Ouvindo o Conselho dos Anciões

27 AGO 2015
27 de Agosto de 2015














FOTO: Piutr Jaxa, antigo habitante de Pari-Cachoeira, no Uaupés, e que atualmente vive na Terra Indígena Balaio. Foto: Piort Jaxa, 1993.

“Nascemos com dois ouvidos e uma boca para ouvir o dobro e falar a metade com sabedoria” - proverbio indígena.

A luta indígena é pelo direito a sermos nós mesmos na terra que nos viu nascer. A história de nossa resistência começou no momento em que outro povo pisou nesta terra e impós sua cultura de forma violenta, iniciando o genocídio que não cessou até hoje. Como povos originários nossas culturas são milenares: as nações indígenas são mais antigas que a invenção dos países modernos, portanto nossa história não se limita à colonização, mas encara a colonização e a porterior “globalização” contra um duro e ininterrupto processo de genocídio.Se hoje nossos povos ainda resistem mesmo que com sua população diminuída é pela resistência cultural; a manutenção de nosso modo de vida tradicional, e a passagem dos conhecimentos ancestrais de geração em geração: idiomas, cantos, alimentos, saberes sagrados, vestimentas e relações sociais.

Nossa sobrevivência depende da transmissão do saber indígena de uma geração para a outra além de se munir da cultura do colonizador para fazê-lo entender que temos o direito de sermos diferentes. Não é o fato de nossas culturas serem antigas que nos impede de ser contemporâneos, na verdade enfrentamos o desafio de para poder sobreviver, dever fazê-lo em dois mundos: ser bilíngues em países que não reconhecem as línguas da própria terra, precisamos entender a burocracia e as leis que os colonizadores “globalizaram” no mundo, e lutar ara que a democracia nos contemple.

A resistência indígena se transformou em movimento a quando nos tornamos reféns da necessidade de argumentar na língua do branco sobre nossos direitos fundamentais, então nos vimos forçados a resistir ao assassinato, à escravidão, à criminalização, à catequização, à imposição de valores culturais que não são necessariamente os nossos. Para isso precisamos por muito tempo estudar e aprender como era essa outra cultura na esperança de proteger nossa própria.

Nossos tataravós eram resistentes fugitivos, nossos tataravós eram escravos, nossos bisavós foram trancados em internatos missionários, nossos pais foram perseguidos, ainda hoje somos ameaçados diariamente de morte pela construção de supostos “progresso” e “civilização”. A história da violência contra nossos povos é profunda e estrutural: grotescamente em certos níveis, discreta e sutil em outros e geralmente desumana, pois os povos indígenas continuam sendo invisibilizados e colocados à margem da construção da sociedade contemporânea.

Nosso direito à memória e à verdade é desrespeitado por uma história escrita pelo colonizador, que faz um relato tendencioso, mas o encontro de dois povos sempre terá dois pontos de vista diferentes e lutamos para poder dizer sem pudores que fomos e continuamos sendo invadidos, assassinados, violentados, marginalizados e invisibilizados.

Construir os movimentos indígenas foi um desafio ímpar neste continente, pois é difícil se comunicar com os pares no meio à uma guerra. No Brasil, foi sobrevivendo à ditadura - e à violência documentada em parte no Relatório Figueiredo – que lideranças hoje anciãs conseguiram se articular para lutar pelos direitos de todos os povos: Os jovens caciques daquele tempo deixavam claro ao governo e ao mundo que as dificuldades e a luta são uma só. Foi nesse contexto que nasceu no Brasil a União das Nações Indígenas - UNIND, que introduziu o movimento indígena às pautas políticas do governo brasileiro.

Durante o processo de redemocratização lideranças brasileiras conseguiram pela primeira vez alcançar os espaços internacionais e fazer da questão indígena uma pauta global. Essa é uma das maiores contribuições de nossos líderes históricos Raoni Kaiapó, Mário Juruna, Aílton Krenak, Álvaro Tukano, Pirakuman e Aritana Yawalapity, Megaron Txucaramãe, Takuman Kamaiurá,, Davi Kopenawa Yanomami, entre outros líderes que conquistaram apoiadores cruciais como Darcy Ribeiro, os irmãos Villas Boas e outros que colaboraram a fazer com que o mundo não conseguisse mais negar a presença dos povos originários. Foi construído durante esse período o fortalecimento de uma articulação nacional no brasil e nos demais países, assim como a criação de diversas organizações internacionais, regionais e continentais que hoje culminam na ONU.

Foi essa geração de líderes indígenas que junto à outras lideranças das “minorias” como o movimento negro (destaca-se o apoio de Martin Luther King, Muhaammad Ali e outros em apoio à causa indígena) que a discussão sobre o que são Direitos Humanos alcançou uma amplitude inédita: o legado dos oprimidos na construção de leis, constituições e tratados internacionais ensinaram ao mundo como se constrói democracia, e como o respeito da diversidade é fundamental para a convivência humana, seja ela de cultura, raça gênero ou religião.

Hoje nosso desafio é fazer com que essas leis sejam cumpridas. O movimento Indígena é dinâmico e enfrenta o desafio de abraçar sua base: uma diversidade de povos, línguas e culturas diferentes e todos indígenas. Hoje a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil – APIB – encara um novo momento histórico, caminhando para a ampliação da democracia dentro do movimento indígena, mantendo como pauta principal a exigência dos direitos adquiridos. Tarefa dificultada pelo contexto político em crise onde do modelo capitalista de consumo explora os recursos naturais sem considerar os impactos ambientais e sociais. O movimento indígena se posiciona hoje como uma necessidade global para a sobrevivência da humanidade, levantando a bandeira de um relacionamento com o planeta com respeito ao meio ambiente e à diversidade cultural.

Os processos políticos são a expressão da complexidade humana: toda história é recheada de erros e acertos, tentativas com muitas falhas e poucos acertos, hoje não é diferente. O tempo é inevitável e é importante conhecermos nossa história para refletir sobre as estratégias da trilha a seguir: hoje os guerreiros da democratização são anciões e ainda que enfrentando o cansaço físico, os que restam se mantém firmes na luta.

Os jovens devemos nos sentir privilegiados quando um desses guerreiros do alto de seus cem, oitenta ou sessenta anos nos presenteia com um pouco de suas palavras, para poder reconhecer em seus discursos que a fala central é a paz e o respeito à vida. Depois de vidas tão intensas, o maior legado desses guerreiros é sua presença de espírito; quando fazem a escolha política de falar em sua língua originária, fazer um canto sagrado, vestir suas pinturas e cocares nos mostram com o exemplo que para sobreviver precisamos de duas coisas: terra e tradição.

Os anciões gostam de ver as crianças nascer e de cantar para elas porque sabem que alí está a semente de nossa identidade, cultura e luta. Lutaram muito para preparar a geração que hoje passa a conduzir o movimento e a resistência indígena, foi um trabalho cansativo, e já que um dia todos nós voltremos ao grande espírito e à mãe terra, a melhor forma de agradecer por essa luta é dedicando a eles nossa reverencia, respeito, cuidado, carinho e ouvidos.

- Em homenagem ao meu avô Casimiro Akito Tukano, hoje com 105 anos, e in memoriam a Pirakuman Yawalapity, grande líder e amado filho, irmão, pai e tio.

Daiara Tukano
Correspondente Yandê
Voltar

© 2013 - 2015 YANDÊ - A rádio de todos. Todos os direitos reservados