8 Histórias de diferentes etnias indígenas

03 AGO 2015
03 de Agosto de 2015




















Desenho: Isaka huni kuin

A equipe da Rádio Yandê escolheu diferentes histórias sobre a criação segundo alguns povos indígenas. Muitos relatos fazem parte de narrativas orais recolhidas por pesquisadores ou escritores em diferentes épocas. Algumas foram traduzidas para o português, o que faz com que algumas palavras que não existem em determinados idiomas, acabem sendo usadas para traduzir. Também sofrendo modificações de sentido de acordo com a visão de quem as escreve ou narra. Conhecidas como mitológicas pela concepção ocidental, essas histórias são repassadas de forma oral por professores, anciões ou familiares. 


1 - Txopai Itohã

Povo Pataxó

"Antigamente, na terra, só existiam bichos e
passarinhos, macaco, caititu, veado, tamanduá, anta,
onça, capivara, cutia, paca, tatu, sariguê, teiú...
cachichó, cágado, quati, mutum, tururim. Jacu,
papagaio, aracuã, macuco, gavião, mãe-da-lua e
muitos outros passarinhos.
Naquele tempo, tudo era alegria. Os bichos e
passarinhos viviam numa grande união.
Cada raça de bicho e passarinho era diferente, tinha
seu próprio jeito de viver a vida.
Um dia, no azul do céu, formou-se uma grande
nuvem branca, que logo se transformou em chuva e
caiu sobre a terra. A chuva estava terminando e o
último pingo de água que caiu se transformou em um
índio.
O índio pisou na terra, começou a olhar as florestas,
os pássaros que passavam voando, a água que
caminhava com serenidade, os animais que andavam
livremente e ficou fascinado com a beleza que estava
vendo ao seu redor.
Ele trouxe consigo muitas sabedorias sobre a terra.
Conhecia a época boa de plantar, de pescar, de caçar e
as ervas boas para fazer remédios e seus rituais.
Depois de sua chegada na terra, passou a caçar,
plantar, pescar e cuidar da natureza.
A vida do índio era muito divertida e saudável. Ele
adorava olhar o entardecer, as noites de lua e o
amanhecer.
Durante o dia, o sol iluminava seu caminho e aquecia
seu corpo. Durante a noite, a lua e as estrelas
iluminavam e faziam suas noites mais alegres e
bonitas. Quando era à tardinha, apanhava lenha,
acendia uma fogueirinha e ficava ali olhando o céu
todo estrelado. Pela madrugada, acordava e ficava
esperando clarear para receber o novo dia que estava
chegando. Quando o sol apontava no céu, o índio 
começava o seu trabalho e assim ia levando sua vida,
trabalhando e aprendendo todos os segredos da terra.
Um dia, o índio estava fazendo ritual. Enxergou
uma grande chuva. Cada pingo de chuva ia se
transformar em índio.
No dia marcado, a chuva caiu. Depois que a chuva
parou de cair, os índios estavam por todos os lados.
O índio reuniu os outros e falou:
-- Olha parentes, eu cheguei aqui muito antes de
vocês, mas agora tenho que partir.
Os índios perguntaram:
-- Pra onde você vai?
O índio respondeu:
-- Eu tenho que ir morar lá em cima no ITOHÃ,
porque tenho que proteger vocês.
Os índios ficaram um pouco tristes, mas depois
concordaram.
-- Tá bom, parente, pode seguir sua viagem, mas não
se esqueça do nosso povo.
Depois que o índio ensinou todas as sabedorias e
segredos, falou:
-- O meu nome é TXOPAI.
De repente o índio se despediu dando um salto, e foi
subindo... subindo... até que desapareceu no azul do
céu, e foi morar lá em cima no ITOHÃ.
Daquele dia em diante, os índios começaram sua
caminhada aqui na terra, trabalhando, caçando,
pescando, fazendo festas e assim surgiu a nação
pataxó. Pataxó é água da chuva batendo na terra, nas
pedras, indo embora para o rio e o mar. 

Narrado por Apinhaera Pataxó (Sijanete dos Santos Brás) e escrito por Kanátio
(Salvino dos Santos Brás), texto impresso e divulgado em livro. 


2 - Como a Noite Apareceu "Mai Pituna Oiuquau Ãna"

Tupi Guarani

No princípio não havia noite; dia somente havia em todo tempo. A noite estava adormecida no fundo das águas. Não havia animais; todas as coisas falavam.
A filha da Cobra Grande, contam, casara-se com um moço.
Este moço tinha três fâmulos fiéis. Um dia ele chamou os três fâmulos e lhes disse: - Ide passear, porque minha mulher não quer dormir comigo.
Os fâmulos foram-se, e então ele chamou sua mulher para dormir com ele. A filha da Cobra Grande respondeu-lhe:
- Ainda não é noite.
O moço disse-lhe: - Não há noite, somente há dia.
A moça falou: - Meu pai tem noite. Se queres dormir comigo, manda buscá-la lá, pelo grande rio.
O moço chamou os três fâmulos; a moça mandou-os à casa de seu pai para trazerem um caroço de tucumã.
Os fâmulos foram, chegaram à casa da Cobra Grande, esta lhes entregou um caroço de tucumã muito bem fechado, e disse-lhes: -  Aqui está; levai-o. Eia! não o abrais, senão todas as coisas se perderão.
Os fâmulos foram-se, estavam ouvindo barulho dentro do coco de tucumã, assim: tem, ten, ten... xi... (*) era o barulho dos grilos e dos sapinhos que cantam de noite.
Quando já estavam longe, um dos fâmulos disse a seus companheiros: - Vamos ver que barulho será este?
O piloto disse: - Não, do contrário nos perderemos. Vamos embora, eia, rema!
 Eles foram-se e continuaram a ouvir aquele barulho dentro do coco de tucumã e não sabiam que barulho era.Quando já estavam muito longe, ajuntaram-se no meio da canoa, acenderam fogo, derreteram o breu que fechava o coco e o abriram. De repente tudo escureceu.
O piloto então disse: - Nós estamos perdidos; e a moça, em sua casa, já sabe que nós abrimos o coco de tucumã! Eles seguiram viagem.
A moça, em sua casa, disse então a seu marido: - Eles soltaram a noite; vamos esperar a manhã.
Então todas as coisas que estavam espalhadas pelo bosque, se transformaram em animais e em pássaros. As coisas que estavam espalhadas pelo rio, se transformaram em patos e em peixes. Do paneiro gerou-se a onça; o pescador e a sua canoa se transformarão em pato; de sua cabeça nascerão a cabeça e bico do pato; da canoa o corpo do pato; dos remos as pernas do pato.
A filha da Cobra Grande, quando viu a estrela-d’alva, disse a seu marido:
- A madrugada vem rompendo. Vou dividir o dia da noite.
Então ela enrolou um fio, e disse-lhe: - Tu serás cujubim. Assim, ela fez o cujubim; pintou a cabeça do cujubim de branco, com tabatinga; pintou-lhe as pernas de vermelho com urucu, e então disse-lhe: - Cantarás para todo sempre, quando a manhã vier raiando.
Ela enrolou o fio, sacudiu cinza em cima dele, e disse: - Tu serás inambu, para cantar nos diversos tempos da noite, e de madrugada.
De então para cá todos os pássaros cantaram em seus tempos, e de madrugada para alegrar o princípio do dia.
Quando os três fâmulos chegaram, o moço disse-lhes: - Não fostes fiéis; abristes o caroço de tucumã, soltastes a noite e todas as coisas se perderam, e vós também que vos metamorfoseastes em macacos, andareis para todo o sempre pelos galhos dos paus.
(A boca preta, e a risca amarela que eles têm no braço, dizem que é ainda o sinal do breu que fechava o caroço de tucumã, que escorreu sobre eles quando o derreteram.)

Recolhido por Couto Magalhães em O Selvagem (1876)


3 - A criação do povo Terena

Professores da Aldeia Cachoeirinha resumiram, em 1995: "Havia um homem chamado Oreka Yuvakae. Este homem ninguém sabia da sua origem, não tinha pai e nem mãe, era um homem que não era conhecido de ninguém. Ele andava caminhando pelo mundo. Andando num caminho, ouviu grito de passarinho olhando como que com medo para o chão. Este passarinho era bem-te-vi. Este homem, por curiosidade, começou chegar perto. Viu um feixe de capim, e embaixo era um buraco e nele havia uma multidão, eram os povos terenas. Estes homens não se comunicavam e ficavam trêmulos. Aí Oreka Yuvakae, segurando em suas mãos tirou eles todos do buraco.Oreka Yuvekae, preocupado, queria comunicar-se comeles e ele não conseguia. Pensando, ele resolveu convocar vários animais para tentar fazer essas pessoas falarem e ele não conseguia.Finalmente ele convidou o sapo para fazer apresentação na sua frente, o sapo teve sucesso, pois todos esses povos deram gargalhada, a partir daí eles começaram a se comunicar e falaram para Oreka Yuvakae que estavam com muito frio'' (BITTENCOURT, 2000, p. 22/23).

4 - Origem da noite e dos Peixes

Povo Baniwa

Narrador: Marcelino Cândido Lino
Tradutor: Trinho Paiva

"Antigamente, no tempo de Ñapirikoli, o sol ficava no meio do mundo, e a noite
era muito curta, por isso, a esposa de Ñapirikoli dormia pouco e não conseguia
descansar. Um dia ela falou para Ñapirikoli:
- Não será bom você ir lá com o dono da noite, o Dainari? Vai lá com ele pedir
uma noite mais comprida, pois assim poderemos dormir e descansar mais tempo.
Ñapirikoli foi até Dainari e pediu a noite. O Dainari deu um baú para Ñapirikoli
dizendo que nele estava a noite; em seguida, o orientou dizendo que não abrisse o baú
com a noite antes de chegar em seu destino e que chegando lá falasse as seguintes
frases:
- Boa noite, meus avós; boa noite, meus irmãos.
Na fala dos velhos antepassados era assim:
- Attoenawatsara whetakeena watsa wamidzaka yodza papittakalimi noadawtsa
idiaka yookeeta pattalikakomi idiakeena noadawatsa yokeeta pattalikakomi pha newki.
Depois disso, deveria comer e tomar xibé; só então poderia abrir o baú. Dainari
insistiu para ele ter cuidado com o baú e não abrir a caixa no meio do caminho.
- Só quando chegar lá em sua casa, você deverá abrir esse baú.
Ñapirikoli colocou o baú no ombro e partiu. No meio do caminho, ele achou o
baú muito pesado e disse:
- Hei! Isso aqui está muito pesado! Vou ver o que tem aqui dentro.
Quando ele abriu o baú, o sol, que estava bem no centro do céu, desceu para
ficar na altura das árvores; por isso, estava anoitecendo rápido. Ñapirikoli ficou ali, no meio do caminho, sem poder chegar em casa, pois rapidamente tudo escureceu e apareceu a noite; por causa disso, Ñapirikoli chamou Pittiri, que é um morcego branco, para ajudá-lo. Pediu ao Pittiri para ele rodar o mundo inteiro procurando o velho que segurava o fio que prendia a noite. O morcego disse:- Tá, eu vou.
Ñapirikoli fez um cigarro, benzeu e deu para o Pittiri haledakiri levar. Se
alguém fumasse aquele cigarro, iria sentir problema na barriga, pois o cigarro estava
benzido para causar diarréia. Ñapirikoli disse:
- Então, vá lá.
O morcego pegou também um maracá de pajé e voou pelo mundo inteiro, que
estava todo escuro. Ele só foi encontrar o velho que ele procurava onde o sol se põe, no
leste.
O velho estava sentado, segurando um fio, que era o fio da noite. Esse velho era
um tipo de preguiça, que chamamos de wáamo em nossa língua. Quando chegou lá com
o velho, o morcego disse;
- Ei, meu avô, o que você está fazendo?
- Estou segurando esse fio, que é da noite.
- Deixa que eu seguro também, pois o senhor já está muito cansado. Eu vou
segurar esse fio aí.
- Não, você não pode segurar.
O Pittiri pegou um cigarro e fumou; o velho ficou olhando e sentiu vontade de
fumar. O morcego pegou o cigarro que estava atrás de sua orelha e o ofereceu ao velho,
esse era o cigarro que Ñapirikoli havia lhe dado:
- Está aqui, pode fumar.
O velho pegou o cigarro, fumou-o e logo sentiu dor de barriga, ficando com
diarréia; por isso, ele falou:
- Ô meu neto, vem cá, segurar o fio, que eu vou passar necessidade, segura que
eu já volto.
O Pittiri haledakiri pegou o fio e foi enrolando-o; logo começou a clarear, e tudo
voltou ao normal; o dia já vinha clareando, e amanheceu.

No momento em que Ñapirikoli abriu o baú, e que ficou tudo escuro, ele vinha
viajando com um companheiro, cujo nome é Keerao em nossa língua, que agora é um
pombo, mas naquele tempo era uma pessoa. Quando ficou escuro, Keerao pegou o leite
da sorva e passou nos braços objetivando inventar asas para ele; depois, pegou as folhas
da sorva iwidzoli, grudou-as em seus braços e começou a voar. Voou bem alto, no rumo
do céu. De lá, avistou a casa de Ñapirikoli e disse:
- Agora vou lá à casa do Ñapirikoli, vou namorar a esposa dele.
Voando ele chegou na casa do Ñapirikoli e namorou a esposa dele. Quando
clareou, Ñapirikoli conseguiu achar o caminho de sua casa e, ao chegar, avistou esse
Keerao tendo relação sexual com sua esposa. Muito zangado, Ñapirikoli fechou a porta
de casa, de um lado e do outro, e jogou as frutas do copii, uma árvore que tem frutos
tipo macucu, em cima do Keerao, tentando matá-lo. Este se transformou em ave e ficou
voando ali dentro da casa.
Ñapirikoli pegou essa ave que era o Keerao e a jogou para fora de casa. O
pássaro ficou com raiva e quis matar Ñapirikoli. Keerao foi lá fora no pátio, depois
voou rumo onde o sol se põe, foi pegar água e, usando magia, criou uma enxurrada para
matar Ñapirikoli, que, sabendo que o Keerao pretendia, levantou uma perna rumo ao
céu e deixou a outra aqui no chão. Isso era para ele poder resistir à grande água que
estava vindo. Se ficasse com as duas pernas aqui na terra, a força da água da enchente ia
levá-lo e matá-lo, por isso, deixou só uma perna aqui na terra e apoiou a outra no céu.
Veio uma água enorme que alagou o mundo intreiro, mas só passou por baixo da canela
do Ñapirikoli. Naquele tempo, a água não tinha caminho, não era rio, se espalhava por
todo lado. Na verdade, não tinha água, foi dessa magia de Keerao que começou a existir
água.
Depois, a água foi secando, secando e só ficou assim, tipo um caminho com
água, foi isso que ficou sendo o rio. Daí, Ñapirikoli pensou em fazer os peixes para
viverem nesse rio. Então, ele pegou as árvores, cortou-as em pedaços. Os pedaços de
árvores eram de várias cores; tinha branco, vermelho, preto, tinha muitas cores; foi esse
material que ele usou para começar a fazer os peixes. Ñapirikoli pensou:
- É bom fazer esse peixe para ser colocado no rio.

As cores daqueles peixes ele tirava do sol. Quando olhamos para o sol, vemos a
luz dele com várias cores; foi dali que Ñapirikoli tirou as cores para pintar os peixes, é
por isso que o tucunaré, por exemplo, tem duas cores; tem vermelho e tem preto.
Antigamente, Ñapirikoli fez as cores dos peixes tirando-as ali do sol. Depois que
fez tudo isso, ele benzeu e soprou com o cigarro naqueles pedaços de madeira que havia
cortado; quando os jogou na água, eles se transformaram em peixes.
Naquele tempo, os peixes não eram ariscos como são hoje, eram bem
mansinhos; nós podíamos pegar neles, e eles não tinham medo das pessoas. Os peixes
também não tinham ossos (espinhas), eram todos molinhos, mas já tinham vida.
Ñapirikoli tentava espantar os peixes para povoar os rios., mas eles não iam para longe,
ficavam todo tempo ali por perto dele. Aí ele pensou:
- Achou que desse jeito não vai dar certo; tenho que fazer outra coisa. De onde
eu vou tirar osso para o peixe?
Ñapirikoli acendeu um cigarro e começou a pensar. Em seu pensamento viajou
para as quatro direções do mundo e achou o osso que procurava. O osso para os peixes
foi pego no leste, oeste, norte e sul; onde o sol nasce, onde o sol se põe, onde é o lado
direito e onde é o lado esquerdo. Ele pegou osso e fez isso para o peixe. Quando fez o
osso, colocou no peixe e jogou o bicho na água de novo, rapidamente o peixe foi
embora para longe, saiu nadando. Ele ouviu aquela batida que o peixe faz quando está
indo embora e, então, ele falou:
- Agora sim, deu certo dessa vez; é desse jeito que vai ficar para a nova geração.
Depois, Ñapirikoli fez caniço e preparou isca, tudo direitinho. Aí, ele fez a
primeira pescaria; colocou a isca no anzol e pôs na água; rapidamente o peixe veio e
comeu. Ele matou três peixes, depois disso ele falou:
- Está bom, é desse jeito que vai ficar.
E assim ficou até hoje.
Depois que ele fez o peixe todo bonitinho, quer dizer, um peixe normal com
osso e tudo como é hoje, ele começou a gritar, porque queria distribuir os peixes em
todos os rios. Ele começou gritar o nome dos rios. Chamou o rio Orinoco, que
respondeu; depois chamou o rio Solimões e o Juruá, eles também responderam, por 
isso, esses rios têm muito peixe hoje. Depois, ele chamou o rio Içana, que ficou calado,
não respondeu nada; ele, portanto, não jogou peixes para lá.
Ñapirikoli chamava e, para onde respondiam, ele jogava os peixes. No final, ele
gritou de novo o nome do Içana; só, aí, o rio respondeu, ele deixou para responder no
final. Ñapirikoli falou:
- Agora pronto, você perdeu, vai ficar só com pouco peixe.
Como tinha sobrado só um pouco de peixe, ele jogou nesses peixes aqui no
nosso rio, por isso, é que, no rio Içana, não existe muito peixe, só existem traíra e
tucunaré. Nos outros rios existem mais peixes, porque, para lá, ele jogou bastante.
Depois que distribuiu todos os peixes. Ñapirikoli ficou panema, não conseguia
mais matar peixe. Seu cunhado Heeri era marupiara, tinha muita sorte na pescaria, e
Ñapirikoli queria saber porque isso acontecia. Heeri tinha um filho pequeno, e
Ñapirikoli perguntou para a criança:
- Como é que teu pai mata tanto peixe, e eu não consigo?
- Não sei não, ele só vai lá e pesca.
Ñapirikoli insistiu:
- Me explica como é; me explica direitinho como é que ele mata esses peixes.
- Não, não é ele, eu mesmo faço isso.
Isso aconteceu porque o filho de Heeri tinha uma ferida, e essa ferida atraía os
peixes.
O menino contou:
- Meu pai me leva até o local onde ele vai matar peixe e me deixa um pouquinho
alto na água. Aí, o líquido que sai dessa ferida pinga na água, e os peixes chegam. É
assim que ele faz comigo.
- Então, tá! Agora eu vou te levar e matar muitos peixes também.
- Então, tudo bem, concordou o menino.
Ñapirikoli levou o menino para o local da pescaria e o deixou em cima de um
jirau. O líquido que saía da ferida pingava na água e atraía os peixes. O pai do menino
sabia que só podia matar um ou dois peixes, três no máximo, logo em seguida devia 
mudar de local de pescaria, porque senão viria um peixe grande e comeria o menino,
visto que ele era muito atraente para os peixes. Ñapirikoli levou o filho de Heeri para a
pescaria. No primeiro local, ele matou um pacu, depois um aracu e, na terceira tentativa,
ele matou mais outro. O menino então falou:
- Não! agora já está na hora, me tira daqui; é assim que papai faz comigo.
Só que Ñapirikoli , por estar entusiasmado com a pescaria, não atendeu ao que o
menino disse e continuou pescando. Então veio um peixe grande e comeu o filho de
Heeri.
A partir daí, que Ñapirikoli ficou com raiva dos peixes porque comeram o filho
de Heeri. Ele também ficou envergonhado, pois não sabia como explicar isso para o pai
do menino. Depois desse acontecimento, ele tentou pegar os peixes para resgatar o
menino, mas ele não sabia exatamente qual peixe havia levado o filho de Heeri. Então,
ele fez armadilhas para pegar todo tipo de peixe, para, em seguida, abrir seu bucho e,
assim, ver se conseguia encontrar o filho do Heeri. Mas, apesar da armadilha, não
conseguia pegá-los; por isso, ele pensou em uma coisa mais aprofundada.
Sentou-se e começou a pensar e a buscar um benzimento do outro mundo, do
céu, que chamamos apakomhe. Através do seu saber ele colocou uma armadilha na
cachoeira, no local que hoje chamamos de Buia. Lá, ele colocou uma armadilha para
peixes, por isso, é que peixes como piraíbas, piranhas e outras espécies que vivem na
parte baixa do rio não conseguem ultrapassar a cachoeira de Buia. Os cabeçudos e
outros peixes que têm sua origem no trecho de cima do rio, ultrapassam a cachoeira de
Buia, mas os que vivem no rio abaixo, não conseguem subir a cachoeira. Isso aconteceu
porque os peixes grandes comeram os filhos de Heeri e Ñapirikoli queria pegá-los,
então ele botou uma armadilha na cachoeira e eles não podiam mais passar lá.
Como os peixes eram mais espertos do que Ñapirikoli, eles se transformaram em
passarinhos e conseguiram se livrar dessa armadilha. Isso aconteceu porque quando
Ñapirikoli rezou lá no seu pensamento, mas se esqueceu de fechar o mundo chamado
malimalikoa e, por ele, os peixes fugiram. No outro dia, quando Ñapirikoli foi ao
matapi ver se a armadilha tinha funcionado, viu que, lá, só tinha folha, não tinha peixe.
Não tinha nadinha! Só folha. Ñapirikoli pegou as folhas que ficavam no matapi e as
jogou fora. Para ele aquilo ali não era nada, mas, no outro dia, ele chegou lá de novo e 
escutou um barulho, eram os peixes que já estavam lá no remanso. Ele ficou, ainda, com
mais raiva, porque não tinha se vingado dos peixes e não sabia como fazer.
Aqui no rio Içana, no rio Uaupés e também no rio Negro existem ponto onde
Ñapirikoli colocou as armadilhas para ver se conseguia matar os peixes. Lá em
Caranguejo, perto de S. Gabriel existe uma outra armadilha que ele pôs. Nessa
cachoeira do caranguejo, quando alguém alaga, vai para o fundo e não é encontrado
porque fica preso lá na armadilha de Ñapirikoli. Lá perto de São Gabriel, ele colocou
outro matapi grande para ver se conseguia matar os peixes.
Depois que Ñapirikoli andou e fez esses instrumentos para pegar os peixes, eles
fugiram dele. Os peixes pularam para a serra que fica na foz do Uaupés, que se chama
Manopia; é uma serra que existe ali. Foi para lá que pularam esses peixes que viviam
fugindo de Ñapirikoli. Depois de muito tempo, Ñapirikoli soube que os peixes haviam
se livrado de suas armadilhas e que estavam em Manopia. Ñapirikoli decidiu ir lá com
eles para fazer guerra. Esse lugar fica no topo de uma serra, que, no saber deles, é
considerada como um lago. Depois que ele foi lá, os peixes espantaram-se e vieram
pulando até a serra do Tunuí, chamada em nossa língua de Eenopolikoa heridawania.
Quando fazemos benzimento, temos que pensar em todos esses lugares e espécies que
viviam neles para dizer na reza, porque senão ela fica incompleta e não faz efeito.
Depois disso, Ñapirikoli soube que os peixes tinham se mudado para Tunui.
Novamente ele pensou em ir fazer guerra contra eles. Ñapirikoli tinha um amigo, uma
espécie de cabeçudo, o aara-vermelho. Ele disse, assim, para Ñapirikoli:
- Ñapirikoli, acho que você não pode, mas eu posso fazer isso.
Esse aara levou timbó para assustar e espantar os peixes daquele lugar; foi até
onde eles moravam e entrou na casa deles, colocando o timbó em todos os cantos;
depois pulou para cima e saiu pela janela, nesse momento, os peixes esavam rindo dele,
mas depois perceberam que estavam sendo envenenados. No mesmo instante, um pulou
para cima e caiu no lugar chamado Hemalipina; depois, outros tentaram escapar, mas
não conseguiram e morreram lá dentro. O timbó é muito perigoso, porque ele espanta e
mata tudo o que tiver dentro de um lago. Por isso os velhos antepassados que utilizavam
esse material tinham um benzimento que é mais ou menos assim: matiame nottimeta
naakona nhá oleeñeenai nhoeneetakaro watsa linopanáa...
Vendo que outros já tinham morrido, o tucunaré pulou ali para Hemalipina; esse
nome é também de um lago que leva o nome Hemalipina, é o Tucunaré Lago. Foi dos
pulos dos peixes que surgiram os nomes de alguns lagos que existem ali para o Uaupés;
eles estão espalhados por todo o lado, porque os peixes pularam para todos os rios.
Quando o aara fez todo esse trabalho, Ñapirikoli estava ainda tentando matar os
peixes. Ali no Içana, acima do local, que chamamos de Bacaba-Poço. Ele ficou
esperando para ver se o aara conseguia matar alguns peixes; devido aos seu poder
Ñapirikoli era capaz de avistar tudo no fundo da água. Então, quando estava esperando
com a flecha para matar os peixes, veio o boto, que chamamos de amána, e ficou ali
boaindo. Ele disse:
- Ei, rapaz, o que você está fazendo aí?
Ñapirikoli respondeu:
- Estou esperando para matar os peixes, pois tenho um grande problema. O filho
do meu cunhado foi comido por um peixe, por isso, estou aqui, procurando o peixe para
matar.
O que Ñapirikoli queria era matar os peixes e depois abrir o bucho deles para ver
o que tinha lá dentro, para ver se encontrava o filho de Heeri. O boto disse:
- Ah! O teu filho foi comido?
- Foi comido o meu filho.
Mas, na verdade, era o filho de Heeri.
- Não foi um grande peixe que comeu o filho de Heeri, e sim um sucuriju, que se
chama Omáwali, que é a maior obra da água. Ele está bem ali naquele lago.
O lago era uma casa bem grande, uma comunidade com uma grande maloca. O
boto prosseguiu:
- Ontem, estávamos na festa e conhecemos aquele homem sucuriju; é um
homem muito ruim, foi ele quem tirou aquele teu filho. Teu filho está ali. Ontem,
fizemos uma festa, e eles brigaram comigo, foi aquele homem quem brigou, me deu
uma paulada na cabeça, por isso, que estou com uma ferida aqui.
Hoje em dia, o boto tem um buraco na cabeça, porque foi onde levou uma
paulada nessa briga.
O boto insistiu:
- Teu filho está bem ali. Vai lá e mata aquele sucuriju, pois ele é muito feio e
não perdoa ninguém; é melhor você matá-lo.
Ñapirikoli concordou e disse que iria lá na maloca do Omáwali. Perguntou ao
boto como faria para chegar até à casa do sucuriju. O boto respondeu:
- Você faz o seguinte: vá ali na maloca que tem um porteiro; na nossa língua
esse porteiro é dzaama.
- Como é que eu faço para chegar até o sucuriju?
- Você diz ao porteiro assim: Semom, que em nossa língua significa
companheiro ou amigo, ainda tem aí um resto de caxiri para mim? Eu estou querendo
beber. Tu falas assim, e ele vai te deixar entrar. Numa rede vai estar aquele sucuriju e a
esposa dele; bem perto dali, estar o fogo para ele se esquentar.
- Está certo, disse Ñapirikoli.
Ñapirikoli foi lá, levou suas fechas e entrou na maloca; encontrou com o
porteiro dzaama e disse:
- Ei, companheiro! Por favor, ainda tem o resto de caxiri? Vê se ainda tem e
arranja para mim.
- Acho que inda tem.
Procurou ali, pegou e deu para ele tomar. O caxiri dos peixes era muito bom.
Ñapirikoli ficou olhando para dentro da maloca e avistou as redes, uma com o sucuriju,
que estava meio ressaqueado, e outra com a esposa dele. Ñapirikoli pensou:
- Está certo então.
Ele ficou tomando caxiri até ficar com a barriga bem cheia, depois vomitou. Ele
ficou ali bebendo com aquele porteiro, o dzaama. Depois, Ñapirikoli pegou o cipó que
serve para amarrar cacuri, o qual chamamos apeeña em nossa língua, rasgou-o e jogou
as raspas no fogo do sucuriju que comeu o filho de Heeri. Quando ele jogou a raspa do
cipó no fogo, veio um cheiro ruim; o sucuriju, que estava dormindo na rede, respirou,
sentiu aquele mau cheiro e vomitou. No que ele vomitou, saiu da barriga dele aquela
criança, que era o filho de Heeri . Então, Ñapirikoli flechou o sucuriju e a esposa dele.
Na conversa anterior com o boto, este tinha avisado que, depois de matar o
sucuriju, Ñapirikoli poderia sair da maloca por uma saída onde avistasse muitas
borboletas. Ele avistou as borboletas e correu para lá levando a criança que havia sido
comida. Quando saiu, avistou uma campina vazia, não tinha nada ali, porque,
antigamente, nesse lugar tinha existido uma grande maloca. Quando chegou ali, o boto
disse que seria melhor esperarem para verem se a cobra tinha morrido mesmo. Eles
ficaram ali esperando e, de repente, ocorreu um barulho enorme dentro da água, era o
sinal de que ele estava morrendo.
Ñapirikoli levou a criança para junto de seu pai Heeri. Aí, disse:
- Já estava morto o menino.
Para chorar a criança, Heeri transformou o corpinho dele em cabas com aquele
ferrão. O peito da criança foi transformado, por isso, existe uma caba que tem tipo um
saco na frente do corpo; ela tem um biquinho, que é um sinal do peito da criança; por
isso, as cabas, hoje, são comida dos peixes, principalmente os peixes gordurosos, como
o pacu. Pacu gosta de caba; se pegarmos o ovo da caba para ir pescar pacu, ele come
muito bem. A caba era aquela criança, por isso, os peixes gostam de comer as cabas, do
mesmo jeito que gostavam do líquido da ferida do menino. Aqui termina a história."

5 - A Guardiã do Nixi Pae, Jiboia Branca

Povo Huni Kuin (Kaxinawá)

"Foi o meu professor, Mëtun Ares Maia, da Aldeia Belo Monte, meu avô por parte de mãe, que me ensinou a lenda da Jibóia Branca, o mito, do poder, conhecimento, mistério e ciência da floresta encantada. Conta-se que o guerreiro foi procurar caça. Ele estava caçando e acabou encontrando um encantado, a Mãe da Jibóia Branca, que morava no lago grande. (Explico: a jibóia morava nesse lago e se transformava em mulher, ia para a terra e depois voltava para o lago). E a partir desse encontro, nesse momento, o guerreiro se apaixonou. Pediu ela em casamento e ela aceitou. O guerreiro e a Jibóia tiveram uma vida muito boa, conhecimento e aprendizado no mundo espiritual da Jibóia Branca.

Nesse lago grande, na comunidade da Jibóia Branca, viviam muitos encantados. Todos eles conheciam o segredo da planta do poder que é a ayahuasca, o cipó. O cipó para nós é nixi pae; a folha se chama kawa. O guerreiro aprendeu com a Jibóia Branca todos os ensinamentos do canto, do mantra – nós chamamos “miração da Jibóia Encantada” –; aprendeu como se preparar para chamar os encantados, todas as criações de Deus, que nós chamamos Kushipa. São uns cantos na nossa língua, a nossa língua se chama Ratxa Kuin. Cantamos o Huni Meka, que é o nosso canto, nosso mantra, da Jibóia. Nosso pajé, nosso professor, nosso mestre, e o nosso Kushipa, que é o nosso Deus, nos ensinou. Foi assim que o povo Huni Kuin recebeu estes conhecimentos. Recebemos o presente de curar nossas comunidades, parentes, de orientar os ensinamentos, recebemos através da ayahuasca a sabedoria, todos os conhecimentos que vêm da ayahuasca, a cultura ayahuasqueira do cipó. Meu avô Sueiro, que eu gosto demais, foi uma liderança importante do Jordão. Ele me convidou, quando eu tinha sete anos, para tomar a ayahuasca. E na primeira noite eu estava com uma miração muito boa, com várias imagens em preto-e-branco, vermelho, cores super azuladas nessa miração… tive uma visão, um encontro com a Jibóia Branca na miração.

Meu professor, Mëtun, o líder mais antigo, uma pessoa de experiência, me contou essa história da Jibóia Branca, que eu estava contando para vocês. Bom, vou falar do mito de novo. Dentro dessa comunidade que o guerreiro foi morar junto com a sua esposa, a Jibóia Branca, eles tiveram três filhos. E assim ele foi convivendo na vida deles, fazendo tudo como eles. A lenda conta que ficaram três anos morando nesse fundo do lago escuro. Teve um certo dia que os pajés da comunidade foram buscar o cipó e a folha, para preparar nixi pae. O guerreiro, que já estava ali há um tempo, nunca tinha experimentado o cipó, mas tinha curiosidade. Ele ia no ritual do nixi pae sem tomar porque a Jibóia não deixava participar da miração do cipó sagrado, do ensinamento. Mas naquele dia ele queria participar, era o momento. Então o guerreiro pediu permissão para tomar o cipó. Já tinha passado três anos. A Jibóia Branca falou que ele não podia porque era muito forte a miração de todos os segredos da Jibóia. Em volta da mata tinha uma miração muito sagrada. Aí ele falou: “— Mas eu quero participar, já estou há três anos aqui, para mim já é bastante e eu quero participar dessa cerimônia para ver qual é o canto da Jibóia que vai me mostrar na miração. Eu sou guerreiro e eu tenho que participar”. Aí a mulher dele falou: “— Está liberado, tem condições de você tomar e se concentrar nos cantos da Jibóia para você ter uma miração boa, para trazer paz para a nossa comunidade, conhecimento, aprendizado, sabedoria, luz do cipó ayahuasca.”

Então eles tomaram essa noite, foi uma noite muito importante. Eles estavam fazendo a cerimônia lá no fundo do lago escuro – todos os encantados, todos os animais desse local participaram da cerimônia. Eles começaram a cantar, serviram um copo para cada um, serviram mais uma, a segunda, a terceira rodada… Aí começaram a receber as forças do cipó, a incorporação de todas as vibrações da ayahuasca, a energia da terra, da água, da floresta, e o guerreiro começou a perceber as forças das mirações da Jibóia. Ele ouviu os cantos e viu muita coisa, aprendeu bastante coisa, e num certo momento ele viu uma Jibóia Branca engolindo um guerreiro na miração. A partir do momento que viu que estava sendo engolido pela Jibóia Branca na miração, o guerreiro não agüentou, começou a gritar alto na cerimônia, “ah ah ah ah!”. Mas ele não podia gritar, ele podia participar mas sem gritar – tinham avisado isto para ele no começo.

Os pajés que tinham preparado a folha e o cipó ficaram assustados, tiraram a miração do guerreiro, forçaram uma oração de cura no corpo dele e assim amanheceu o dia. Como a missão era muito sagrada para a Jibóia Branca, eles ficaram um pouco chateados, ofendidos com aquilo que aconteceu lá na cerimônia. E ficou um clima muito pesado para o guerreiro. Quando amanheceu o dia, as Jibóias foram caçar. O amigo do guerreiro – o guerreiro tinha um amigo, peixe encantado do lago – que estava sabendo o que tinha acontecido, aproveitou que as Jibóias foram caçar, e veio na direção do guerreiro para conversar com ele. O peixe falou da família que o guerreiro deixou lá na comunidade que ele tinha vivido, na Terra, lá com os Huni Kuin… Lembrou que os filhos do guerreiro, com a sua primeira mulher, estavam procurando o pai, sofrendo sem ele e disse que ele deveria voltar para a comunidade dele lá na aldeia.

O guerreiro aceitou o convite do amigo para levar ele até a casa dele, numa comunidade Huni Kuin. Quando as Jibóias chegaram da caçada, o guerreiro tinha fugido e retornado para a comunidade dele. Nessa volta, saindo do lago escuro, ele passou remédio em todas as partes do seu corpo, nos ossos, nos olhos, para se transformar de novo, e ele voltou a ser Huni Kuin. Voltou para a antiga mulher dele. Quando ele chegou, ela perguntou o que tinha acontecido com o guerreiro, e ele contou toda a história de como surgiu o encantamento com a Jibóia, que ele se apaixonou, que achou muito bonito, que ele foi morar com os encantados dentro do lago, que havia tomado a folha e o cipó, teve a miração, e que ele gritou na noite da cerimônia e então ficou um clima chato e ele resolveu ir embora. Ele contou todo o processo da carreira do encantamento com a Jibóia Branca na comunidade dele, os cantos que ele recebeu na miração do cipó. A mulher escutou tudo, ficou morando com ele, mas ela ficava com medo dele voltar para a comunidade da Jibóia e não deixava ele sair de casa.

Passou um tempo, e o guerreiro voltou no mesmo lugar que ele havia encontrado com a Jibóia Branca na primeira vez no encantamento. Ele voltou lá porque ele já tinha visto, naquela miração que ele gritou, que ela tinha uma missão a cumprir. Então aí guerreiro encontrou o filho da Jibóia Branca, o filho dele, que estava lá procurando o pai. O último filho dele, o filho pequeno, a Jibóia pequena, veio e mordeu a ponta do dedo do guerreiro, mas não tinha força suficiente para comer o pai, engolir. Então o a Jibóia pequena chamou um irmão para ajudar. Veio um irmão e tentou morder a ponta do dedo do pé e também não conseguiu engolir. Chamaram então o outro irmão, e o outro irmão veio e também não conseguiu engolir. Chamaram a mãe, que era a Jibóia grande, guerreira. A Jibóia veio, conseguiu engolir os dois pés do guerreiro, foi engolindo o pé para cima na cintura, na barriga, aí ele começou a agir, começou a gritar, pediu socorro para a comunidade. Começou a gritar bem alto na floresta, “rei rei rei!”.

O pessoal da comunidade Huni Kuin onde o guerreiro morava, escutou e veio ver o que estava acontecendo. O guerreiro estava na metade, a mulher dele estava engolindo ele, mas ainda estava vivo, gritando. Aí, os guerreiros da comunidade mataram a Jibóia, conseguiram bater na cabeça e conseguiram matar a Jibóia. Tiraram o guerreiro vivo da boca da Jibóia. Só que o guerreiro estava todo quebrado, mordido de cobra, com as juntas todas quebradas. O guerreiro pediu para os parentes dele levarem a Jibóia também. Aí os discípulos do guerreiro levaram ele para a comunidade, e enterraram ele e a Jibóia um do lado do outro, como o guerreiro pediu. Não enterraram tudo junto porque ele explicou que ele ia se transformar em cipó – ia nascer um cipó da sepultura aonde ele foi sepultado – e a Jibóia ia se transformar em folha, kawa, a Rainha da Floresta.

Esperados três meses nasceram o cipó e a folha do jeito que ele falou. O guerreiro também tinha falado que era para eles tirarem o cipó com muito respeito. Antes de tirar o cipó e folha, pedir licença à natureza, pedir licença ao cipó e à folha. O guerreiro também ensinou mais uma coisa sagrada, os ensinamentos do mantra através da miração, o canto que foi dado. Aí como era encantado, o cipó cresceu rapidinho, deu dessa grossura [mostra com as mãos]. A comunidade mais antiga, dos índios mais velhos, foram lá, pediram licença, fizeram uma oração, fizeram uma cerimônia em volta desse cipó e da folha, tiraram e fizeram o cozimento do jeito que o guerreiro falou, na panela de barro, colocaram folha, cipó e água. O fogo tinha que ser feito com uma árvore especial que tem na floresta, que é yapa karu, a madeira que a gente queima para fazer o preparamento do cipó.

Toda a comunidade foi convidada para participar dessa cerimônia de ayahuasca. A partir desse momento, tomaram o cipó, e começaram a ter mirações na primeira dose, na segunda dose, na terceira dose… e começaram a receber todos os mantras que o guerreiro tinha falado. Através dessa miração eles conseguiram captar todos os cantos Huni Meká, os mantras do cipó, e todas as sabedorias da natureza, a ciência, o mistério, os conhecimentos da guardiã da Jibóia, receberam essa missão."

Narrado por Leopardo Sales Yawa Bane Huni Kuin 

6 - A origem dos Kaingang

"A tradição dos Kaingang afirma que os primeiros da sua nação saíram do solo; por isso têm cor de terra. Numa serra, não sei bem onde, no sudeste do estado do Paraná, dizem eles que ainda hoje podem ser vistos os buracos pelos quais subiram. Uma parte deles permaneceu subterrânea; essa parte se conserva até hoje lá e a ela se vão reunir as almas dos que morrem, aqui em cima. Eles saíram em dois grupos chefiados por dois irmãos, Kayrú e Kamé, sendo que aquele saiu primeiro. Cada um já trouxe consigo um grupo de gente. Dizem que Kayrú e toda a sua gente eram de corpo delgado, pés pequenos, ligeiros, tanto nos seus movimentos como nas suas resoluções, cheios de iniciativa, mas de pouca persistência. Kamé e seus companheiros, pelo contrário, eram de corpo grosso, pés grandes, e vagarosos nos seus movimentos e resoluções." Fonte: http://comin.org.br/static/arquivos-publicacao/MITOS%20KAINGANG.pdf


7 - Awara Nane Putane -- A história do Cipó

Versão do Povo Yawanawa

8 - Origem do Povo Karajá

'"Eles moravam numa aldeia, no fundo do rio, onde viviam e formavam a comunidade dos Berahatxi Mahadu, ou povo do fundo das águas. Satisfeitos e gordos, habitavam um espaço restrito e frio. Interessado em conhecer a superfície, um jovem Karajá encontrou uma passagem, inysedena, lugar da mãe da gente (Toral, 1992), na Ilha do Bananal. Fascinado pelas praias e riquezas do Araguaia e pela existência de muito espaço para correr e morar, o jovem reuniu outros Karajá e subiram até a superfície.

Tempos depois, encontraram a morte e as doenças. Tentaram voltar, mas a passagem estava fechada, e guardada por uma grande cobra, por ordem de Koboi, chefe do povo do fundo das águas. Resolveram então se espalhar pelo Araguaia, rio acima e rio abaixo. Com Kynyxiwe, o herói mitológico que viveu entre eles, conheceram os peixes e muitas coisas boas do Araguaia. Depois de muitas peripécias, o herói casou-se com uma moça Karajá e foi morar na aldeia do céu, cujo povo, os Biu Mahadu, ensinou os Karajá a fazer roças." Fonte: http://pib.socioambiental.org/pt/povo/karaja/374

Redação Yandê
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