Transgêneros indígenas e os tabus europeus

15 JUL 2016
15 de Julho de 2016














Squaw Jim do Povo Crow , vestido como mulher, e sua esposa. Atribuída como primeira foto de um duplo espirito. Famoso pelo salvamento de um colega na "Batalha de Rosebud", em 1876.

A foto é de John H. Fouch no ano de 1877.

A diversidade das culturas indígenas também envolve diferentes conceitos e visões sobre os gêneros masculino e feminino. Algumas etnias possuem crenças específicas sobre transgêneros, homossexualidade ou bissexualidade.Para alguns povos existem indivíduos que deixam de possuir um gênero definido e até mesmo podem abrigar espíritos de ambos os sexos em um corpo apenas. 

O assunto parece tabu para algumas sociedades mas é perfeitamente natural para essas culturas, embora não seja um tema amplamente abordado, durante muitos anos foi observado em diferentes regiões da América, sendo anteriores a colonização no território americano.

Cada povo norte-americano tem sua forma de descrever essas pessoas, entre os Navajo eles chamam de Nádleehí "Aquele que foi transformado", para os Lakota é Winkté que seria um homem com compulsão de se comportar como mulher, já os Ojibwe é Niizh Manidoowag "Dois espíritos",  enquanto que os Cheyenne seria Hemaneh "aqueles que são meio homem, meio mulher". No ano de 1989 algumas comunidades indígenas com grupos LGBT passaram adotar o termo dois espíritos. 

Relatos de diferentes autores sobre Indígenas norteamericanos que se vestiam de forma feminina ou até mesmo casamento de pessoas do mesmo sexo foram comuns dentre os séculos. Registros fotográficos e histórias orais revelam que isso era visto de forma negativa pelos colonizadores ou religiosos, que puniram muitos por preconceito e desconhecimento. Modificando com costumes cristãos o comportamento de alguns povos em relação a isso.








Um dos mais famosos Dois espíritos foi We'wha (1849-1896), da nação Zuni.

“Employments of the Hermaphrodites,” gravura baseada em uma aguarela por Jacques Le Moyne (Arquivo do Estado da Flórida, Florida Memory)


O explorador Vasco Núñez de Balboa em 1594 no Panamá, encontrou homossexuais entre as lideranças indígenas e ordenou que esses duplo-espíritos fossem jogados aos cachorros sendo comidos vivos. No início de 1900 já não se falava dos diferentes gênero entre alguns povos indígenas apesar da documentação e contos orais sobre o tema, a influencia do preconceito dos europeus tinha dominado a maioria das comunidades.

O Coronel Barnwell em 1712 atacou os Tuscaroras na Carolina do Norte e suas tropas ficaram surpreendidas ao descobrir que os guerreiros Tuscarora eram mulheres, um costume de alguns era colocar duplo-espíritos na linha de frente das batalhas, os inimigos ficavam assustados e não compreendiam. Entre os Mojave, freqüentemente os xamãs são duplo espirito. Aquele que é capaz de ver o mundo através dos olhos de ambos os sexos possuiria para esses povos um dom, ocupando cargos de grande respeito em suas comunidades. As mulheres de duplo espirito geralmente eram grandes guerreiras. Dentro da cultura Lakota no passado era ofensivo obrigar um duplo-espírito executar o papel tradicional do seu sexo biológico.


No Brasil algumas etnias indígenas também possuem nomes e casamentos para o relacionamento de pessoas do mesmo sexo. Mulheres com preferencias sexuais por mulheres eram chamadas de çacoaimbeguira e homens, tibira pelos Tupinambá. Muitas referências foram descritas no Tratado Descritivo do Brasil em 1587.

O antropólogo Darcy Ribeiro falou em algumas de suas pesquisas sobre a figura do kudina, aceita, respeitada e integrada e a liberdade existente entre os Kadiweu. No Diários Índios: os Urubus-Kaapor de 1996 ele descreve o comportamento de outra etnia:

"...Os casais são afetuosos, andam quase sempre juntos e, não raro, se acariciando – no cafuné e nas bolinas. As conversas eróticas são comuns, delas participam pessoas de todos os sexos e idades. Devem agir como estimulantes, além de fumo, que os embriaga do modo como usam os charrutos –
aspirando fortemente e retendo a fumaça no peito - ,e das bebidas fermentadas que dão lugar a orgias."

A repressão começou com missionários cristãos nas comunidades que julgavam como pecado e errado as diferentes formas de sexualidade. Sendo motivo para punições até mesmo como a morte ou expulsão de suas aldeias. Hoje são aceitos por algumas comunidades mas existem divergências na visão de cada um sobre o assunto principalmente pela influencia do pensamento cristão.


Redação Yandê

Referências: 
Two Spirits, One Heart, Five Genders
Read more at http://indiancountrytodaymedianetwork.com/2016/01/23/two-spirits-one-heart-five-genders

Two-spirit Native Americans bridge genders on Columbus Day
http://jesusinlove.blogspot.com.br/2014/10/two-spirit-native-american-remembered.html

Native American TwoSpirits 
at National Historic Sites 
Will Roscoe, Ph.D.
July 20, 2014. 
http://www.willsworld.org/Roscoe-2SpiritAtNationalHistoricSites.pdf

Práticas sexuais e homossexualidade entre os indígenas brasileiros,
Aguinaldo Rodrigues Gomes e Sandra Nara da Silva Novais.
http://www.seer.ufu.br/index.php/neguem/article/viewFile/24666/13726
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