Cunhã eté, cunhã tatá, cunhã anga

08 MAR 2017
08 de Março de 2017
Por Renata Tupinambá
Como a mãe terra somos por natureza geradoras da vida. Nossa palavra é de força e união, para enfrentar de mãos dadas todos os obstáculos, discriminações e violências. Não somos objeto do fetiche nem fantasia exótica. 

Segundo o relatório da ONU, mulheres são as principais vítimas das violências praticadas contra as comunidades. Dados mostram que mais de 1 em cada 3 mulheres indígenas são estupradas ao longo da vida. O que é visto como estratégia para desmoralizar a comunidade e com o objetivo de limpeza étnica. A relatora Especial da ONU em sua missão pelo Brasil em 2016 fez recomendações incluindo maior documentação dos problemas enfrentados pelas mulheres indígenas brasileiras.

Aqueles que não respeitam as mulheres esquecem que são filhos e vieram de um ventre feminino. Temos sim rosto e nome, não somos um corpo para que usem e joguem na beira das estradas, em lixões ou covas clandestinas no fundo de seus quintais. Meninas não são um brinquedo para brincar, vender ou até a alma violentar. 

O que pensam aqueles que acham que nossa palavra tem que calar, nosso comportamento reprimir e nossa vida roubar ? 

Na aldeia, cidade, área rural ou urbana não podem nosso canto silenciar:

"Cunhã eté, cunhã tatá, cunhã anga" 


A socióloga Avelin R.C de Oliveira da etnia Kambiwá, de 37 anos e nascida no município de Ibimirim em Pernambuco, é uma lutadora incansável dos direitos indígenas urbanos em Minas Gerais.

"As maiores dificuldades que enfrentamos em Belo Horizonte hoje além do racismo é a violência que vem na forma de insultos na rua, espancamento, perseguição e até assassinatos, sofremos também com a falta de espaços para hospedagem dos parentes que vêm de todo país para mostrar a cultura e vender o artesanato. Falta respeito, falta lugar, falta feiras para vender o artesanato. Nós nos organizamos em BH porque percebemos que não tínhamos a quem recorrer, então nos unimos indígenas de várias etnias e formamos o Comitê Mineiro de Apoio ás Causas Indígenas, que funciona como uma rede de colaboradores, não é uma ONG. Nós fazemos almoços quinzenais para fortalecer as culturas passar tempo juntos e dar risada. Nos encontramos também com apoiadores não indígenas nessas reuniões fazemos organizações de atos contra todo tipo de desrespeito aos Direitos Indígenas, organizamos campanhas e ações pontuais e nossa maior luta agora é pela criação do Centro de Referência Indígena em BH, um lugar de encontro de acolhimento dos parentes e de trocas culturais com a cidade.", afirma Avelin.                                                 Foto:Fonte

Ela compartilha conosco a hastag #IndianizaBH Basta de racismo, de violência e de mortes! 

"O território Kambiwá fica no agreste do sertão Pernambucano entre Inajá e Ibimirim sendo a aldeia com nome de mulher 'Baixa da índia Alexandra' minha aldeia. Lá nós mantemos nossa religião ancestral mantendo a festa dos Praiás quando os Encantados vêm até nosso terreiro, uma festa linda e cheia de mistério. Nosso sagrado feminino esta ligado mais uma vez a fertilidade e a força, não podemos imaginar um homem gerando vida por isso cultuamos a Mãe Jurema que cura e mata.", diz.

''Somos sagradas como a mãe Terra é sagrada. Nós estamos ligadas a toda forma de fertilidade e morte que a natureza é. Desde os tempos imemoriais, somos Guaracy  'Mãe dos viventes' somos Manicoré 'Filhas da Deusa'. E somos também manú 'morto'. Somos todos os ciclos de vida e morte. Nós nunca fomos objetos e consigo ver claramente a objetificação das mulheres indígenas a partir da invasão, antes disso eramos sagradas porque temos o poder de dar vida e de tirar a vida. Somos o reflexo da Grande Mãe, a mãe Terra que tanto pode ser generosa e criadora como ser impetuosa e destruidora.", ensina. 


A matriarca kambiwá da família Roseno, influenciou sua vida enquanto mulher indígena. 

"Sempre ela manteve postura firme, sem ceder nas crenças, na religião ancestral em nada, fiel a ela mesma até na ignorância de ser rude, mas tinha a sabedoria dos Encantados e os ouvia claramente.Protetora da sabedoria da Mãe Jurema sabia usar as folhas e as raízes e toda a fé dela .Isso me influenciou na luta, na vida, na força e na coragem mas principalmente pra desenvolver os dons espirituais."



(Foto: Arquivo pessoal)

As mulheres enfrentaram grandes desafios políticos mas também familiares. Precisam conciliar sua luta com a criação dos filhos, roça, artesanato, os estudos, oficinas, encontros, reuniões e assembleias. Essa tarefa não é fácil, visto que muitas são cobradas por cônjuges ou familiares diariamente na criação dos filhos e cuidados com o lar. 

Como uma lei ou regra imposta a mulher, acaba estando muito além da função cultural de algumas culturas patriarcais, pois as relações entre homens e mulheres dos povos indígenas foram abaladas com a colonização. A catequização e evangelização trouxe um outro olhar que tirou liberdade não apenas no jeito de se comportar na sociedade. É possível observar o quanto mudou a personalidade e história de algumas. Não se pode generalizar a diversidade existente, modos de pensar e agir das etnias.
Existe respeito presente nas culturas e diferentes olhares sobre ser mulher. A questão de gênero nas aldeias não é como na do mundo não indígena, elas variam de acordo com o histórico de cada comunidade.

A professora e mestra Évelin Hekeré da etnia Terena e Aldeia Aldeinha em Anastácio no Mato Grosso do Sul, encara o desafio de frente.

"Ser mulher indígena é cada dia derrubar os preconceitos da sociedade indígena e não indígena, porque o preconceito também parte dos parentes indígenas. Construir nosso espaço não tem sido muito fácil, é um caminho árduo que todas nos enfrentamos, esse enfrentamento nos causas feridas que levam um bom tempo para cicatrizar, portanto todos os dias são nossos SIM! Viva a mulher Terena, Xavante, Tupinambá, Xacriabá, parabéns a nos guerreiras que incansavelmente lutamos e vencemos todos os dias!".





(Foto: Arquivo pessoal)

A cineasta Larissa Ye'padiho Mota Duarte, de 23 anos, da etnia Tukano, encontrou em um curso realizado entre 2015 e 2016 pela Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), com o tema  'Sistema agrícola do Rio Negro', uma oportunidade de aprender a fazer documentários.  

"...achei muito interessante e importante, pois é uma meio de nós próprios indígenas falar, ver ou documentar o nosso rico conhecimento ou relação que temos com a natureza ou com a mãe terra.Tanto físico como espiritual e dessa forma repassar para o presente e a futura geração indígena da cultura. Costume e tradição, o olhar Indígena para com o mundo. Muitas coisas já foram esquecidas e o que falta não podemos deixar esquecer ou sumir. Sabe-se que os jovens e crianças indígenas de hoje não valorizam muito a sua própria cultura, isso não é bom.Podemos trabalhar nisso.O cinema Indígena é um meio de lidar com essa situação. Achei incrível e me apaixonei por esse trabalho", esclarece.

(Foto: Arquivo pessoal)

Ela observa sobre o fato de apenas os homens aparecerem nos livros de histórias e mitos indígenas escritos. E comenta sobre seu documentário 'Wehsé Darasé – Trabalho da Roça'.

"...Não notamos a presença da mulher como fundamental. Só o homem é como centro de tudo, podemos ver isso em outras coisas também. Então esse documentário do trabalho da roça mostra o importante papel da mulher indígena na sociedade ou aldeia, valorizando o trabalho e os conhecimentos tradicionais dela...''.

Ser jovem e mulher 

"Não sofri preconceito nesse trabalho de cinema, mas já passei sim por preconceito dos meus colegas indígenas dos outros trabalhos que fiz no movimento indígena por ser mulher e por ser mais jovem."

"Muitas das vezes nós mulheres indígenas somos esquecidas. Como o homem tem seu papel ,nós mulheres também temos o nosso... Geramos filhos, cuidamos do bem estar da família, do trabalho na roça, temos conhecimentos de artesanatos, de remédios tradicionais."

A jornalista Mayra Celina da Silva Pereira da etnia Wapichana, de 31 anos, mãe, profissional, estudante de Roraima e uma comunicadora ativa no movimento indígena da região, comentou sobre o protagonismo das mulheres indígenas.

"A minha percepção ela vem da participação do acompanhamento das atividades realizadas e promovidas pela Secretaria de Mulheres Indígenas do Conselho Indígena de Roraima (CIR), nas nove etnoregiões...Nós mulheres indígenas avançamos no debate. Hoje as mulheres não só discutem os problemas sociais das comunidades indígenas, como a bebida alcoílica e violência doméstica. Mas também elas começam a discutir o futuro, principalmente depois da terra demarcada, da terra conquistada. E quando discutem o futuro estão pesando na nova geração que são as crianças e o jovem. E nesse cenário entra também nas discussões, mais ampla sobre direitos, sustentabilidade, preservação ambiental proteção dos recursos naturais que hoje estão ameaçados em todo planeta. E o debate se estende para a valorização dos conhecimentos tradicionais. Quando as nossa mulheres, nossas anciãs, elas se preocupam em repassar os conhecimentos tradicionais aos mais jovens, aos mais novos, seja da língua, da dança, do canto, também da medicina tradicional. A gente tem um exemplo aqui em Roraima. Tem a primeira Casa da Medicina tradicional que foi fundada por uma parteira tradicional Wapichana, que vê nesta iniciava a preservação e valorização dos conhecimentos tradicionais pelos mais jovens...", comentou.

Foto: Mayra  - Ariene dos Santos Lima

Redação Yandê
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