Dependência colonial, ideológica, espiritual e psicológica, até quando Brasil colônia?  

12 DEZ 2015
12 de Dezembro de 2015
Muito se fala em dar voz e espaço ao indígena, mas até quando é conquistado esse direito surgem interlocutores, facilitadores, especialistas e muitos outros, para segurar o microfone dessa interlocução. 

A palavra dependência com origem no latim, é encontrada na maioria dos dicionários de língua portuguesa, eles costumam traduzir como um estado de sujeição, subordinação, falta de autonomia, maturidade e independência.

Algumas associações, projetos ou organizações indígenas, administradas pelos não indígenas que impõem sua forma de trabalhar e pensar ainda são motivos de reflexão sobre até que ponto foram rompidas as correntes de pensamento e práticas coloniais. Benfeitores se espalham por todos os lados, áreas e segmentos da sociedade, com o discurso de prestar auxilio aos povos indígenas mantendo a politica indigenista e não indígena. Muitos, imbuídos de boas intenções, mas acostumados com a postura etnocêntrica, reproduzindo um paternalismo dominante que não ajuda na conquista de um protagonismo real indígena. Contribuindo para situações de comodismo, aonde muitos acabam aceitando a posição de dominados. Ser autossuficiente é o grande desafio quando braços de tutela cercam por todos os lados.

No fragmento de uma música da banda Oriente, é ironizada a relação do Brasil atual com o colonial: 

"Capitania hereditária, vendendo a Amazônia
Que vergonha pátria amada, até quando Brasil colônia?".

As missões jesuíticas são lembradas pela catequização como forma de dominação de diferentes grupos indígenas na América, fazendo o trabalho de os controlar e educar conforme as crenças cristãs. Essa estratégia missionária ainda é reproduzida, podemos observar que muita gente ainda age da mesma forma. Direitos foram conquistados, mas formas de conduzir a questão indígena ainda estão aprisionadas nessas antigas práticas, que podem ser vistas nas relações sociais e profissionais. A dependência social os mantem reféns daqueles que prestam auxilio as suas comunidades ou causas, dificultando a autonomia e desenvolvimento. No fogo cruzado de disputas políticas e ideológicas, também é vista muita pressão psicológica. Sentimentos de inferioridade e impotência são alimentados por causa das ações com o objetivo de controlar o indígena, eles fazem parte do relacionamento com o não indígena. 

O novo presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL),  professor e escritor Domício Proença Filho, em um trecho de uma declaração pública afirmou: "Eu não fui cota. Academia não me elegeu por eu ser um negro escritor”.

Quando o indígena ocupa cargos de destaque, espaços políticos, conquista títulos acadêmicos, possui profissão, não muda a visão e comportamento das pessoas, em sempre olhar o ''índio'' e não aquele ser humano capaz como todos os outros. Mas o ''índio'' que conquistou por mérito ou não tal posição. Ser ''índio" nome inventado pelo colonizador, que nada tem a ver com ser indígena mas sim ser visto ainda como inferior na sociedade ocidental, alguém que precisa sempre de auxilio para viver, chegar a algum lugar ou decidir o que fazer. Aqueles que precisam ser salvos ou mortos, homenageados ou humilhados, por serem diferentes e de culturas que o mundo chamado civilizado tenta decifrar, em um estado de constante encantamento ou repulsa. É o encanto e o medo, daquilo que desconhecem pela diferença.

Por Renata Tupinambá
Coordenação de Comunicação Yandê

















Pintura de 1872 chamada "American Progress", do pintor John Gast. Uma mulher branca flutua nas planícies americanas, ela carrega um livro, na sua testa a estrela do império, colonos brancos a seguem, indígenas e animais fogem. 

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