indígenas, além da proposta de palestra sobre drogas, bebida alcóolica e outras ações que possam contribuir na valorização dos jovens indígenas em suas comunidades. 

Da mesma Juliana Wapichana, que fez uma reflexão profunda sobre a importância do jovem na comunidade indígena. “Muitas pessoas falam que o jovem não tem um papel na comunidade, mas eu sei que a gente é capaz de tudo, porque nós fazemos a diferença na nossa comunidade. Somos nós, que devemos correr atrás, lutar pelos nossos direitos, somos nós, que devemos estar lá falando o que está acontecendo na nossa comunidade, de ilegal e ilegal. por isso, não tenham medo. Então é isso que quero falar a vocês, nós, jovens, somos capazes de tudo. Um dia a gente pode conseguir o que precisamos.
Para completar a motivação da juventude de fazer memória sobre as suas origens, mas também de refletir o seu presente, houve também exposição de trabalhos científicos construídos na metodologia específica e diferenciada, além, da exposição de cartilhas educativas produzidas pelos próprios estudantes indígenas.

A juventude indígena que hoje acessa as redes sociais, facebook, whats, dança o hip hop, o funk e outros estilos, acessa as novas tecnologias, notebook, celular, é a mesma juventude que busca revitalizar e valorizar a sua cultura, seja na dança tradicional, língua, artesanatos, pinturas. A juventude que busca conhecer a história do seu povo, dos seus ancestrais e a mesma que quer garantir os seus direitos originários, direito à terra, saúde, educação, sustentabilidade, além de ser a juventude que é consciente dos seus direitos, mas também deveres como jovem e indígena. 

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