'Ele agora é um protetor do rio São Francisco', dizem indígenas sobre morte de Domingos Montagner

16 SET 2016
16 de Setembro de 2016
Video:Reprodução/Globo
O ator Domingos Montagner, de 54 anos, faleceu na tarde desta quinta-feira (15) em Canindé de São Francisco, localizada no Sergipe, nas proximidades da usina hidroelétrica do Xingó. Ele morreu afogado nas águas do Rio São Francisco como o personagem Santo dos Anjos que interpretava. Após mergulhar de uma pedra não conseguiu retornar para a superfície. 

Conhecido por seu grande carisma, talento e alegria, sua morte abalou os amigos, fãs, família e todo o Brasil. O Velho Chico famoso por seus mistérios e histórias indígenas sobre os Encantados, é um local perigoso para mergulho em alguns trechos mesmo das pessoas habituadas a nadar. A história contada na novela é um reflexo do que ainda ocorre no Brasil, como coronéis que enganam o povo em regiões humildes, jagunços que matam pessoas, a violência por disputa de terra e poder, mas principalmente a esperança de milhões de brasileiros em um futuro melhor. O personagem do ator era alguém que defendia o povo e realizava um trabalho em uma cooperativa numa região dominada por coronéis.

A participação de indígenas Xukuru Kariri, Fulni-ô e Guarani em algumas cenas da novela Velho Chico na Rede Globo de Benedito Ruy Barbosa, despertou curiosidade do público e ao mesmo tempo trouxe um pouco da cultura indígena encontrada na região. Em um capitulo marcante na novela ‘ressuscitam’ o personagem Santo feito por Montagner após a morte do ator na trama. 


Durante o Programa Encontro desta sexta - feira (16), Fátima Bernardes mostrou o recado dado pelos fulni-ô que participaram das gravações da novela realizaram um ritual para purificação do espirito de Domingos e leu uma mensagem deixada por eles:“Por que estão querendo trazer a alma dele de volta? Ele nasceu de novo hoje. Ele se tornou um novo protetor do rio São Francisco, que estava tão esquecido. Porque esse rio não pode morrer. A novela contou todos os mistérios do rio e esse é mais um deles. Mas ele se tornou um ser de luz, pois a água não tira a vida, ela dá a vida. Fiquem felizes pela alma dele, pois quando ele entrou no rio se despediu do corpo e alma, nasceu em um mundo melhor. Algum dia os brancos irão entender isso. Então, temos que fazer um ritual para que os brancos entendam e sejam fortes, pois ele está bem. Ele agora é um protetor do rio São Francisco”.

Indígenas Xucuru-kariri de Mata da Cafurna, Lenoir e Tanawy. Na cena que participaram encontram Santo nas águas do Rio São Francisco.


Foto:Divulgação

Na bacia do Rio São Francisco vivem 32 povos indígenas, em mais de 50 territórios divididos por seis estados. A Transposição do Velho Chico está modificando suas vidas e de todos que dele dependem. Em 2012 uma Carta Pública da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil — APIB, enviada para às Nações Unidas denunciou a situação.

''A Transposição do rio São Francisco para os estados de Pernambuco, Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte, que supostamente traria água para a população carente desses estados é realmente planejado como um projeto que visa favorecer e atender as demandas do agronegócio e aos interesses econômica e políticos outros setores região. O rio São Francisco desde o seu nascimento até a foz, atravessa territórios tradicionais ocupados por mais de 9000 anos pelos povos indígenas da região nordeste. Tem uma extensão de 2.800 km, e em sua bacia há 32 povos indígenas, ocupando 38 territórios tradicionais dos seguintes povos: Kaxagó, Kariri-Xocó, Tingui-Boto, Akona, Karapotó, Geripancó, Xoco, Katokin, Koiupanká, Karuazu, Kalankó, Pankararu, Fulni-ô, Xucuru-Kariri, Pankaiuká, Tuxá, Pipipã, Kambiwá, Kapinawá, Xukuru, Pankará, Tupan, Truká, Pankararé, Kantaruré, Atikum, Tumbalalá, Pankararu, Kiriri, Xacriabá, Kaxixó e Pataxó, com população aproximada de 70.000 indígenas. O Rio São Francisco para esses povos é de vital importância para a sua sobrevivência física e cultural, tanto para o modo de produção para a continuidade de seus rituais e cultura. No entanto, o governo ignora todo esse contexto e principalmente o grito de repúdio dessas pessoas indígenas e não indígenas e decidiu autorizar as obras de implantação do projeto, violando o direito à consulta prévia. No Brasil, a Convenção 169 da OIT não é respeitada e por isso não se aplica um exemplo de violação é o fato que ocorreu em 2011 quando a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) pediu ao governo brasileiro para suspender o processo de licenciamento e construção de Belo Monte enquanto não devidamente consultado os povos indígenas interessados.", trecho da Carta da APIB ás Nações Unidas.

O ancião Felix Brisuela do Povo Guarani, da Aldeia Ará Rovy Re em Itaipuaçu, no município de Maricá no Rio de Janeiro. É um dos que cura o personagem em um belo ritual para que o espirito volte para o corpo. Foto: Inácio Moraes/Gshow

Em 2011 uma carta de mulheres indígenas foi enviada para Dilma Roussef :"Nós, mulheres indígenas representantes de 36 povos dos Estados do Ceará, Paraíba, Rio Grande de Norte, Alagoas, Pernambuco, Bahia, Piauí, Minas Gerais e Espirito Santo, nos reunimos na aldeia Tuxá de Rodelas de 27 à 30 de março 2011, por ocasião da II Assembléia das Mulheres Guerreiras Indígenas da APOINME, para discutir temáticas que afetam nossas vidas , nossas comunidades e nossos territórios sagrados. 

Discutimos nesses dias as várias formas de agressão a nossos territórios indígenas como a Transposição do Rio São Francisco, a ferrovia Transnordestina, as barragens de Pedra Branca e Riacho Seco, a usina nuclear de Itacuruba e outras grandes obras do PAC. Manifestamos nossa profunda preocupação relacionada com o desrespeito sistemático dos nossos direitos territoriais reconhecidos tanto pela Carta Magna desse país como em tratados e convenções internacionais.

Denunciamos os sucessivos desrespeitos aos nossos direitos e discordamos desse modelo do “desenvolvimento a qualquer custo”, que coloca o lucro acima de tudo e de nossas próprias vidas e da vida de nossa mãe natureza. O planeta inteiro já está sofrendo as conseqüências da exploração intensiva e desmedida dos recursos naturais. Por isso, assistimos a catástrofes mundiais, muito nos assusta a recente tragédia nuclear vivida pelos japoneses e por isso não vamos aceitar uma usina nuclear em Itacuruba impactando nossos territórios e nosso velho Chico. Persistimos na defesa das alternativas de convivência com o Semi-árido e da produção energética alternativa.

Além disso, já estamos sofrendo com as conseqüências das obras da transposição e da transnordestina em nossas cidades e comunidades, que tem graves impactos sociais como a prostituição, inclusive infantil, a introdução do crack no sertão, a desestruturação da cadeia produtiva na agricultura, entre outros, sem contar com a invasão dos territórios indígenas e a agressão ao rio São Francisco.

Estamos cientes que a demora na demarcação dos territórios indígenas abre brechas para a implementação das grandes obras de grave impacto sócio-ambiental, desconsiderando nossos direitos territoriais.

Portanto exigimos a demarcação imediata de nossos territórios e o respeito dos direitos de viver livremente e segundo nossos usos, costumes e tradições.
Condenamos qualquer grande obra e empreendimento governamental que fere nossa mãe terra e prejudica nossas formas de vida nos aspectos econômicos, ambientais, culturais, sociais e espirituais.

As mulheres indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espirito Santo estão unidas na defesa de nossa mãe terra e de nossos direitos indígenas, porque o que afeta um dos povos afeta todos nós e o Brasil inteiro, e por isso sempre lutaremos."

A luta em defesa do Velho Chico é grande e seu futuro incerto, as obras já iniciadas e quase finalizadas em alguns trechos assustam as comunidades.


Redação Yandê
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