Territorialidades, afetos e poderes

05 OUT 2017
05 de Outubro de 2017
Por Renata Machado | Rádio Yandê

Participei neste dia 05 de outubro do Colóquio Internacional Modos De Ser Sul / Modes of Being South - Territorialidades, afetos e poderes organizado pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense - PPGCOM UFF com parte da rede internacional de pesquisa Global South. 

A mesa sobre Territórios foi com as palavras fortes do escritor indiano e poeta Raj Rao, a inspiradora Ana Maria Gonçalves autora do livro "Defeito de Cor" e de super gás da jornalista Thamyra Thâmara do GatoMídia. Conversamos sobre um 'não lugar' em que todos acabam encontrando um ponto de conexão em diferentes contextos territoriais. 

Ana citou um trecho traduzido do livro “A map to the Door of no Return – Notes on belonging“, da escritora Afro-canadense Dionne Brand.

“(…) É claro que a Porta do Não Retorno não é nenhum lugar, mas a metáfora do lugar. Ironicamente e, talvez, apropriadamente, não é um lugar, mas uma coleção de lugares. Um deslizamento de terra na África, sobre o qual um castelo foi construído, uma casa de escravos, une maison des esclaves. Firme o suficiente para desaparecer ou se desenvolver, vaidoso o suficiente para sobreviver aos séculos. Um lugar no qual ocorreu um certo número de transações, talvez a mais importante delas sendo a transferência de personalidades. A Porta do Não Retorno – real e metafórica como alguns lugares são, mítica para nós, espalhados hoje pelas Américas. Ter o próprio pertencimento alojado em uma metáfora é uma trama voluptuosa; habitar uma tropa; ser um tipo de ficção. Viver na Diáspora Negra é, eu acho, viver como uma ficção – uma criação dos impérios e também uma auto-criação. É como ser um ser vivendo dentro e fora de si mesmo. É como captar o sinal feito por alguém sendo ainda incapaz de escapar dele, exceto em momentos de normalidade transformados em arte. Ser uma ficção em busca de sua metáfora mais ressonante é ainda mais intrigante. Então eu estou escavando mapas de todos os tipos, do jeito que algumas ficções fazem, discursivamente, elipticamente, tentando encontrar suas individualidades transferidas.

Então eu tenho colecionado esses fragmentos (…) – descoordenados e muitas vezes relacionados apenas pelo som ou pela intuição, pela visão ou pela estética. Eu não visitei a Porta do Não Retorno,  mas contando com cacos aleatórios da história e com a memória não escrita dos descendentes daqueles que passaram por lá, incluindo a mim, estou construindo um mapa da região, prestando atenção às faces, ao desconhecimento, aos atos não intencionais de retorno, às impressões limiares. Cada ato de recordação é importante, mesmo olhares de pavor e desconforto. Cada partícula de sonho é evidência.”

Raj falou com profundidade do que os humanos tentam esconder sobre eles mesmos. Ele é um dos principais militantes dos direitos LGBTQ da Índia e autor do livro “The Boyfriend”, um dos primeiros romances de temática lançados no país.

"Eu gostaria que vocês pensassem em mim não como um ser humano, mas como um párea, como um vira lata. Para cada cinco indianos um seria um vira-lata, um garoto de rua . Na Índia isso não é um exagero, somos muitos de verdade. E por que esses vira-latas estão lá? Porque algumas pessoas decidiram que esses cães não fossem adotados e que fossem esterilizados. Eles são vistos como inimigos, podem ser atropelados, eles mordem as pessoas, muitas vezes esses cães não são vacinados. Não estamos falando de cachorros, na verdade, estamos falando de seres humanos.Estamos aqui falando de territórios e os cães são animais territoriais, eles protegem seu próprio território, embora suas vidas sejam difíceis, eles se protegem uns aos outros.Algumas pessoas dizem que seres humanos não são territoriais como os cães, mas eu discordo.", explicou Raj Rao.

Foto: Tatiana Lima

Como se faz um território ? 

Somos movidos pela força dos afetos em territórios que são feitos por poderes que constantemente violentam espaços do outro em seus modos de ser. Vivemos imersos e submersos na diáspora das consciências, identidades e culturas. 

Quantas gaiolas nos aprisionam, violentam, sufocam ou  impendem de ver quem somos ? 
 
Nosso verdadeiro rosto recebe muitos socos ao longo da vida, existe um desfiguramento da nossa existência nesta longa e as vezes breve passagem pelo mundo. Aqueles que possuem raízes são como árvores que conseguem ficar de pé. O desmatamento não ocorre apenas na floresta, quando compreendemos que somos a floresta e que nosso rosto é face também da natureza podemos então reconhecer aquilo que constantemente os espelhos e selfies nós impedem de ver. 

Pela força do afeto também surge desafeto, entre encontros e desencontros que cerceiam nossa raíz roubando nosso rosto e afogando nossas vozes em mares até então desconhecidos de territórios nunca antes vistos por nossos antepassados. Percebo então a potência de nossos encantados e simplicidade de viver capaz do transcender. Pela fome de essência presente em nós indígenas abrimos todas as caixas que tentam nos guardar em uma redoma não de vidro mas de papelão provocando mofo ou de arame ferindo nossa pele, violando o espaço de nossos corpos.

As cercas são impostas por aqueles que acreditam que existem fronteiras e fazem delas formas de exercer poder, são cercas fitadas ainda no período colonial em nosso pensamento. Elas discriminam todos, fazem da diferença um defeito, a cor da sua pele seja mais clara ou escura, você sendo mais alto ou baixo, seu cabelo sendo cacheado, liso ou não. As diferenças são expostas, condenadas na Ágora da opinião pública adestrada pelos poderes, julgadas e apontadas com cara feia de reprovação. Como se fosse errada a pluralidade, diversidade e todos devessem ser iguais na expressão ou da forma que alguns desejam impor que outras pessoas devem ser, seja na orientação sexual, religião, aparência física, escolha politica e até mesmo na vida.

Ora, o estado se diz laico mas o cenário de divisões e de constante tentativas de homogeneização revelam pedras e vidros que são quebrados pelas mesmas mãos que afirmam que existe laicidade. Quando é imposta apenas uma religião nas escolas e um modo de ser no país de 305 povos indígenas, mais de 250 línguas e uma diversidade de cores, religiões, crenças, corpos, identidades, nacionalidades  e culturas invejada por outros países. 

Pessoas são dominadas quando se consegue torná-las um rebanho então sempre vão obedecer o que é imposto por aqueles que criaram o rebanho. Integração forçada é para cegos e surdos ao que a terra fala e mostra. É fetiche daqueles que usurpam recursos naturais e precisam que as pessoas esqueçam quem são. A maior censura que sofremos é aquela que não nos permite que sejamos quem somos. 

E quem somos ?

Guardiões da memória, história, alegrias, dores, vitórias, liberdade, identidade, cultura, saberes, tradições, gente de todos os tipos, jeitos, cores, lugares e crenças. Da aldeia a cidade, da cidade até aldeia, todo lugar que o sol  chega, a chuva molha e cresce vida na terra é nosso território. Mas ele não é apenas um espaço geográfico, físico ou espiritual, carregamos também as terras ancestrais em nosso pensamento, forma de estar no mundo, produzimos territórios a cada palavra, cada canção tradicional solta no vento, e todo lugar que mostramos nossa verdadeira face como um ato de sobrevivência fazemos de muitas formas está nossa resistência territorial. 

*Renata é da etnia Tupinambá, jornalista, roteirista e produtora. Trabalha com a comunicação voltada para etnomídias, descolonização dos meios de comunicação e fortalecimento das narrativas indígenas. 
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