Caçadores de memórias no cinema e comunicação quebram paradigmas

25 NOV 2016
25 de Novembro de 2016
Por Renata Tupinambá
Jornalista especialista em etnomídia

Os processos comunicativos ganham identidades ao ser trabalhados por diferentes culturas. Personagens tornaram-se interlocutores de suas histórias e pensamentos. Fotografados, analisados, pesquisados e entrevistados constantemente, agora produzem seu próprio conteúdo. Grupos étnicos que por anos foram apenas objetos lançam hoje olhares sobre si e o mundo.

"Eu sou apenas um caçador, caçador de memória.Para mim a câmera é como um cachorro que vai correndo atrás da caça."afirmou o cineasta guarani nhandeva Alberto Alvares na 2ª edição da Aldeia SP – Bienal de Cinema Indígena, que ocorreu em São Paulo entre os dias 7 e 12 de outubro de 2016.

Quando falamos em comunicação indígena não estamos limitados ao formato jornalístico padronizado ou apenas na missão de produzir notícias indígenas feitas por diferentes etnias, mas falamos de uma comunicação ampla, além das palavras, imagens, ativismo ou faits divers. A força da comunicação oral é a mesma que permite memórias e saberes serem compartilhados por gerações. Um bom comunicador indígena possui uma sensibilidade que ultrapassa o mundo físico. O sagrado é protegido por palavas e sons que apenas quem sabe do significado oculto consegue compreender, como um código que alguns podem decifrar por meio de sua identidade. 

Etnomídia indígena é usada como ferramenta para trazer visibilidade e empoderamento aos povos que dela utilizam. Estamos falando de uma mídia livre de todos formatos preestabelecidos e condicionados, abrindo dessa forma diferentes possibilidades de materiais produzidos. É preciso cuidado para não cair em etnocentrismos que pode ocorrer com qualquer etnia. Adotar uma etnocomunicação é expressar sua essência étnica na comunicação. O que faz dela uma poderosa arma contra preconceitos e falta de informação especializada na grande mídia. 

A visão pessoal de cada pessoa sobre algum assunto é também valorizada, pois escutar o outro é fundamental dentro desse processo de comunicar, mesmo que não seja uma visão compartilhada por todos da mesma etnia, embora tenha mais reconhecimento quando coletiva. Essa troca profunda comunicativa permite um diálogo intercultural em que a experiência empírica envolvida ao saber é o que importa. 

Qualquer coisa que comprometa a narrativa indígena abre discussão para questionamentos sobre conteúdos indígenas e indigenistas. É muito comum haver confusão entre os dois e o lugar de fala de cada um. No cinema cresce cada vez mais o número de documentários e filmes indigenistas, em que não indígenas trazem seu olhar sobre as temáticas indígenas por meio de depoimentos de indígenas dos diferentes povos no Brasil. As culturas despertam curiosidade em públicos diversificados mas o surgimento de inciativas voltadas especialmente para o público indígena revelou algo necessário.

Programas na televisão e rádio feitos exclusivamente para indígenas alguns em línguas indígenas somente, além daqueles comentários de humor que apenas fazem sentido para os grupos étnicos indígenas são cada vez mais frequentes. 

Conteúdos descolonizadores
''Nosotros consideramos a la comunicación como la sangre que tiene que ir hacia todos los lados o si no determinada parte del organismo se anula y muere. Decimos que tiene que ser también como los flujos nerviosos que sirven, o sea sienten un estímulo e inmediatamente hay un procesamiento y una respuesta sea donde esté, y no actúa solamente alrededor, sino que actúan pues en todo el organismo. Y también es como los flujos del alma. [...] Entonces hay que armonizar ese conjunto deflujos, sí comunicacionales. Y que esos flujos comunicacionales en sí no son las tecnologías sino quienes son sujetos de esa acción comunicativa y no son solamente los dirigentes, sino las organizaciones de base, los dirigentes de las comunidades, los espíritus de las plantas, los espíritus de quienes se levantaron, los espíritus de las cosas. Esa capacidad de comunicarse entre todos esos seres significa una alta sensibilidad [...]. Y con esa alta sensibilidad nosotros respondemos a las necesidades que tenemos, y de conservar al medio ambiente porque es parte de nuestra convicción, nuestra madre, acciones contra las petroleras, acciones frente la dimensión política frente a la cuestión cultural, del significado, del proceso de globalización de las lenguas, de la vestimenta[...]''. Entrevista com Mario Bustos de Confederación de Nacionalidades Indígenas y Pueblos de Ecuador (CONAIE), realizada por Daniel Mato, 13/06/01, Quito.
Mídias indígenas são realidade em alguns países da América Latina com o objetivo de descolonizar os meios de comunicação com cultura e identidade. A III CUMBRE CONTINENTAL DE COMUNICACIÓN INDÍGENA DE ABYA YALA, ocorreu em Novembro de 2016 na Bolívia, reunindo comunicadores indígenas de todo continente. Uma declaração final foi divulgada. 

"DESAFIOS DE LA COMUNICACION INDIGENA: 1. Descolonizar la palabra: Nuestras palabras son coloniales, han sido rebuscadas, incluyendo los discursos; hemos dejado el humor, las palabras alegres. La narración, los relatos de nuestros ancestros, nuestros abuelos y abuelas, tenemos que salir de las palabras agresivas, insultantes que colonizan. 

a. Narración en vez de discurso

b. Alegría: En vez de la preocupación y la tristeza.


2. Despatriarcalizar la comunicación: El patriarcado es un sistema que nos hace creer a los varones que somos superiores de las mujeres. Despatriarcalizar: Es romper con el machismo, la creencia que el hombre es superior a la mujer, en las radios indígenas las mujeres tienen que ser las protagonistas desde la emisión hasta la recepción de la información. Las radios deben ser defensoría de las mujeres y sus derechos.

3. Desyunquisar la comunicación: Las radios indígenas debe ser críticas y auto criticas, debe felicitar lo correcto y ser crítico con lo incorrecto, debe reconocer al mejor amigo al verdadero compañero. Una radio indígena responde al pueblo, no al alcalde, no a los gobernadores ni a los diputados menos al presidente de un país.

4. Ser guerreros y guerreras para defender la Madre Tierra: Los causantes del cambio climático, La destrucción de la madre tierra, la emisión de gases por el uso de combustibles fósiles, tenemos que educarnos para transformar la base de las formas de producción en general.". Veja completo o  Documento final da III Cumbre de Comunicación Indígena del Abya Yala 2016.

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