Teatro Amazonas pela primeira vez vai receber como protagonista cantora indígena

20 JUL 2017
20 de Julho de 2017

Foto:Diego Janatã

Por Renata Machado

A cantora indígena e graduanda em jornalismo, Djuena Tikuna vai realizar no dia 23 de agosto no Teatro Amazonas o lançamento de seu primeiro CD,  o álbum Tchautchiane que quer dizer ''Minha Aldeia'' e fez uma campanha de financiamento coletivo na internet para ajudar no transporte de indígenas de diferentes etnias. O que muita gente não sabe é que ela é a primeira indígena a realizar um evento como autora no local, considerado por muito tempo um espaço para elite de uma Manaus que tentava renegar sua origens.Ela já participou como convidada em algumas apresentações como outros indígenas mas nunca como autora.

''Somos diferentes povos, mas somos todos parentes. Fomos todos pescados no mesmo Eware, navegamos a mesma Cobra Grande. Esse é um momento que quero dividir com os parentes, mostrar a união dos povos indígenas pela cultura que é a nossa maior identidade. A ideia é celebrarmos, juntos, essa resistência cultural.'', esclarece.

Além de simbólica e histórica a presença de Djuena como protagonista é um grito de resistência de uma celebração com vitória para os povos indígenas do Amazonas que viveram por muito tempo os efeitos da época da borracha. Inaugurado em 1896 o Teatro Amazonas de uma Manaus que passou seguir os moldes de cidades europeias, sendo considerada em 1910 a capital mundial da borracha por causa do enriquecimento pelos seringais. O preconceito com tudo que não era europeu ou chique o suficiente como o que vinha de Paris tentava tornar invisível a verdadeira face de Manaus, a dos povos da floresta, com seus costumes, artes, cores, danças, línguas, culturas e toda beleza dos originários amazonenses. 

''Mas a arte não tem classe social e nem etnia. Ela é de todos, como o sol também é. Todos têm direito à arte, seja indígena ou não. Podemos querer assistir um Festival de Ópera no Teatro Amazonas, como também querer prestigiar um espetáculo cultural que nos represente. O protagonismo não é individual, ele representa a coletividade daqueles que acreditam na importância de valorizarmos a nossa cultura.'', afirma a cantora.

 Com apoio de indígenas, amigos e da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia - COIAB, ela segue na busca de parcerias.

"Apoio mesmo que conto é com o dos parentes. Eles que aceitaram o convite de participarem comigo nesse dia, mostrando seus cantos, é o principal apoio que recebemos. Contamos com o apoio institucional da COIAB, vamos inclusive divulgar esse trabalho na Assembleia da Coiab que acontece no final de agosto no Pará, na terra dos parentes Tembé. Alguns amigos e parceiros tem contribuído com o processo como a Cia. De Teatro Vitória Régia, do querido Nonato Taveres, artista amazonense que tem sido um grande formador de gerações. Outros parceiros vão aparecendo como a Secretaria de Cultura do Amazonas, que nos disponibilizou o Teatro Amazonas e o edital de artes PROARTE, que nos proporcionou a produção de parte do CD. Outros parceiros, como o Greenpeace e o CMA – Comando Militar da Amazônia vão colaborando pontualmente. Mas qualquer pessoa que compartilha o link da campanha eu considero apoio.", diz Djuena.


Em Abril de 2017 ela participou da campanha musical “Demarcação Já” de Carlos Rennó e Chico César. Gravada com Maria Bethânia, Gil Gilberto, Ney Matogrosso, Criolo, Zeca Baleiro, Tetê Espíndola, Dona Onete, Marlui Miranda, Margareth Menezes, Céu, Zeca Pagodinho, Zeca Baleiro, Nando Reis, Arnaldo Antunes e outros convidados.

"Quem quiser pode contribuir com o financiamento coletivo que tem o objetivo de trazer algumas das comunidades indígenas de Manaus e do entorno para o evento, bem como viabilizar a vinda de outras lideranças indígenas e culturais como o Akari Wauja, lá do Xingu e a Sonia Guajajara. Queríamos trazer outras lideranças de fora, mas como não temos recebido tanto apoio vamos priorizar os parentes daqui. Enfim, todo apoio é bem vindo.'', convida.

Seus cantores favoritos são Pedro Inácio Tikuna, Cintia Guajajara, Cláudia Tikuna, grupo Wotchimaücü, entre outros. Ela gosta de Salif Keita, um cantor africano albino que sofreu muito preconceito e é descendente do fundador do Império Mali. Salif desafiou as regras culturais de seu povo ao se tornar cantor. Também é fã do trabalho da Marlui Miranda, inclusive vai ser uma das convidadas no dia do lançamento.

''Tenho escutado a música dos parentes Yawanawa, quero um dia ir no Festival deles, também gosto do Toré dos parentes do nordeste.", comenta. 

Djuena cujo nome significa ''a onça que pula no rio", comentou como aprendeu suas primeiras canções na cultura Tikuna com seus familiares.

"Geralmente as crianças Tikuna aprendem os cânticos com seus pais e avós, que cantam canções de ninar específicas. 'Peri paperi mimi napë, Murucutu napë'. Quando coloco meu filho pra dormir é com essas cantigas. Nesse momento também me vem inspiração pra compor minhas próprias melodias. Como minha mãe também é cantora, sempre tivemos acesso à cantoria.  Mas a minha primeira composição própria foi a canção Yoi Tüna Pogü que conta a origem do povo Magüta que é autodenominação dos Tikuna. Ai eu já estava cantando com meus irmãos na antiga feira Puka’a que acontecia no Centro Histórico de Manaus e reunia vários grupos indígenas vendendo seus artesanatos, suas produções, cantando, dançando, interagindo.  Esses dias o meu irmão foi eleito para compor o Conselho de Cultura Municipal aqui em Manaus, uma vitória do movimento indígena local, e um de seus compromissos é reviver a Feira Puka’a.", explica. 

Hoje é uma das cantoras indígenas de maior destaque no país. Djuena Nonato Tavares entra para história como uma artista que ousa valorizar sua cultura, povo e canto ancestral trazendo para o palco sua arte junto da resistência tikuna. Como canta em seu canto Maiyugü wüiguü,somos parentes e celebra união de todos povos. Este é seu maior desejo no palco do Teatro Amazonas, como um sonho coletivo em que representantes indígenas de diferentes aldeias possam participar deste momento.
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