Nossas culturas não estão abertas ao agronegócio

22 ABR 2017
22 de Abril de 2017
Imagem:cédula de 100 cruzeiros Carajás - Emissão de 1990 

Por Renata Tupinambá

Os retrocesso do governo não param a luta indígena, do dia 24 de Abril até 28, delegações com lideranças, caciques, jovens e anciões de todas regiões do Brasil, vão estar reunidos em mais um Acampamento Terra Livre marcando o Abril Indígena organizado pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil – Apib com apoio das organizações indígenas e indigenistas que compõem a mobilização nacional indígena.

O ministro da Justiça, Osmar Serraglio (PMDB), decidiu demitir o presidente da Fundação, pastor evangélico indicado pelo Partido Social Cristão (PSC) ao cargo de presidente da Funai, Antônio Fernandes Toninho Costa cairia do cargo no dia 19, Dia do Índio, mas o Governo adiou a exoneração. Antes da nomeação de Costa, o PSC tentou colocar dois militares na presidência da Funai. Ele é conhecido por sua atuação entre 2005 e 2009 na Missão Evangélica Caiuá. Segundo algumas fontes enquanto presidente da Funai teria se negado a nomear 25 apadrinhados políticos do PSC para cargos técnicos dentro do órgão indicados pelo líder do governo no Congresso, deputado André Moura (PSC-SE), isso teria causado a decisão de Serraglio. 


Os povos indígenas não estão satisfeitos com as trocas partidárias dentro do órgão, que já estão causando mais dificuldades em algumas regiões no atendimentos as comunidades. A Funai (Fundação Nacional do Índio) único órgão indigenista oficial do Estado brasileiro que substituiu o Serviço de Proteção ao índios (SPI) em 1967,  já enfrentava problemas em governos anteriores, passou por intensas mudanças desde o caos na politica brasileira em 2016 por causa da mudança de Governo, grande corrupção de políticos, ministros, senadores e outros que fazem parte das instancias governamentais. 

O corte de cargos na Funai e fechamento de unidades, a falta de decreto homologando demarcação de terras, as negociatas de cargos políticos para indivíduos que fazem parte da Bancada Ruralista no Congresso Nacional aliada da Bancada Evangélica e também de militares revela um plano arquitetado por políticos contrários aos direitos indígenas estabelecidos na constituição de 1988 e que desejam explorar  as terras da união para fins do agronegócio, mineradoras, empresas e tudo que parecer aos seus olhos lucrativo. 

As culturas indígenas são voltadas para o respeito e harmonia com a terra, mãe de todas nações, povos realizam uma agricultura agroecológica e de subsistência que não é predatória como o modelo realizado pelo agronegócio. Muitas comunidades vivem do que plantam e também comercializam alimentos em feiras, cidades e outros espaços. Existe uma crença equivocada de que as terras em que vivem indígenas não produzem. 

Estudos apontam elas como as mais preservadas, delas vem alimentos saudáveis sem veneno dos agrotóxicos, nelas estão a base da agricultura familiar.  Mas é uma realidade apenas para os povos que possuem suas terras demarcadas ou realizaram retomadas conseguindo recuperar áreas degradadas. Quem não tem terra ou foi expulso pelo gado não conseguindo recuperar suas comunidades sofre nas estradas e em áreas que não é possível plantar alimentos, e na maioria das vezes não possui nem água potável. 

Na Bahia em Terra Indígena Tupinambá de Serra do Padeiro, o Cacique Babau junto de seu povo tem vivido de forma autônoma, produzindo seus próprios alimentos e comercializando trazendo renda as famílias indígenas. Essa renda também paga funcionários na saúde e educação. Além dos alimentos também fazerem parte da merenda escolar. Veja aqui entrevista completa.

O Governo ao atrasar salários de funcionários e não realizar real apoio a essas comunidades, inspiram muitos a reagir de forma autônoma para que o povo não sofra sem alimentos, saúde e educação. O maior objetivo de alguns grupos contrários a demarcação de terras é tornar as comunidades dependentes para que elas não possam ser auto-sustentáveis e deixem de existir.

 A distribuição de cestas básicas faz parte de uma triste realidade em regiões que comunidades foram massacradas por hidrelétricas, empresas, agronegócios e invasões. O assistencialismo faz parte das ações do governo e é objeto da crítica de indígenas que querem poder plantar seus alimentos, viver de suas roças de forma saudável. O aumento do uso de industrializados tem causado problemas de saúde como diabetes. 

Boatos são espalhados contra diferentes povos e suas aldeias com a tentativa de convencer a opinião pública de que nada fazem, possuem direitos demais ou estão parados no tempo. Porem a realidade é bem diferente em um Brasil com professores, médicos, doutores, advogados, jornalistas, enfermeiros, políticos, vereadores, publicitários, engenheiros, fisioterapeutas, nutricionistas, militares, diretores, empresários, empreendedores, artistas, cineastas, fotógrafos,  escritores, músicos, agricultores e dentistas, que são indígenas.

Golpes políticos ocorrem desde 1500 em território que sempre foi terra ancestral dos povos originários. O 22 de Abril é o dia da terra mas também marca o inicio da grande invasão portuguesa ao que hoje chamam de Brasil. O Novo Mundo "orbis novus'' foi como chamou o italiano Pietro Martire d'Anghiera em uma carta no ano de 1492 sobre Colombo ao encontrar o continente americano,que era novo apenas para os estrangeiros vindos de longe  e que fizeram do solo sagrado dos povos um outro lugar civilizado na violência e usurpação de riquezas naturais. Nunca ocorreu uma conquista mas um verdadeiro massacre em que nações inteiras foram vítimas de genocídio.

Neste dia da terra, lembramos as frases do ancião Celestino do povo Xukuru Kariri em 2015 durante a Conferência Nacional de Política Indigenista que disse em alto e bom tom :"Quem tem o direito não se pede." e "A terra é nossa mãe não temos a terra para negócio.". Hoje 22 de abril de 2017 fazem 517 anos de resistência dos povos originários no Brasil.



Redação Yandê

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