O redescobrimento do Brasil

08 ABR 2016
08 de Abril de 2016
Nos últimos anos tenho viajado muito. E em cada lugar posso dizer que ganho uma experiência nova para registrar. Por estar num ritmo sempre muito acelerado, o que é muito comum nas grandes cidades, a gente as vezes não percebe quando está sendo observado e as coisas acontecem quando menos esperamos.
Ah, isso que escrevi é uma grande mentira. Eu já espero tudo o que menos imagino, principalmente quando se relaciona à questão indígena, afinal, minha cara de índia me denúncia a qualquer momento e em qualquer lugar. Talvez o corpo magrinho, o cabelão e a aparência de pouca idade também chamem a atenção.

E foi mais ou menos assim que aconteceu. No aeroporto, chego ao guichê para realizar o Check in. Como de hábito encontro sempre jovens, meninos e meninas todos bonitos e bem alinhados, com um sorriso elegante no rosto. Parecem não passar dos trinta anos. Resplandecem uma jovialidade inconfundível. A simpatia e a educação também são as marcas registradas das pessoas que estão nesse local. A atendente, uma moça que aparenta ser bem nova e com olhos azuis imensos e destacados pela maquiagem, executa a ação num ar de calmaria, cumprindo o protocolo de atendimento até olhar meu pescoço. Arregala o olho no colar feito com dentes de macaco.

Assustada, quase em pânico pergunta, do que era aquele colar. Respondo séria sem dar muita atenção, mexendo em alguns papéis: - 'macaco'. Confesso que não vi nada de anormal, pois uso esse colar há muito tempo. Recordo sempre que minha mãe conta que quando morava na aldeia dos indígenas Umutina, pediu que fizessem um colar para mim, com um pequeno dente de macaco. Era o meu colar de criança. Aquele foi um momento um tanto estranho. A atendente desesperadamente chama os outros colegas e diz: 'Dente de macaco, dente de macaco!' Pelo desespero, realmente eu não sabia se corria, ficava ali parada expondo o pescoço como uma vitrine de loja, satisfazendo o desejo do público de tocar um dente de macaco, afinal não se encontram macacos todos os dias, quem dirá o dente fora do macaco?

Me senti o zoológico ambulante, em exposição para jovens de uma grande cidade. Paciência. Apenas seguiriam sua rotina ao findar do meu chek in e quem sabe comentariam para um amigo, namorado, pai, mãe e irmãos que viram um “índio” ao vivo.

Voltei para o Chek in e não tardou veio a clássica pergunta: Você é índia? Sim, a clássica pergunta foi acompanhada de uma outra. 'Achei que esses eram seus dentes de leite'. Nesse momento fui lá no fundo das minhas memórias, relembrar as aulas de ciências, corpo humano e vagamente contar quantos dentes de leite perdi ao longo da infância. Não, não seria possível aqueles mais de 32 dentes do colar serem meus dentes de leite. Deixei a observação passar despercebida, afinal não era hora nem ânimo para explicações que poderiam até ofender a pessoa que perguntou.

Continuei ali, me sentindo o próprio macaco do zoológico. Mais perguntas vieram então; 'Por que você não usa mais bijuterias que índio usa? É tão bonito, feito de pau, pedra...' bom, agora fui buscar o 'Aurélio' para entender de que bijuterias eles falavam. Talvez não fosse também o momento de falar sobre a diferença entre artesanatos, artefatos e bijuterias.

Consegui por muito tempo manter o sorriso no rosto, como nunca é de costume. Mas continuei indagando ainda por que eu ficaria brava com aquele grupo de pessoas que embora demonstrassem surpresa, achavam graça, eram movidos pela ingenuidade e desinformação sobre o assunto.
O Checkin parecia nunca terminar!

Deveria ser por que eu podia iniciar uma aula de história e cultura indígena. Que mal faria, afinal eram todos jovens atendentes e comissários que estavam cheios de curiosidades. Respondia vagamente as questões que me fazia a jovenzinha do atendimento.

Ela queria saber de onde eu vinha, para onde ia, o que fazia e o que estava fazendo ali. Ao falar a palavra trabalho, novamente ela interrompeu o procedimento e me olhou com um olhão azul arregalado, dizendo: 'Índio Trabalha? Não sabia!' É essa para mim também foi uma grande novidade. E estava esperando ela me perguntar se índio estudava, dormia ou comia gente. Mas esse momento não chegou. Ela me entregou o bilhete de embarque e eu segui a caminho do portão. Deixei para trás um pequeno grupo de jovens acenando e sorrindo alegremente para mim. Novamente me vieram diversas lembranças e pensei nos colonizadores quando chegaram ao país. Talvez não tivessem sorrido tanto como fizeram os jovens no aeroporto. Realmente ali naquele momento, aqueles jovenzinhos estavam literalmente redescobrindo (ou descobrindo?) o Brasil.

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