Que paradoxo: Eles dizem ter filosofia, nós unicamente cosmovisão

24 MAI 2016
24 de Maio de 2016
Por Ollantay Itzamná 


Na retórica da intelectualidade presume-se que os povos indígenas ou originários de Abya Yala, e do resto do mundo, temos unicamente cosmovisão e o ocidente filosofia.

É muito comum ouvir indígenas (profissionais ou não) repetir com um ar de orgulho sobre a cosmovisão de seus povos, como a mais alta construção intelectual e espiritual de seus ancestrais. Mas você sabe por que e quem cunhou o conceito de cosmovisão ? Será que eles sabem que, assumindo, aproveitando tal construção "naturalizam" o racismo integral que nos causa danos ? 

Segundo Dilthey, Schelling, Heidegger, Kierkegaard, Hegel, entre outros, a cosmovisão é a forma primaria (pré-teórica) de ordenar e explicar o mundo, feito por um grupo cultural, sem muita abstração teórica. A filosofia, é a explicação profunda e ampla da realidade total. É a abstração teórica e metafísica para responder as perguntas transcendentais que inquietam a humanidade.

Por isso Heidegger, no inicio do século XX, disse: “A cosmovisão expõem fenômenos fora da filosofia”. E no maior dos casos, a cosmovisão formaria parte do fazer filosófico primário para tentar responder, de maneira limitada, às preocupações humanas.

Está claro que a cosmovisão segundo seus criadores, não tem categoria de filosofia por ser um "esforço" elemental. É dizer, os povos atrasados ou inferiores tem cosmovisão (visão mágica de sua realidade). Os povos avançados ou superiores constroem filosofia (contam com a razão e a vontade para teorizar e abstrair a realidade)

Por que os alemães criaram esta ideia no final do século XIX? No fundo com a finalidade de justificar o que Hegel e outros já haviam afirmado antes: “A suposta superioridade mental, espiritual e cultural deles sobre o resto dos povos”. Ali se assume que eles, por estar habitados por um espírito humano superior, tem filosofia, e o resto (povos inferiores/atrasados) temos unicamente cosmovisão. 

Nas faculdades de filosofia ocidental se ensina que a sociogênese da filosofia se encontra nos povos gregos do seculo IV AC. Estes povos de navegantes, rodeados de águas marinhas, registraram perguntas e respostas a suas inquietudes existenciais (condicionados por sua época, geografia e outras circunstancias), e os europeus os assumiram como a base de sua civilização.

Desde então, a academia ocidental, e aqueles que se esforçam para ser reconhecidos como acadêmicos, divulgam as perguntas e respostas dos gregos do século IV aC. como a única verdade filosófica universal, capaz de explicar e organizar a realidade.

É importante notar que os escritos gregos, phylosophia (amor à sabedoria), construída pelas comunidades, sob a orientação dos sábios, tinha uma perspectiva abrangente/holística da realidade. Poesia, mitologia, Teogonía, matemática, astronomia, ética, política, metafísica, etc., constituíam a dita filosofia. 

Foi durante o tempo que a Europa selecionou apenas as "teorias abstratas" e da filosofia grega, e censurou o resto dos documentos como mera "literatura". Lá nasceu a racionalidade linear e fragmentada, que, logo em seguida, da origem a  "razão linear"ocidental. Ou seja, a filosofia como nós a conhecemos atualmente. Os gregos nunca imaginaram naquela época a universalização do seu pensamento.


Nós povos indígenas temos filosofias, não cosmovisões. Mayas, aztecas, chipchas, quechuas, aymaras, guaraníes, mapuches, etc., temos as nossas próprias filosofias que compreendemos e explicamos as nossas realidades. E existem tantas filosofias como povos ou civilização coexistimos no planeta.

Quem supor que existe uma filosofia única (ocidental) e cosmovisões simplesmente externar o racismo mental e espiritual que habita. E se algum pensamento aborígene ou indoméstico assume o pensamento/ espiritualidade/ritualidade de seus ancestrais como cosmovisão por ignorância ou por má formação, padece de reproduzir a colonialidade do saber e poder ocidental


Ocidente, tentou impor seu pensamento como a filosofia universal. E que esse pensamento moderno "superior" no prazo de três séculos devastou e devasta ciclos de vida, e até mesmo a capacidade de regeneração e autoclimatização de nossa Mãe Terra.

Como isso ocorre, nós e outros desprezando o nosso: assumindo que eles têm FILOSOFIA, nós só cosmovisão. ELES TÊM ARTE, nós unicamente artesanato. ELES, RELIGIÃO, nós apenas crenças. Que eles FALAM IDIOMAS, nós apenas línguas. Que eles têm CULTURA, nós apenas tradições. E assim por diante seguem além os desapreços semânticos "naturalizados".



Tradução Redação Yandê
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