Abertura dos Jogos Olímpicos Rio 2016 e a diversidade indígena invisível

06 AGO 2016
06 de Agosto de 2016
A cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos Rio 2016 não ousou quando depois de mostrar toda beleza da natureza, colocou indígenas vivendo apenas em "Pindorama" e deixando de existir no Brasil com a chegada de estrangeiros. Ela foi dirigida por Fernando Meirelles, Andrucha Waddington, Daniela Thomas e Rosa Magalhães, com produção executiva de Abel Gomes, sendo apenas uma síntese da cultura popular brasileira. O estádio do Maracaña, nome Tupi que faz referência aos papagaios desta espécie que eram muito encontrados na região, foi palco da celebração.

Foi uma narrativa clichê não diferente da encontrada em livros narrados pela perspectiva eurocêntrica. Pindorama e toda sua gente some no nascimento do Brasil, dando lugar aos povos de outros países que ajudam com grande parte da sua mão de obra escrava. Indígenas são excluídos deste processo de desenvolvimento do país, como se não tivessem participado de todas as mudanças que ocorreram junto de todos os outros.

Dançarinos de Parintins fizeram uma coreografia que segundo algumas declarações feitas na imprensa antes dos jogos, seria para representar a presença Tupinambá, um dos primeiros povos contactados pelos portugueses na chegada ao continente, com detalhes da cerimonia mantidos em segredo até o último momento. Esses bailarinos foram escolhidos por causa deste detalhe étnico de possuírem sangue indígena nas veias, como o coreógrafo Erick Beltrão, todos de Parintins no Amazonas. Eles fizeram uma apresentação belíssima, pois são excelentes profissionais da área, e não tiveram culpa da narrativa seguir o curso que seguiu, pareceu uma coreografia mais inspirada na cultura indígena encontrada no Parque Indígena do Xingu em Mato Grosso. Não foi dado espaço para a diversidade étnica cultural indígena brasileira, que poderia ter sido representada. Os fios e teias que puxaram em suas mãos lembrando tecelagem, nos fazem lembrar de um belo pensamento do indígena Moura Tukano, falecido em 2014 : "Não somos donos da teia da vida, mas um de seus fios".

O comentarista da Rádio Yandê, Idjahure Kadiwel participou do programa Today in Rio realizado pela BBC London Sport, a convite da emissora. Ele fez comentários sobre o evento nesta sexta-feira (5), as 22h, junto dos outros comentaristas da BBC London Sport.

A representação feita é apenas uma obra artística, ela possui liberdade para trazer o olhar de seus diretores e responsáveis. Infelizmente em um país de 305 povos ainda somos representados como meros "índios'' que somem depois de Pindorama. Não vemos os conflitos que ocorrem na defesa da demarcação de terras indígenas, as vítimas da expansão do agronegócio, morte do Rio Doce em Minas, o choro e verdade da vida de milhões de brasileiros. O apelo feito pela preservação da natureza, problemas do aquecimento global, em uma intenção de deixar uma boa mensagem para as futuras gerações, ignorou coisas graves que ocorrem dentro do próprio Brasil. 


Redação Yandê
Voltar

© 2013 - 2015 YANDÊ - A rádio de todos. Todos os direitos reservados