Manifesto dos alunos da PAA/UFOPA no Pará

09 JUN 2015
09 de Junho de 2015
CARTA/MANIFESTO DOS ALUNOS DO PAA/UFOPA

Nós, alunos de Antropologia e Arqueologia da Universidade Federal Oeste do Pará, vimos por esta carta/manifesto explicitar de forma pública e honesta nossa insatisfação quanto à postura adotada por alguns professores do Programa de Antropologia e Arqueologia (PAA) em relação a diversos fatos, sobre os quais muitas vezes nos silenciamos ou fomos silenciados, recuamos e fomos constrangidos de expressar nossa opinião.

Percebemos, que o momento que ora atravessa o PAA, apresenta uma oportunidade ideal para suscitar reflexões profundas sobre o que já vivenciamos nesses quatro anos de existência do Programa, e para apontar para um novo modo de fazer e agir – dentro e fora da academia – que proporcione a construção e a manutenção de relações interpessoais mais respeitosas, mais éticas e mais democráticas.

Acreditamos que toda essa insatisfação e revolta, hoje presente no seio de nosso Programa – seja entre alunos ou entre professores – tem como pano de fundo um contexto produzido dentro do próprio PAA, como resultado de decisões mal acordadas no Colegiado, conduzidas e impostas por uma maioria construída na base das relações de interesses pessoais ou do próprio grupo, com enorme dificuldade em ouvir as vozes dissonantes, sejam estas de alunos ou de outros professores. 

Decisões que interferem de forma crucial no percurso acadêmico dos alunos e no cotidiano do programa foram tomadas sem sequer o conhecimento da maioria dos alunos. Um exemplo clássico foi a liberação de professor que havia acabado de passar no concurso – realizado para suprir uma necessidade premente de docentes no curso de Arqueologia – para realização de doutorado no exterior, sem ao menos cumprir o estágio probatório. Não temos notícias de que os alunos foram consultados sobre esse assunto. E consideramos isso grave!

Não se trata de, única e exclusivamente, pontuar aqui as possíveis irregularidades ou desvios de conduta cometidos contra os interesses de discentes ou mesmo da instituição como um todo. Porém, o exemplo mencionado é esclarecedor ao demonstrar quando o interesse de um grupo, dentro do Colegiado, se sobrepõe ao interesse de toda uma comunidade. E mesmo que existam brechas jurídicas para justificar tais decisões, nos parece na contramão do que seja razoável e moralmente aceito. Motivo pelo qual solicitamos a devida apuração pelo MPF.

Por quatro anos estivemos alijados das várias decisões como se não fossemos capazes de contribuir para o enriquecimento do debate dentro do Colegiado ou não pudéssemos sequer entender o projeto pedagógico dos cursos para ter direito a opinar sobre eles. Quando liberaram a participação de um aluno por curso, deixaram claro que apenas esses – os escolhidos – poderiam participar. Foram vários os momentos com tentativas de cercear a participação de alunos nas reuniões do Colegiado. As últimas tentativas foram bem evidentes durante as assembléias par aprovação do Regimento Interno do Instituto.
Se na teoria o campo das ciências sociais se apresenta na defesa da pluralidade e da democracia, 

infelizmente, esta – teoria – parece não ter alcançado a prática docente da maioria no PAA. Não raro, vozes discordantes passam a ser motivo de chacotas, piadinhas e ridicularização. Neste contexto, surgem relatos de discriminação, constrangimentos, ameaças, piadas preconceituosas e assédio moral, seja entre os próprios professores ou destes para os alunos. 

Não foi à toa o grito de desespero dos alunos indígenas do baixo Tapajós! Ele não surgiu do nada. É resultado de uma prática que oprime, inclusive quando também se omite! Só não vê quem não quer!
Se o grito dos alunos munduruku, no emblemático “caso Daniel Belik”, e posteriormente, dos alunos indígenas do baixo Tapajós fez despertar discentes e docentes para os equívocos que podem estar sendo cometidos na condução do projeto pedagógico dos cursos de Antropologia e Arqueologia, nós, demais alunos do programa, que assinamos este manifesto, aproveitamos para também expressar nosso descontentamento com o que estamos vendo, e que consideramos extremamente grave, sob o ponto de vista da ética. 

Este manifesto quer deixar bem claro que não somos periferia – geográfica e/ou intelectual e muito menos quintal de outras universidades, como parece ser visto por alguns docentes do Programa. Pelo contrário, somos capazes de nos articular, de ler a conjuntura, de ponderar, de nos posicionar, de decidir o que queremos e o que merecemos. E que fique explícito: como futuros antropólogos e arqueólogos sabemos repudiar, de forma veemente, qualquer tentativa de perpetuação das práticas colonialistas, principalmente as que ocorrem dentro da academia!

De antemão, já sabemos que podemos ser atacados em represálias ao que hoje expomos. Muitos considerarão um absurdo o fato de alunos estarem questionando seus professores, titulados mestres e doutores, rebaixando o discurso para apontar um possível ato de indisciplina. Tal atitude apenas confirmará nossa denúncia de ausência de democracia e de compreensão do espaço acadêmico como privilegiado para o exercício da práxis libertária.

Desde já, exigimos reuniões abertas para o Colegiado do PAA, e a participação ampliada dos alunos, pois nosso querer é tão legítimo quanto o querer de docentes e técnicos. 
Exigimos a condução de reuniões sob o signo do respeito ao próximo, mesmo quando as opiniões forem divergentes, com pleno exercício da democracia, com a garantia do direito das minorias, e total prioridade aos valores éticos. Pelo fim do assédio moral, das perseguições e constrangimentos a todos os professores, técnicos e alunos!

Colocamo-nos à disposição para contribuir na construção de um Novo Programa de Antropologia e Arqueologia, baseado em relações éticas, propositivas, inclusivas, com radicalidade democrática, e sem o cerceamento das discordâncias – que bem trabalhadas nos ajudam a crescer.
Esta carta/manifesto também está sendo encaminhada à direção superior desta universidade, à direção do Instituto de Ciências da Sociedade, e ao Ministério Público Federal, visando garantir que os nomes abaixo assinados não venham sofrer quaisquer tipos de retaliações e perseguições posteriores, que possam prejudicar ainda mais nosso percurso acadêmico.

Santarém (PA), primeiro de junho de 2015.

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