Um sopro sobre o tabaco e os brancos

29 JUL 2017
29 de Julho de 2017

Daiara Tukano para a Rádio Yandê

MI'RÔ, o tabaco, é para nosso povo Yepá'Mahsã, mais conhecido como Tukano, a planta sagrada da criação, rezada e soprada por deus para criar. Isto é o que conta a tradição de meu povo, mas a verdade é que o tabaco é planta sagrada de muitos povos indígenas de norte a sul deste continente.

Ainda que o ato de fumar não seja algo exclusivo das Américas, e que existem muitos povos ao redor do mundo que fumam tradicionalmente outras plantas, o tabaco “Nicotina Tabacum” é uma planta herbácea e perene, da família das solanáceas originária da América tropical, e é de suas folhas que se produz a maior parte do tabaco consumido no mundo. Hoje o consumo do tabaco se tornou algo trivial e até fatal: seu mau uso e abuso pode provocar muita doença e tristeza por aqueles que não tiveram acesso à memória de seu uso tradicional.

Mi'rôro ipîre koêro, mi'rôro basêkamu ta'karo, mi'rôro basêhúkaro, mi'rôro boêse.

Tradicionalmente para muitos povos de origem, o tabaco é medicina que limpa, protege, cura e ensina, para isso deve ser bem usado, e isso só se aprende com um mestre doutor dos saberes e das ciências ancestrais. O uso das medicinas pode parecer algo simples, mas se trata de algo muito sutil e forte ao mesmo tempo, aliás é assim com muitas medicinas: dependendo do uso pode se transformar em cura ou em veneno, e isso é um conhecimento da humanidade que está em todos os povos, até os gregos sabiam disso.

A medicina é uma ciência em todas as culturas, não existe civilização, ciência ou cultura superior à outra, elas variam em métodos e linguagens e todas medicinas são fruto de muito estudo, prática e pesquisa.

O tabaco é uma planta usada medicinal e espiritualmente por vários povos desde tempos imemoriais: pode ser fumada (nunca tragada ou irá trazer doença) em charutos ou cachimbos, usada para defumação; pode ser lambida em forma de mel ou gel, pode ser mascada, pode ser bebida e pode ser soprada ou inspirada em pó na forma de rapé. Em todos os casos seu preparo e uso é cerimonial, e tem algumas formas de uso que só devem ser feitas sob a orientação de especialistas para acertar a dose e a finalidade com todo cuidado e acompanhamento.

O manuseio da medicina desde seu cultivo, a escolha das folhas e seu preparo tradicionalmente é feito com muita atenção, concentração, intenção, reza e técnica; é possível diferenciar as variantes de reparos e misturas de povo para povo e até de pessoa para pessoa. O tabaco pode ser usado puro ou misturado com outras plantas, há receitas especiais para charutos, cachimbos etc que variam de povo para povo ou que vão da pesquisa de cada especialista. Também pode ser usado em cerimônia com outras medicinas, como Padu, Caapi, Biâ e outras, mas isso também vai do momento certo que é orientado pelo mestre de cerimônia de acordo com os conhecimentos de cada povo. Esses conhecimentos são ciências antigas e complexas que caberá a cada povo decidir quando como e com quem compartilhar, pois elas constituem seu íntimo sagrado e segredo.

Outra coisa importante é o tempo de estudo prática e pesquisa de uma medicina para saber usar dosar e aplicar: não é algo que se aprenda da noite para o dia, e muito menos desacompanhado. Um aprendiz de cura precisa ficar muitos anos prestando atenção em seu mestre, e essa relação geralmente dura por toda a vida.

Antes de ser chamada de tabaco, essa planta tem muitos nomes: Mi'rô – Tukano; Petyma – Tupi; Tané – Kariri-Xokó; Dzé-ma – Baniwa; P?ty ou Penty – Guarani; Wárin – Xavante; Suhu – Sateré Mawé; Hyiri – manchineri; Mãsi – Manoki; Brobo – Xukuru; Po'ri – Tikuna; Khareni – Kisedje (Gê); Naludagaadii – Kadiwel, são apenas alguns entre os povos indígenas do brasil, com relação à etimologia da palavra Tabaco há um debate: Segundo Bartolomé de las casas (1552) a palavra seria de origem Tayno, tronco Aruac, da região do primeiro contato com os espanhóis no caribe. Há aqueles que apontem que a palavra tenha origem no árabe Tabbac, usado para designar outras ervas de fumo no norte da áfrica. Para apimentar o debate sobre a origem da palavra em 1992 uma certa egiptóloga de munique alegou ter encontrado traços de tabaco em múmias egípcias, gerando polêmica entre arqueólogos e historiadores.

O tabaco tem sido compartilhado entre os povos desde os tempos antigos: os botânicos apontam que a planta nasce originariamente na região andina, mas seu uso tradicional é encontrado em todo o continente do polo norte ao povo sul. 

Em muitas histórias de origem o tabaco foi trazido por alguém, como a mulher Búfalo-Branco dos povos Sioux e Lakota, ou o Beija-flor para os Cherokee no norte, muitas histórias que explicam à maneira de cada povo como começaram a estudar com a planta, as trocas e os aprendizados trazidos por ela.

O tabaco depois do branco

A história do tabaco é milenar, mas também foi tocada e alterada pela colonização, segue trecho do texto da wikipedia: “No início do século XVI, o tabaco foi levado pelos espanhóis para a Europa, onde veio a tornar muito popular sob a forma mascada e sob a forma de rapé. O primeiro livro em que é relatada a forma nativa de se aspirar a fumaça proveniente de rolos de folhas de tabaco acesas é "Apologética historia das Índias", de Bartolomeu de las Casas, em 1527. Posteriormente, Gonzalo de Oviedo y Velázquez, na Historia General de las Indias, descreveu a planta e seus usos, em 1535.

Arte: Daiara Tukano

Arte: Daiara Tukano

Em 1561, Jean Nicot (de onde deriva o nome da nicotina) aspirava o tabaco moído (rapé) e percebeu que ele aliviava suas enxaquecas; enviou sementes e pó de tabaco para França, para que a rainha Catarina de Médicis o experimentasse no combate às suas enxaquecas. Com o sucesso deste tratamento, o uso do rapé começou a se popularizar. O corsário inglês sir Francis Drake foi o responsável pela introdução do tabaco em Inglaterra em 1585, mas o uso de cachimbo só se generalizou no mundo graças a outro navegador inglês, sir Walter Raleigh.” (não posso deixar de copiar e colar sem notar que os brancos são muito engraçados e minuciosos com sua história, você imaginava que na frança o rapé ficou tão popular que chegou a ser proibido pelo rei Luís XIV?)

História vem história vai, caravela pra cá e caravela pra lá, o tabaco acabou se popularizando na europa e sendo cultivado em todas as colônias tropicais especialmente nas américas e na áfrica, tornando-se inclusive moeda de troca no comércio de escravos. Sua produção extensiva em grandes fazendas veio à tona com a evolução industrial, mas de fato foi no século XX que se formaram as grandes multinacionais de tabaco, até que nos anos 70 nasceu o Cowboy da Malboro. A propaganda do peão solitário fumando a cavalo é reconhecida como uma das publicidades mais bem sucedida no mundo, cinco de seus garotos propaganda morreram de câncer, e muitos outros clientes conquistados por essa ilusão de luxo, lirismo e poesia também.

A verdade é que quando mal usado o tabaco pode viciar e envenenar e os povos indígenas já sabiam disso há muito tempo, mas os brancos sempre foram tão arrogantes que demoraram séculos para nos considerar seres humanos e até hoje se recusam a reconhecer nosso conhecimento científico.

“Rapé na balada” e a criminalização do indígena

Recentemente foi publicado um artigo no site da UOL no jornal Folha de São Paulo sobre o uso do rapé, que seria um “pó alucinógeno no limite da legalidade que estaria se popularizando entre frequentadores de bares e baladas alternativas da capital”. O texto gerou bastante polêmica entre leigos, usuários e conhecedores dessa medicina, recomendo a leitura da crítica da revista Xapuri a respeito.

A polêmica gerada pelo texto parece não ser algo novo, de acordo com a wikipédia ela vem desde o século XVII. “Rapé” se tornou no Brasil, o nome genérico para designar o tabaco moído reduzido a pó, aspirado ou soprado nas narinas. A palavra vem do francês “rapé”: raspado, e deve ter se popularizado da época que virou moda na França.Como dito previamente, o uso do tabaco varia de povo para povo, e da mesma forma que não existe “índio genérico” mas povos originários distintos, o rapé não é uma coisa só para todos os povos. Existem povos indígenas que nunca usaram rapé, e outros que o consideram medicina de origem. Entre os povos que detêm o conhecimento do rapé, o preparo, uso e finalidade pode variar: para os povos da bacia amazônica se trata geralmente de algo estritamente cerimonial; para outros, de um remédio de uso tópico para a congestão nasal.

O rapé é comercializado e produzido industrialmente desde o século XIX, inclusive no brasil as marcas mais famosas são o “rapé tupi” e o “rapé guarani”, pode ser encontrado em tabacarias, vendido em latinhas de nove gramas, com misturas de cravo, canela, menta, eucalipto, cânfora, imburana ou puro. Esse rapé costumava ser mais popular no começo do século XX pelas classes populares no brasil.

Já na Europa, o uso indiscriminado do tabaco tampouco é algo novo. O rapé continua sendo bastante popular na Inglaterra, o “Snuff” é produzido industrialmente e vendido sob forma de pó, mais ou menos úmido, que pode ser aspirado, ou introduzido nas narinas. Uma forma de tabaco mais úmido é mascado ou aplicado nas mucosas das gengivas. Dá uma olhada no Google para você ver o que os brancos conseguiram fazer com o rapé, isso sem contar, é claro, com a trágica história do cigarro e como o tabagismo se tornou uma das dependências químicas que mais mata no mundo.

Antes do branco chegar o tabaco servia mesmo era para salvar vidas, curar doença e limpar o meio ambiente, os povos indígenas sempre alertaram sobre seu mau uso e abuso: “nunca trague, e nunca exagere, não tome repetidamente, use apenas em momento especiais, respeite a medicina” alertam os mais velhos. O tabaco para os povos indígenas sempre pertenceu ao espaço do sagrado, e muitos ainda hoje continuam a ver com espanto e desconfiança o uso de nossas medicinas por não indígenas: pois fica difícil de avaliar o quanto do que dizemos eles conseguem entender, ou o quanto se importam com isso.


Reflexões sobre a comercialização do “rapé indígena”

-“Ah mas são os índios que estão vendendo rapé, por aí!”
Quem inventou o capitalismo foi o branco, e acho que até hoje a gente pena para entender o que é isso, afinal, se tivéssemos entendido “tava tudo ryca só que não”. O capitalismo foi imposto aos nossos povos, e ele resume muito da dinâmica de poder da colonização: um jogo cheio de armadilhas, algumas bem escondidas.

Acredito que as histórias de como o tabaco ganhou o mundo e foi comercializado e usado de forma indiscriminada pelos não-indígenas, mostram como por essa comercialização também aconteceu um processo de dessacralização da medicina. O tabaco passou a ser vendido de qualquer forma para qualquer um, usado e qualquer jeito contanto que gerasse lucro. Até começo do século XX cigarro era vendido até para criança, tornou-se símbolo de lazer, de luxo, e de poder. Para ficar mais viciante, a indústria tabagista ainda passou a misturar no cigarro vários produtos muito mais tóxicos que a própria nicotina. Hoje no brasil se conseguiu com muita luta diante dos altos índices de mortalidade regulamentar os limites das propagandas de cigarro e fazer uma campanha preventiva nas embalagens.

Nos últimos anos, o crescimento de grupos e igrejas que congregam ayahuasca, o neoxamanismo e seus entusiastas tem de fato sido espaço de trocas cada vez mais intensas com certos povos indígenas. A ayahuasca assim como o tabaco é uma planta originária deste continente e muito sagrada para vários povos, inclusive o Tukano. Essa bebida tradicional passou a ser usada por seringueiros na floresta e acabou originando algumas igrejas brasileiras, que cresceram a ponto de chamar a atenção dos olhos do mundo sobre essas medicinas que na origem são sagradas dos povos indígenas, então não tardou para que muitos curiosos fossem procurar na fonte.

Após séculos de invasão, etnocídio e epistemicídio, em que houve muitas trocas forçadas em contatos violentos, por não dizer roubo e apropriação dos conhecimentos e práticas indígenas, e após muita luta e resistência indígena, finalmente certas relações começaram a mudar. Uma das mudanças mais radicais foi os povos indígenas tornar-se protagonistas de certas trocas: sair de suas comunidades para conhecer e comunicar-se com a sociedade não indígena sem abrir mão de sua própria cultura, mas afirmando-a, exercendo-a e compartilhando-a.

Hoje não são mais apenas os missionários ou pesquisadores brancos que entram nas comunidades indígenas para traduzir o “índio” para o português, mas os próprios indígenas também estão indo pesquisar os brancos e fazê-los entender que talvez para se comunicar conosco seja interessante aprender nossa língua também. A medicina indígena também passou a ser compartilhada até certo ponto por alguns povos.Sabe como é o juramento de Hipócrates na medicina branca, alguns médicos indígenas também estão prestes a atender quem recorrer a eles, e a verdade é que nem sempre a medicina do branco consegue enxergar o que a medicina do índio ou do chinês conseguem. E a verdade é que cada vez a procura da medicina “oriental” indígena (já que o oriental é tudo o que não é europeu), tanto por pacientes, tanto por pesquisadores acadêmicos de várias áreas, quanto por entusiastas do xamanismo e neoxamanismo. Tudo isso para dizer que a procura por estas medicinas tem aumentado sim, e que elas não surgem magicamente do nada, elas são fruto de muita dedicação: aprendizado, estudo, cultivo, prática, técnica e método.

Para os povos de origem, o rapé é algo sagrado e muito especial: não é feito de qualquer forma nem por qualquer um, e as pessoas costumam prestar muita atenção na origem da medicina, pois ela concentra a energia e a intenção de quem a fabrica. Por mais que haja muitos entusiastas do “faça você mesmo” o rapé não é uma receita de bolo, nem algo que se produza industrialmente. Pelo menos não o rapé medicinal e cerimonial de meu povo: a cada dia que passa me convenço que o que faz o “rapé indígena” não é a receita, nem a etnia do fabricante, mas o espírito e o respeito pela medicina.

Tem muita gente por aí que acredita que nossas medicinas são como as da farmácia do branco: que basta uma receita e uma prescrição para usá-las. E aquelas pessoas que observam as medicinas de maneira tão superficial que não sabem distinguir sua qualidade quando menos fazer bom uso.

Outro perigo também são aqueles que acham que fazem do rapé exclusivamente um negócio. Conheci vários autodidatas que em alguns meses já se apresentavam como mestres da medicina, alguns alquimistas aventureiros dispostos a explorar misturas novas sem ter muita referência. Outros que com alguma vivência ou curso de xamanismo aparecem com diploma e cartão de visita de curandeiro o homem ou mulher medicina e saem fazendo negócio por aí. É tamanha multidão que a gente acaba ficando meio desconfiado.

Como para os povos indígenas nossas medicinas não são uma receita de bolo, a qualidade das medicinas se mede pelo nível de dedicação, aprendizado e compromisso espiritual de quem as manipula. Em várias povos, as pessoas autorizadas a comercializar as medicinas são escolhidas a dedo e muitas vezes essa troca deve se reverter em algum benefício para as comunidades que têm gastos como em qualquer lugar, principalmente quando se está a longas distâncias dos centros urbanos.

Afinal de contas, nós somos feitos de carne e osso, vivemos em casas, precisamos nos comunicar e transportar com a mesma agilidade de qualquer um para acompanhar um pouco o ritmo do mundo afora, temos como qualquer pessoa nossas emergências e nossas demandas de acesso às políticas públicas e às novas tecnologias, temos gastos estruturais e não vivemos de vento. Certamente a comercialização não agrada os povos indígenas, cujas lideranças políticas e espirituais estão cada vez mais atentas a este debate. De fato os rumos da história e dos diversos contatos dessa colonização já levaram nossas medicinas para o mundo faz um certo tempo, e hoje os poucos que saem de suas terras o fazem para compartilhar o conhecimento e seu uso ancestral de maneira respeitosa e generosa.

Criminalizar e demonizar os povos indígenas, sua ciência e espiritualidade, banalizar suas medicinas pela comercialização ou simplesmente tratá-las como “drogas” mais reflete sobre o comportamento, o pensamento do não-indígena e suas práticas de dominação e extermínio, do que sobre o do indígena que conhece os limites de suas medicinas originárias.

Arte: Daiara Tukano

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